sábado, 9 de setembro de 2017

ATRAVÉS DA JANELA




Como fazia todos os sábados, lá pelas onze horas, onze e meia, o velho advogado chegava ao bar e sentava numa mesa - quase cativa - bem em frente à janela, de onde se podia ver, com folga, a praça da Matriz. O dono do bar, seu Alfredo, gostava dele. Servia-o sempre o mesmo: uma garrafa de zinebra do Conde, “Gato Preto” e uma porção de queijo com azeitonas. Como aquele horário tinha pouco movimento, ele e seu Alfredo conversavam sobre quase tudo: mulheres, futebol e política, principalmente.

À medida que o bar ia enchendo, a mesa do velho advogado ficava repleta de gente, amigos e conhecidos que lhe vinham cumprimentar e ali, muitas vezes, entabulavam conversas e debates político-filosóficos que varavam toda a tarde.

Ele saía lá pelas quatro horas da tarde, curvado para um lado, como se portasse o peso de uma imensurável dor.

Naquele sábado, porém, ele chegou bem mais cedo do que o costume, às nove horas. O seu Alfredo estranhou o horário, mas não fez caso. Foi ao balcão buscar a zinebra e o tira-gosto e quando chegou à mesa, não o viu mais ali. Pensou que ele provavelmente saíra e voltaria na hora costumeira. Também não fez caso disso.

No entanto, o velho advogado, continuou sentado na mesma mesa e estranhou o seu Alfredo voltando para o balcão com a bandeja. Chamou-o, mas o homem não lhe deu ouvidos. Ele consultou o relógio e viu que ainda era bem cedo e achou melhor mesmo pedir na hora costumeira, lá pelas onze. Pôs-se então, sossegadamente, a olhar pela janela que dava para a praça da Matriz.

O céu estava de um azul fúlgido, sem nuvens, tão belo como jamais havia visto. Admirou-se também tanto das pessoas sentadas nos bancos da praça, da revoada dos pombos e da correria das crianças que brincavam ali, como nunca antes havia se admirado.

Começou a perceber coisas - com lágrimas nos olhos - que nunca antes havia percebido, como o humilde pipoqueiro nos seus afazeres, de uma tamanha simplicidade. O varredor da praça, com seu macacão laranja, na incansável batalha contra as folhas secas que se recusavam a serem ajuntadas e rodopiavam num redemoinho, como se brincassem com o paciente varredor, que não lhes dava atenção. O mendigo, maltrapilho, sentado em um banco, a mão estendida, invisível, impassível, de um invejável ascetismo, o comoveu profundamente.

Nunca tinha visto as cores da tarde, nem o verde vívido das árvores que balançavam com o vento, sequer o gritante e belo amarelo dos ipês-amarelos!

Abriu a janela para ver mais, para sentir o vento e o perfume das flores. Estava extasiado com tanta beleza e estupefato por não ter notado antes. Achou que estava ficando já meio bêbado, mas lembrou-se de que ainda não havia bebido nada.

Voltou sua atenção para dentro do bar, que já estava cheio. Chamou o seu Alfredo, acenou, mas não obteve resposta. Foi até o balcão e ao chegar próximo, simplesmente empalideceu ao ouvir o que diziam:

- O advogado matou-se hoje, de madrugada, no escritório dele, seu Alfredo! Acabei de vir de lá. O homem tá lá, morto, com uma bala na cabeça.

- Mas não é possível! – Disse o dono bar, incrédulo – Vi ele hoje de manhã aqui no bar! Ele tava sentado ali, na mesma mesa de sempre!

Todos olharam para a mesa. A janela que estava aberta, deixou entrar um vento morno que arrancando as tolhas das mesas, arrebentou os copos no chão - em tão súbito alvoroço – saindo da mesma forma como entrou, deixando para trás um zumbido, semelhante a um lamento de dor.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

O CANHÃO DO EMÍLIO SÁ CONTRA A JAGUNÇADA DO PADRE CÍCERO



Vendo passar o padre, com o pesado bordão com que costumava andar, seguido de um bando de fanáticos, disse: “Ali vai um missionário; amanhã um grande usurário; depois um perigoso revolucionário. ” E a profecia do sertanejo, feita quando o padre Cícero era um santo, realizou-se. (Manoel Bergström Lourenço Filho – in Juazeiro do Padre Cícero)



A Sedição de Juazeiro - como figura nos livros de História - foi um sangrento e cruel confronto ocorrido em 1914 entre as oligarquias cearenses e o governo federal provocado pela interferência do poder central na política estadual nas primeiras décadas do século XX. Ocorreu no sertão do Cariri, interior do Ceará, em reação à interferência do poder central contra a política do coronelismo. Sob a liderança de Floro Bartolomeu e do padre Cícero Romão Batista, um exército de jagunços, bandidos e cangaceiros derrotou as forças do governo federal, depondo Franco Rabelo. Naquela época, o padre Cícero já era idolatrado e considerado um homem santo, "fazedor de milagres".

Em 1922, o escritor cearense Rodolfo Teófilo – nascido na Bahia – publicou pela editora de Monteiro Lobato, um livro sobre esse triste episódio, A sedição de Juazeiro. 

No meio de toda essa história, quase esquecido, há o episódio do canhão do Emílio Sá, dono de uma padaria no centro de Fortaleza, que teve a ideia de fazer um canhão que seria, segundo ele, "a arma fatal para dizimar os rebeldes do padre Cícero". Segue-se o fato, com as próprias palavras do grande romancista e historiógrafo Rodolfo Teófilo: 

“Emílio Sá, para derrocar as fortificações do padre Cícero, mandou fundir um pequeno canhão nas oficinas do Sr. Alfredo Mamede. A pequena peça – julgava-se – poderia atirar bombas de dinamite no acampamento inimigo. (...) A fundição de um canhão em Fortaleza, foi um caso extraordinário; o transporte da peça ao Juazeiro, um lance de suprema audácia”.

A investida contra o exército de jagunços do padre Cícero foi um verdadeiro desastre. O canhão não funcionou como o esperado e virou chacota em todo o Juazeiro. Em 24 de janeiro de 1914 a jagunçada invadiu e tomou a cidade do Crato - sem antes deixar um rastro de violência e mortandade - sob as bênçãos do padre Cícero e da mão de ferro de Floro Bartolomeu. 

O canhão do Emílio Sá se tornou inútil contra o bando ensandecido do padre Cícero e foi abandonado na cidade de Barbalha. A jagunçada se apoderou da peça e a levou para ofertar como um troféu de guerra ao padre Cícero, que mandou enterrar na praça principal de Juazeiro, de boca para baixo, em sinal de desprezo pela inútil artilharia. 

- Esse canhão de boca para baixo, vai servir somente para as velhas baterem os cachimbos. – Disse o sacerdote, em meio à gargalhada geral da tropa.

Padre Cícero, e seu séquito de bandoleiros venceram o canhão e segundo eles próprios sob a bênção de Nossa Senhora das Dores que havia aparecido ao próprio padre Cícero e dito que nenhuma bala poderia feri-los e, se fossem mortos, ressuscitariam em três dias.

Rodolfo Teófilo, em seu livro, retrata assim o cenário daqueles dias: 

“A malta de criminosos não trazia bagagem, nem trem de espécie alguma. Dormia no chão, ao relento, e se alimentava do que ia roubando pelas estradas. Em caminho, praticava toda a sorte de depredações, abrindo cadeias e soltando criminosos, que a seu bando se incorporavam para, juntos, “pacificarem o Ceará”... Era a este bando de ladrões, de malfeitores, quase na sua totalidade de outros estados, especialmente da Paraíba, que o governo chamava “revolucionários” e à sedição – movimento político”. 

Hoje o tal canhão se encontra no Memorial Padre Cícero em Juazeiro do Norte. Inerte e em silêncio, talvez morto de vergonha de tão fracassada aventura.



Fontes: A Sedição de Juazeiro – Rodolfo Teófilo; Juazeiro do Padre Cícero - Manoel Bergström Lourenço Filho; À margem da História do Ceará – Gustavo Barroso.





sexta-feira, 26 de maio de 2017

O CORONEL E A BARATA



Lá no sertão, naqueles tempos, tinha um coronel muito do estribado dos cobres, dono de muitas terras a perder de vista, muito proseador, sabe-tudo, bravateiro até o meio das canelas. Orgulhoso e valentão que nem o Mata-Sete. Só porque tinha dinheiro metido nos cós, ele achava que mandava em todo mundo. E mandava mesmo.

Num tinha nada que ele num soubesse. Metia o bedelho em tudo o que não lhe dizia respeito, ralhava com tudo e com todos, dava palpite até nas coisas das mulheres. Porque tem assunto de mulher que os homens num entende nem que a vaca tussa, mas o coronel, esse sim, sabia de tudo. Num tinha um assunto que ele num botasse a colher.

sábado, 20 de maio de 2017

O PADRE, O MENINO E A GARAPADA DE RAPADURA

Xilogravura encontrada na internet.



Vô-le contá um causo assucedido lá pras banda dos Inhamuns, no interior do Ceará. O causo é o siuguinte e o siuguinte é eche:

Uma feita, vinha um pade em riba duma burrinha já cansadinha da viagem. Os dois, o pade e a burra, a burrinha e o pade, viajavam debaixo dum sol que era tão quente que nem brasa acesa, que nem fornalha. 

Esbaforido pelo calor infernal, o pade viu uma casinha na bêra da istrada. Apeou da burrinha que já não aguentava mais aquela lida de levá o pade.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A SEXTA-FEIRA SANTA NA CASA DE MINHA AVÓ


Minha avó já amanhecia com a cara séria e taciturna logo pela manhã. Quem a via daquele jeito, toda acabrunhada, exigindo a obrigação do silêncio, diria que algo muito sério havia acontecido. Logo ela que sempre fora uma mulher jovial, divertida e brincalhona o tempo todo, mas na Sexta-feira Santa era para ser um dia triste.

- Mataram o Nosso Senhor! – Dizia ela solenemente encurvada, com o terço preto nas mãos trêmulas e a face confiscada por uma pronunciada e profunda melancolia.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

O CABRA QUE LEVOU UM MÓI DE CHIFRE E SE AMANCEBOU-SE COM UMA MALA VÉIA




Pois é, o Chiquim de Nóca, se casou-se com uma moça vistosa! Pense numa cabôca arrumada!

Ela era gostosa mermo? Ouvi dizer.

Vixe! Marminino! Era tão boazuda, a muleca, que num tinha uma roupa que fosse que coubesse nela! Ela só vestia roupinha curta, mostrando os balengotengo! Tudo à mostra! Os zôme virava as cabeça e quase torava o percoço pru mode olhar pra danada!

sábado, 25 de março de 2017

QUANDO CHOVE NO SERTÃO



Quando chove no sertão, o céu de um azul cintilante se faz duma hora para outra cor de chumbo, com nuvens espessas se avolumando no horizonte, fazendo desaparecer a serra no meio de névoas. A vegetação das caatingas, nessas paragens, outrora raquítica e seca, ostenta agora todo o seu luxo e vigor, flores agrestes rebentam no meio da mata, pequenas árvores copadas se revigoram chamando os bem-te-vis, um escampado de relvas se estende sobre o lajeiro; arbustos de melão-caetano se entrelaçam, subindo fagueiros pelas cercas abandonadas.

Meu avô, seu Alfredo, estupefato diante de tanta beleza e que não via há tempos, suspirou bem fundo para sentir o cheiro da chuva e da terra molhada.

– Vixe, minino! Vem mais água por aí!

Minha avó, dona Rita Júlia, pequenininha, enrolada numa colcha de retalhos, com os olhos translúcidos de chuva, assentia com a cabeça, em seu silêncio peculiar.

A tarde ia já se desfazendo em cores pinceladas nos rochedos ao longe.

O sol esmaecia no horizonte e adormecia sobre as estradas sonolentas, iluminando o dia com os seus últimos raios.

A luz tênue e suave do ocaso, serpenteando pela agora verde vegetação da caatinga, debruça-se como vagas douradas e purpúreas sobre a folhagem das carnaubeiras balançadas pelo vento gélido anunciando a noite.

Os frutinhos silvestres salpicam com suas flores brancas e delicadas; o copo-de-leite já se abre lentamente para beber no seu cálice o orvalho noturno. Uma música de notas suaves saúda o pôr-do-sol que já projeta sombras enormes por sobre o sertão chuvoso.

Era a solene hora do Ângelus, a hora misteriosa do entardecer, em que o sertão se prosterna para sussurrar a prece do sertanejo. Um radinho de pilha ao longe entoava a Ave-Maria de Gounod.

A noite prometia ser chuvosa. Os trovões já ribombavam, riscando o céu já escuro com raios impressionantes, clareando toda a mata. A chuva então se precipitou forte, encharcando o chão seco. A serra ao longe envolta em densa neblina parecia tremer sob o impacto da tempestade.


O inverno chegou.







Obs: A propósito – não sei se alguém percebeu – o entardecer descrito foi intencionalmente adaptado de José de Alencar em A Prece do romance O Guarani: …”Um concerto de notas graves saudava o pôr-do-sol e confundia-se com o rumor da cascata, que parecia quebrar a aspereza de sua queda e ceder à doce influência da tarde.

Era Ave-Maria. Como é solene e grave no meio das nossas matas a hora misteriosa do crepúsculo, em que a natureza se ajoelha aos pés do Criador para murmurar a prece da noite”!

sexta-feira, 10 de março de 2017

A FOME DO CHICO DON-DON



Chico de seu Don-Don era um desses minino réi do buchão, amarelo impambado, mais magro do que piolho de peruca. O pai dele, seu Don-Don, tinha uma barraquinha de frutas e verduras no mercado e todo dia, o Chico tava lá ajudando o pai a descarregar os caçuás do lombo dos jumentos que vinham dos sítios e fazendas. 

O Chico era conhecido por todos no mercado como bucho de esmeril. Não escapava nada que não pudesse comer. Comia banana e manga com casca e tudo. Raspava a quenga do coco até ficar bem lisinha, melancia então, o esfomeado traçava umas quatro por dia. Rapadura, cocada, quebra-queixo, Martim-da-vila, pé-de-moleque, alfenim, moreninha, paçoquita e tudo o que era doce, o esfomeado tinha os bolsos cheios e ficava ali só beliscado, sempre com a boca cheia. 

- Pai, tô cum fome! Posso ir merendar lá na banca da dona Jacira?

O pai olhava pro Chiquim com o olhar atravessado.

- Vá, mas volte logo que eu preciso de você aqui pra me ajudar com a clientela! Tu num acabou de comer um monte de coisa aí, que eu vi? Ôxente! Pense num minino esgalamido! Só pode ter puxado pro lado da mãe!

Chico num contava até três e já tava lá na banca da dona Jacira.

- Valhamindeus! Chegou o Chico Don-Don! Vai acabar com as comidas da minha banca! – dizia dona Jacira numa gargalhada. - Que é que tu rái cumê hoje, bicho malassombrado?

- Dona Jacira, bote aí sem pena, duas cuias de cuscuz-com-leite, quatro batata doce, mêi pão cum ovo, duas tapiocas cum leite de coco, duas bruacas e pra beber, bote um litro de suco de murici. E avia que eu tô cuma baita fome!

- Diabéisso?! Tu rái mermo cumê tudo isso? Diabo de fome doida é essa, minino? Parece que vem lá das brenha dos flagelado da seca do Quinze!

- E o que é que a senhora rái fazê pro almoço? – ainda perguntava Chico Don-Don com a cabeça já enfiada no prato de cuscuz-com-leite.

- Valha! Num sei como eche minino num morre impanzinado! Isso aí num engorda é de ruim! – dizia dona Jacira, gargalhando.

Chico Don-Don virou chacota na cidade inteira e por onde passava o povo gritava uma infinidade de apelidos, como bucho de esmeril, come-come da Estrela, boca de caçapa, boca de surrão, entre muitos outros, mas era uma coisa que o Chico Don-Don não se importava nem um pouco. O que ele queria mesmo era encher o bucho. 

Durante um período de seca muito grande, a comida se tornou escassa e isso abalou Chico Don-Don para todo o sempre. Quando cresceu perdeu o juízo completamente, e passou a vasculhar latas de lixos e sarjetas em busca de qualquer coisa que pudesse comer. Vivia como um bicho a procurar miudezas fora de açougues e lutava até com cães vadios por pedaços de carne. Ele ficou gravemente doente, e suspeitava-se que se sentia mal por ter comido um animal morto que supostamente ele teria engolido sem mastigar. Morreu um mês depois de diarreia exsudativa, após uma complicação causada por uma obstrução intestinal grave. 

No leito de morte, ainda suplicava por comida.





quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

AS HISTÓRIAS FANTÁSTICAS DO PADRE CÍCERO ROMÃO




 Ouvi certa vez de um cantador de viola:

“Padim Ciço andava muntcho
No esfôço da união
Todas as vez que ele andava
Os romêro observava
Que ele num pisava no chão”.


Em torno da polêmica e carismática figura daquele padre baixinho de olhos azuis, começou a se desenrolar um monte de histórias fantasiosas e mirabolantes, passando de pai para filho, num redemoinho de narrativas contadas e cantadas nas varandas e nos sobrados dos sertões, no meio das caatingas, na roda das fogueiras dos tangerinos, e que cada vez que eram repetidas, sempre se aumentava um ponto. Quase todo sertanejo sabe uma dessas histórias de cor e salteado e conta como se fosse a mais pura verdade, inclusive dizendo que ouvira do pai, da mãe, dos avós, bisavós, tataravós ou de algum viajante andarilho que dizia ter conhecido pessoalmente o Padre Cícero Romão e por aí vai. Agora começa a história.

O ALMOÇO DE DOMINGO

Conta-se que, certa vez, um coronel abastado convidou o padre Cícero para almoçar na fazenda dele. Dizia-se que o padre nunca recusava um convite para almoçar, fosse de um simples e pobre agricultor ou até mesmo de um rico e abastado coronel cheio dos cobres.

Por volta das onze e meia da manhã, chegou à casa paroquial, um vaqueiro da parte do coronel, a fim de levar o padre Cícero para o almoço na tal fazenda, conforme estava assim combinado. O fato é que o padre Cícero havia esquecido o compromisso firmado com o coronel e já teria almoçado bem cedo. No sertão daqueles tempos, como muitos de nós já sabemos, o almoço era servido normalmente entre às nove e dez horas da manhã. Bastante constrangido com o esquecimento e sem querer fazer uma desfeita com o anfitrião, o padre pediu ao vaqueiro que o aguardasse, pois ele só iria “desalmoçar” e não demoraria muito.

O vaqueiro ouviu aquilo sem entender muito bem. Que diabo era “desalmoçar”? Encolheu os ombros, consultou o relógio de algibeira e viu que já era quase meio dia, mas não se atreveu a apressar o sacerdote.

O padre Cícero voltou então bastante animado, ansioso para ir ao lauto almoço na fazenda do coronel. O vaqueiro consultou mais uma vez o relógio e para seu espanto, marcava ainda dez horas da manhã. O padre Cícero vendo a cara de surpresa do vaqueiro, perguntou:

- Que foi que houve? Estamos atrasados ou adiantados para o almoço?

-Ôxente, meu padim pade ciço, pois eu jurava pela hóstia consagrada que já era quase meio-dia, mas o meu relógio ainda tá marcando dez horas. E olha que esse relógio é dos bons e foi fabricado pelo Mestre Pelúsio! Não estou entendendo mais nada!

O padre Cícero sorriu. Tomou a mão do vaqueiro e disse bem sério.

- Há coisas neste mundo que nunca haveremos de compreender. Essa é uma delas. O tempo voltou atrás, simplesmente. O seu relógio está funcionando perfeitamente, afinal foi feito pelo Mestre Pelúsio. O tempo é que mudou.

Depois desse dia, o vaqueiro maravilhado com o milagre, se dispôs a contar aos quatro ventos, a história de que o padre Cícero Romão “desalmoçou” e voltou no tempo para poder almoçar de novo na casa do coronel.

Padre Cícero era um homem de palavra. Se ele prometesse uma coisa, era certo. Ele primava pela honradez e pela amizade. Era prego batido e ponta virada.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O BARÃO DO CRATO E SUA PAIXÃO INFAME ENVOLTA EM SANGUE E DOR

O sobrado do Barão do Crato e a Igreja Matriz de Icó
Bernardo Duarte Brandão já era homem feito quando voltou da Europa, depois de longa temporada. Robusto e arrogante, com trejeitos finos, acostumado com os ares parisienses, achou a cidade uma miséria de tão provincial, que quase lhe embrulhou o delicado estômago europeu.

O cheiro de terra e poeira, o odor do estrume do gado e a secura do tempo, por certo, deve ter-lhe dado terrível arrependimento de ter voltado a mando do seu pai, rico fazendeiro e senhor de terras e escravos da Ribeira dos Icós.

Ao chegar, os escravos de seu pai vieram ao seu encontro, apenas com o intuito de ajudá-lo com a bagagem. O jovem mancebo, enfunado de orgulho e soberba, empurrou os negros com tanta fúria, que os jogou violentamente contra as estacas pontiagudas da porteira da fazenda. Os escravos apenas sorriram, como se aquilo fosse apenas uma pilhéria típica dos moços ricos. Sorriram com aquele sorriso subserviente e humilde, típico dos mansos.

- Não toquem em minhas coisas da Europa! – esbravejou com acentuado sotaque francês, vociferando como um animal raivoso. Ali, naquele momento, já se ia demonstrando a sua aura cruel de um desalmado abusador de escravos. Mas é bom lembrar de que a soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda.

Ele falava o tempo todo dos tempos em que morou na Europa, de como tudo lá é diferente, de como as pessoas são civilizadas, brancas, louras, olhos azuis e de como lá, as pessoas certamente são mais bonitas e mais elegantes do que aqui, nesta província miserável. Tudo que ele falava, sempre vinha a comparação com a Europa, que ele sempre se referia por “lá”, como se falasse de um mundo mágico e maravilhoso, como se um paraíso na Terra, fosse.

- Lá, não se come açúcar, nem sal, senão muito pouco! Também não se toma café, por causa dos dentes. Doces então, nem pensar! – dizia ele, com empáfia, aos bajuladores que o cercavam com vergonhosa adulação. – Lá, o sol é muito leve e o clima é sempre ameno, por isso a nossa pele é assim tão bela! – vangloriava-se com repugnante prosápia.

Passaram então muitos dias da chegada do esnobe falastrão. Mal sabia ele que o destino lhe reservava a arrebentação de uma dor lancinante e cruel que lhe iria consumir a sua pobre alma até os estertores da morte.

Quando ele fora mandado para a Europa, a fim de estudar numa das mais conceituadas escolas do Velho Mundo – que era o desejo de seu pai, que queria ver o filho formado e retornasse à sua terra, transformado em um proeminente doutor -, deixou aqui sua irmã, ainda uma menina. Quase não a conhecia, sequer se lembrava dela. O pai promoveu então um jantar para que os dois irmãos se conhecessem, já que passaram muitos anos separados pelo mar imenso. Quando Bernardo viu Maria do Rosário, sua irmã pura e singela, sua pobre alma indecente se inflamou de paixão avassaladora. Não pôde se conter diante de uma mulher tão bela e deixou-se ser encarcerado naquele desejo proibido, querendo ele mesmo acreditar que ela também o desejava e o amaria como um homem e não como um irmão. Adoeceu febrilmente e sofreu de uma dor inclemente e devastadora a partir daquele encontro.

Sigmund Freud em 1927, escreveu em seu livro Die Zukunft einer Illusion, que “...Há numerosos indivíduos civilizados que recuariam aterrados perante a ideia do assassínio ou do incesto, mas que não desdenham satisfazer a sua cupidez, a sua agressividade, as suas cobiças sexuais, que não hesitam em prejudicar os seus semelhantes por meio da mentira, do engano, da calúnia, contanto que o possam fazer com impunidade”.

Em 14 de setembro de 1866, recebeu do então Imperador dom Pedro II, o título de Barão do Crato e tornou-se um importante chefe político. Não podendo desposar a irmã e sofrendo com o fascínio de uma paixão proibida por Maria do Rosário, tornou-se um homem cruel e sanguinário, que descontava sua fúria incontrolável nos mais humildes – seus escravos – torturando-os até a morte. Implacável, o próprio Barão, pessoalmente, martirizava e afligia, impiedosamente, torturando-os de tal maneira, pendurando-os vivos pelas costelas, até ver correr-lhes o sangue abundante e viscoso, por conta das chicotadas e suplícios cruéis dos anéis de ferros, arrancando-lhes os dentes e a língua, em uma sequência aterrorizante de lamentos, vagidos infernais e dor. É sabido que muitos negros foram objetos de tortura e muitos, assassinados por conta dos terríveis castigos executados impiedosamente pelo Barão, e que depois de satisfeitos seus desejos sanguinários, os corpos eram jogados em covas rasas no quintal de seu sobrado, e largados esquartejados nas margens saibrosas do Rio Salgado.

Apesar da imensa riqueza, o Barão tornou-se um homem triste, solitário, embora temido por sua lendária crueldade, avesso ao convívio social, sempre envolvido em disputas, em meio a arengas e intrigas políticas. A paixão amaldiçoada por sua irmã Maria do Rosário o consumiu impiedosamente. Diz a lenda que ele próprio foi ao Vaticano e que suplicou ao Papa Pio IX a bênção papal para que se realizasse o matrimônio com sua irmã, negado veemente por sua Santidade, é claro.

Morreu em Paris, no ano de 1880 aos 58 anos, só, doente e abandonado. É pertinente que não se sabe o quanto de tudo isso possa ser verdade, mas o diretor de cinema John Ford escreveu certa vez que “Se a lenda for mais interessante que a realidade, publique-se a lenda”.


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

AS MAQUINAÇÕES DO MAL




Hesíodo era um homem feio. Magro, tinha um andar oblíquo, o lombo encurvado, como quem carrega um peso nas costas. Tinha a face escaveirada, desdentado, com a pele amarelada como a de um sapo e ainda por cima, mancava de uma perna desde o nascimento, pois havia nascido a fórceps, como quem que não quisesse ter nascido.

Desde criança fora abandonado pelos pais, jogado de casa em casa, crescendo ora com tios, ora com vizinhos, e algumas vezes na rua. Mesmo assim, aprendeu a arte da ourivesaria e mantinha um pequeno quiosque em um shopping da cidade, onde além de relógios e joias, consertava quase qualquer coisa que as mãos caveirosas e pálidas tocassem. Por conta disso, era grande o vai e vem de pessoas em busca de seus serviços.

Sempre às dez horas da manhã, deixava o quiosque com um funcionário e saía para passear pelo shopping, conversando com um e outro, olhando as vitrines e falando entre jornais, sobre política e futebol.

Era um homem muito culto. Na solidão das noites lia livros e mais livros, pois nunca teve o afago de uma mulher. Além disso, contaminado pelas filosofias, tornou-se ateu ferrenho e escarnecedor, dizendo coisas terríveis sobre a cristandade. Discutia longas e intermináveis horas, sempre se encharcando de café e exaltando-se ao ponto de quase ter um aneurisma.

Havia um rapaz evangélico dessas igrejas pentecostais, que vendo a amargura ateísta dele, de vez em quando vinha e lhe entregava um panfletinho sobre mensagens bíblicas. Ele apenas recebia displicentemente, amassava e jogava na lixeira mais próxima. Certa vez, porém, um desses panfletos lhe chamou a atenção, pois estava escrito em letras vermelhas: “O que Deus quer de nós”? Considerou que aquilo era uma pergunta filosófica e esse guardou na carteira para ler posteriormente.

Certa tarde, estando ele em seu pequeno quiosque, surgiu de repente, uma bela mulher que, sorrindo-lhe com o mais belo sorriso que jamais havia visto, trouxe-lhe um broche de ouro velho para conserto. A presença daquela mulher o destreinou completamente, que mal conseguiu entender o que ela dizia, inebriado com aquela concupiscente e provocante boca vermelha, transbordante de lascívia, pois o pecado é mais fecundo do que a virtude. O pobre miserável tentou em vão esconder a feiura e a pobreza que o atormentava, mas a mulher não pareceu se importar. Ao sair, prometendo voltar no dia seguinte, ela tocou-lhe a face escaveirada com tanta meiguice que ele sentiu-se mal e uma diarreia morna lhe escorreu pernas abaixo.
Durante a noite não dormiu, varando a madrugada, adoentado, febril, lendo e relendo os “vinte poemas de amor e uma canção desesperada” de Pablo Neruda, delirando de paixão, remoendo-se de dor e de desejo.

“Áspero amor, violeta coroado de espinhos, brejal entre tantas paixões eriçadas, lança das dores, coroa da cólera, por quais caminhos e como te dirige a minha alma? Por que precipitaste teu fogo doloroso, de súbito, entre as folhas frias do meu caminho”?

No dia seguinte estava exausto, indeciso e nervoso. Fez o conserto da joia de ouro velho da mulher e a esperou febrilmente, tal um moribundo a esperar a morte.

A mulher chegou finalmente, mil vezes mais bela do que no dia anterior, mas ele já eivado e cego pela súbita e encaniçada paixão, não enxergaria outra coisa além da beleza dela. Em poucos minutos já estavam tomando café e conversando sobre o Céu, a Terra e as Potestades do ar. Ele não acreditava que aquela mulher o queria de alguma forma. Além do mais ele era pobre e feio. Ela, porém, gostava de ouvir suas palestras intelectualizadas e já tinha dito o quanto admirava o seu conhecimento sobre quase tudo! Em pouco tempo, já eram grandes amigos e se encontravam todo dia. Ele já desvairado de paixão, incrédulo, dizia a todos que deixaria ser levado por ela até mesmo até os confins do inferno, se realmente tal lugar existisse.

No entanto, nada ainda havia acontecido, até um dia em que ela lhe chegou provocante e insinuante, convidando-o para ir ao apartamento dela. Atônito, ele entrou no carro em que ela veio, um surpreendente sedan Lexus SC, que custaria algo em torno de cem mil dólares. Em poucos minutos já estavam no condomínio de luxo, numa cobertura no trigésimo andar, de frente para o mar. Foi aí que Hesíodo envergonhou-se de sua pobreza.

Ela entrou em um dos quartos, dizendo que iria tomar banho e vestir algo mais apropriado e que ele se sentisse à vontade e que podia se servir de alguma bebida. Ele notou que o silêncio dentro do apartamento era insidioso. Ele sentiu um odor acre de amêndoas... Quem sabe um perfume, talvez, imaginou. Naquele momento, atormentou-lhe também um sentimento de medo.

Pôs a mão no bolso de trás da calça e encontrou o panfleto onde estava escrito, “O que Deus quer de nós?”. Segurou o papel por alguns instantes e leu rapidamente Provérbios 18: “O nome de Jeová é uma torre forte. O justo corre para dentro dela e recebe proteção”. Sentiu um pouco de alívio, logo ele, um ateu convicto.

Como a mulher demorava a voltar ele pôs-se a explorar o local. Novamente sentiu o odor acre e viu uma porta entreaberta de onde parecia vir o cheiro. Empurrou a porta e atônito, deparou-se com uma cena impressionante. A princípio, ele pensou que fosse um quarto de UTI. Havia um homem imobilizado a uma cama de hospital. Ligado a ele, saíam diversos tubos sanfonados que alcançavam o teto e pareciam se conectar com o quarto ao lado. Apavorado, Hesíodo viu quando o homem acamado abriu os olhos e olhou para ele numa expressão de horror e dor. Era um homem ainda jovem, mas nas condições em que se encontrava ali, parecia já ter uns cem anos.

Os diversos tubos que saíam de seu corpo pareciam lhe sugar as entranhas. O pobre homem fez sinal com os olhos esbugalhados para que Hesíodo olhasse no quarto contíguo ao que estavam. Ao abrir a porta dessa vez, experimentou a real visão do inferno. Diversos corpos dilacerados estavam pendurados em ganchos, como em um açougue. Vários tonéis, cheios do que parecia ser gordura humana borbulhavam, deixando sair aquele odor acre de amêndoas.

Hesíodo saiu em direção à porta da frente, já sentindo o desarranjo intestinal. Pelo barulho do chuveiro, percebeu que a mulher ainda continuava no banho. Em seu desespero, desabou em lancinante carreira escada abaixo, desengonçado, arquejando como um cão. Sequer se lembrou de que estava no trigésimo andar. Quando enfim chegou embaixo, ouviu o barulho dos sapatos da mulher. Como ela havia chegado em tão pouco tempo era um misto de horror e preocupação. Pareceu-lhe ter ouvido uns gemidos por sobre o sussurro de vozes, como um som saído de um túnel. Era ela que o chamava carinhosamente. O sangue lhe gelou nas veias quando ela parecia estar cada vez mais perto. Lembrou-se então do panfleto evangélico e clamou em silêncio pelo nome de Deus, como havia lido nos Provérbios. Pediu a Jeová que o protegesse em sua torre forte.

No dia seguinte foi acordado por um vigilante. Estava todo sujo, encolhido dentro de um anel de concreto, no meio das ruínas de um edifício completamente abandonado. Descobriu que estava desaparecido há vários dias e por mais que contasse o que tinha se passado, nunca ninguém acreditou nele. Ele, no entanto, sabia agora que havia mesmo um nome a quem clamar nas horas de angústia e solidão.






ATRAVÉS DA JANELA

​ Como fazia todos os sábados, lá pelas onze horas, onze e meia, o velho advogado chegava ao bar e sentava numa mesa - quase cativ...