sábado, 26 de maio de 2018

Poema agraciado no XX Prêmio Ideal Clube de Literatura 2018

Ponte Metálica ou Ponte dos Ingleses na Praia de Iracema em Fortaleza. (Foto Newton Silva).


PONTE DOS INGLESES 



O ideograma do teu nome

Digo-me a ler pelo avesso

E pelo medo

Do não poder pronunciar-te

Em sussurro

Como a quase mudez do mar em meu ouvido

E em meu olhar incansável de ver-te

Em silêncio interminável

E sem resposta

E sem revezes

Da Ponte dos Ingleses.

.........................................

Poema classificado e publicado na coletânea do XX Prêmio Ideal Clube de Literatura 2018





domingo, 11 de março de 2018

O SANTO




“É preciso que se saiba que, tudo o que vemos ou pensamos que vemos, não passa de um sonho dentro de um sonho”. Edgar Allan Poe



Quando conheci o professor Serafim, ele já não estava mais em seu perfeito juízo, como diriam alguns, mas ao vê-lo naquela situação de aparente demência senil, percebi o quanto estavam enganados. O que ele me contou, em segredo, ficou escrito aqui neste caderno, para que sirva de advertência para os descrentes, embora saibamos que muitos não levarão a sério, até que seja tarde demais. 

O professor Serafim era um homem de muito estudo, digno de respeito e estudioso das filosofias, religiões e línguas antigas. Agnóstico, sem, no entanto, se rotular ateu, considerava inútil discutir temas metafísicos, pois são realidades não atingíveis através do conhecimento. Para ele, a razão humana não possui capacidade de fundamentar racionalmente a existência de Deus. Talvez por essas razões, algum aluno religioso, deixou com ele aquela pequena estatueta - da qual contarei em seguida - pois sabia que a curiosidade dele era bem maior do que qualquer outra coisa, pois o ensino da filosofia não precisa ser complexo, nem intricado. Tem a ver com curiosidade, a mania de fazer perguntas e de querer saber mais, como diria Jean-Jacques Rousseau: “Só se é curioso na proporção de quanto se é instruído”. 

Foi numa tarde de sábado que o professor Serafim chegou a sua casa e encontrou ao pé do portão, uma pequena estátua, cuidadosamente esculpida em madeira maciça, tendo a aparência de um santo católico. Intrigado, o professor Serafim que não era dado a superstições das religiões, muito menos da Católica, embora as estudasse por puro academicismo, levou consigo, mesmo assim, o pequeno artefato, que media mais ou menos dez centímetros de comprimento por cinco de largura. A pequena imagem tinha a aparência, como oportunamente dito antes, de um santo católico. 

O ícone de aparência bem antiga representava cuidadosamente talhada em um bloco de madeira, a figura de um rapaz paramentado com uma veste eclesiástica, semelhante a uma sotaina própria de diáconos, presbíteros, bispos e seminaristas. Ele observou que a veste possuía os 33 botões de alto a baixo, representando a idade de Cristo, e cinco botões em cada punho, representando as cinco chagas de Cristo. Havia ainda, uma faixa à cintura, de cor preta com um colarinho branco. O preto representando a morte para o mundo, e o branco, a pureza, segundo o Codex Iuris Canonici, bem entendido. 

Observou ainda, o professor Serafim, que o rosto da imagem mostrava os olhos revirados em agonia, embora a boca tivesse um estranho sorriso, como se experimentasse ali um prazer lascivo, quase sádico. No entanto, o que mais o impressionou, foi uma corrente feita de ferro que se fundia com a madeira, que acorrentava a estátua em forma de cruz. O jovem rapaz representado na escultura tinha ainda as mãos violentamente amarradas para trás, tão bem esculpido, com tanto esmero, que dava para ver os pulsos dilacerados. 

No dia seguinte, o professor levou a pequena estátua para um padre que era bastante versado em hagiologia e hagiografia, a fim de identificar quem estava ali representado na escultura, já que ele não conseguira encontrar nenhuma semelhança com alguns santos católicos que ele conhecia. 

Nota: o professor teve a leve impressão de que a estátua estava um pouco maior do que o dia anterior, mas não se deu ao trabalho de conferir o tamanho e não levou mais em consideração. 

O hagiólogo ficou espantado e eufórico com a estátua. Era realmente uma obra de arte digna de Michelangelo. Os detalhes eram impressionantes. Realmente parecia ser uma escultura de um santo católico desconhecido até então para ele e não havia nenhuma inscrição que o identificasse. Concluiu que deveria ser um mártir, mas sem certeza alguma. 

Porém, num rápido exame, o sacerdote percebeu umas ranhuras na parte inferior da estátua que, na verdade, observou o professor Serafim, não eram ranhuras, e sim, uma espécie de escrita, muito semelhante à língua Acádia. O acádio (lišānum akkadītum), também conhecido como acadiano ou assiro-babilônio era uma língua semítica da família afro-asiática, falada na antiga Mesopotâmia há mais de 2.500 anos antes de Cristo, particularmente pelos assírios e babilônios, o que era muito estranho, pois, naquele caso, a adoração de santos católicos só ocorreu por volta do ano 155, depois de Cristo, com o suposto martírio do bispo Policarpo de Esmirna. A língua Acádia já estaria extinta há muitos séculos e com certeza, não seria um artefato católico e sim babilônico. Porém, as vestes eclesiásticas da estátua e a corrente em forma de cruz eram sim, de culto politeísta católico, o que se sugeriria ser um objeto falso. Algum tipo de fraude arqueológica, tais como a Tiara de Saitafernes e a múmia de Rhodugune. 

Um dia depois, o professor Serafim percebeu com grande susto, que a estátua estava o dobro do tamanho desde o dia quando a encontrou. E nos dias que se seguiam, parecia que dobrava de tamanho cada vez mais. O professor passou então a ter sonhos inquietantes, noites mal dormidas, insônias intermináveis. A imagem parecia possuí-lo. Dizia que a estátua lhe recitava poemas a noite toda em uma língua antiga e ininteligível. Impedia-lhe o sono e clamava, varando a noite toda: traduza-me! 

Conta-se que o professor Serafim entrou em profunda depressão, abandonando o trabalho e a convívio social, se fechando no escritório por dias e semanas inteiras. 

Uma senhora que fazia a limpeza da casa do professor, relatou-me certa vez, que podia ouvi-lo discutir com a alguém até altas horas da noite. Ela não estranhou muito, pois era comum o professor receber visitas de alunos e professores que ficavam por horas debatendo sobre assuntos de seus estudos. Muitas vezes, porém, permanecia em silêncio por dias a fio, até que um dia saiu do escritório muito abatido, com aparência doentia, o olhar frio, uma irremediável amargura de espírito, mas, no entanto, percebia-se um radiante sorriso no rosto. 

- Traduzi, enfim, o cuneiforme, embora não possa me comparar a Henry Creswicke. – disse-me sorrindo, no dia em que o visitei, pois eu estava muito preocupado com sua saúde mental. 

Logo eu quis saber do que se tratava a inscrição. 

O professor mudou o semblante e pôs o dedo na boca, pedindo silêncio. Chamou-me a um canto, sussurrando, como quem conta uma travessura. 

- Fale baixo! Ele pode nos ouvir. – segredou-me com os olhos úmidos e rutilantes. 

Naquele momento tive dúvidas de que o professor Serafim estivesse em pleno uso de suas faculdades mentais. Ele pediu que entrássemos no escritório e, em seguida, fechou a porta com chave atrás de mim. Havia uma estátua do tamanho de um homem. Estava paramentada com vestes eclesiásticas, como um sacerdote. Notei que as correntes estavam arrebentadas no chão. 

Ainda curioso, perguntei ao professor do que se tratava a tal inscrição acadiana. 

- William Shakespeare estava certo quando escreveu que “há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia”! A existência de uma consciência suprema já havia sido percebida por Hermes Trimegisto! A Física Quântica já comprovou e registrou na teoria onda-corpúsculo que todo átomo é composto de matéria e energia. A chave está no Sefer Yetzirah: "Em trinta e três caminhos maravilhosos da sabedoria legislou YAH YHWH dos Exércitos”! – Bradava o professor eufórico. 

- Professor, e a inscrição, o que dizia? – perguntei, agora já assustadíssimo! 

- Você quer saber o que estava escrito na língua Acádia? Pois bem, não lhe direi simplesmente, vou fazer-me parte dela! 

O professor Serafim foi até a estátua do santo e entrou nela, encerrando-se a si próprio. Senti um torpor, uma sensação nauseante, um transe cataléptico. A minha visão foi desvanecendo, sentindo esvair-me a vida e tomado de pavor, ainda pude ouvir as últimas palavras do professor: 

- A inscrição dizia, LIBERTE-ME!




domingo, 28 de janeiro de 2018

O RETRATO



Minha tia tinha segredos. Ela guardava cuidadosamente embrulhado em um delicado tecido rendado, um retrato emoldurado dentro de um baú velho, passado à sete chaves, escondido debaixo da cama. Ninguém, nem mesmo o marido, meu tio, sabia de quem era a dita foto emoldurada que ela venerava com tanto afinco. 

Meu tio não se ocupava sequer em querer saber de quem era a foto misteriosa. Era um homem que lidava com o gado e passava a maioria do tempo dentro dos currais e dos estábulos, não se interessando por caprichos de mulheres. Ele até fazia troça com aquela história. 

- Deve ser a minha foto pra espantar as muriçocas! – Dizia galhofando, em estrondosa gargalhada. 

Muitas vezes, minha tia entrava no quarto, trancava a porta por dentro, demorava quase o dia inteiro enfurnada, a título de fazer uma arrumação. Há quem diga - por ter visto uma vez pelo buraco da fechadura - que ela ficava olhando o tal retrato por horas a fio, com lágrimas nos olhos, petrificada diante daquela moldura. 

Era como se fosse um ritual. 

Quantas vezes - nem me lembro mais - perguntei para minha velha tia, de quem era aquele retrato, que ela guardava com tanto carinho. Ela me olhava com um olhar terno, um sorriso tímido e gentil, então acabava desconversando, entabulando outro assunto e não dando chance para mais nada. 

Aquele retrato misterioso aguçava a curiosidade de todos naquela casa. Imaginava-se diversas teorias da conspiração. Seria o retrato de um amante, uma paixão inesquecida, perdida nas brumas do tempo, a quem ela dedicava aquela veneração e tamanho apreço? É certo que não era a foto do pai, pois não seria motivo de tanto segredo e mistério, pois havia outras fotos dele penduradas pela casa. Muitos se indagaram sobre aquele retrato, mas minha tia tinha sempre arranjava uma desculpa para não se falar sobre o assunto. 

Passou-se o tempo, até que o destino embaralhou as cartas. 

Numa manhã, recebi a notícia de que minha tia fora acometida de uma dor repentina e atroz, que não lhe deu tempo mais para nada. Padeceu silenciosamente, sem grandes embaraços. A morte abocanhou-a com seu manto e levou também com ela seus segredos. Embora seja certo de que, talvez, a morte tenha mais segredos para nos revelar do que a vida. 

No dia seguinte da morte dela, fui ver como estava meu tio. Conversamos pouco. Ele circunspecto, o olhar vazio, o semblante sereno. Eu, aguçado ainda pela curiosidade, perguntei para ele sobre aquela foto misteriosa. Ele sorriu. Disse-me que foi a primeira coisa que ele pensou em olhar, depois que ela tinha morrido. 

Enfim, o mistério da foto seria revelado, pensei, aproximando-me de meu tio. 

- Quando ela morreu... - Disse ele devagar, os olhos fechados, pensativo. - Fui até o velho baú e peguei a moldura, que estava embrulhada em um pano, mas não tive coragem de olhar. Como ela nunca revelou para ninguém, nem mesmo para mim, de quem era aquele retrato, então, não tive coragem suficiente de olhar e ver de quem era foto. 

- O que o senhor fez com o retrato? – Perguntei, aflito. Não me cabia mais de tanta curiosidade. 

- No velório dela, antes de fechar o caixão, sem que ninguém percebesse, botei o retrato do jeito que o encontrei dentro do caixão, junto com ela. Pensei que seria certo que ela levasse esse segredo com ela. 

Fiquei pasmo e ao mesmo tempo um tanto quanto decepcionado. Como poderia existir alguém como o meu tio, sem ter um mínimo de curiosidade? Ele teve nas mãos a chance de descobrir aquele mistério e o que ele fez? Não podia acreditar que ele tenha feito aquilo. 

Olhei para meu tio. 

Ele agora estava com um sorriso no rosto, como o sorriso dela, um sorriso tímido e gentil. 



sábado, 20 de janeiro de 2018

A CARTA




Dona Miúda, como fazia todos os dias, já estava na cozinha preparando o café para o seu Ildefonso e arrumando as coisas para o almoço, quando, pela janela da cozinha, que dava para o quintal, viu o menino. Ainda era cedo da manhã e dona Miúda estranhou aquele menino àquela hora. Olhou bem para ele. Estava bem vestido, com roupas finas, de sapatos bem lustrosos, sério. Com certeza não era daquelas bandas.

- O que será que o diacho desse menino quer aqui, numa hora dessas? – Falou baixinho, sussurrando para si própria, tirando o avental e ajeitando o vestido. O menino continuava lá em frente à porta principal, esperando. Trazia um envelope com ele, observou dona Miúda.

Abriu a porta devagar, e o menino estava lá em pé, parado, empedernido como um soldado.

- Ôxente! Que diacho vosmicê veio fazer aqui, a essa hora, seu menino? – Perguntou bem ríspida. Àquela altura, dona Miúda já estava com um pressentimento ruim.

- Bom dia, senhora! – Disse o menino, solene. – Trago uma carta para o seu marido. Ele está?

- Uma carta? Que diacho de carta é essa? Posso ver? – Dona Miúda que já não estava gostando daquele menino bem cedo de manhã na sua casa, com a história da carta, então, lhe aguçou mais ainda a curiosidade.

- Não posso lhe mostrar a carta, não, senhora. Só posso entregá-la somente em mãos próprias, ao próprio destinatário, que no caso é o senhor seu marido. Caso ele não esteja em casa, terei de esperá-lo, nem que seja por um dia inteiro. Não me foi dada a opção de voltar sem ter entregue a carta. – Disse o menino num só fôlego, circunspecto.

Dona Miúda ficou emudecida diante de tanta eloquência daquele fedelho esnobe. Ficou imaginando o que seria o diabo daquela carta. Será que o marido tinha se envolvido nalguma falcatrua? Ou então era a carta de uma amante? Também lhe passou pela cabeça que poderia ser um convite de alguém importante para uma festa, quem sabe um casamento chique da alta sociedade. Aquele menino era muito bem-educado e não se parecia, nem de longe, com nenhum dos meninos dali das redondezas. Mas era certo que o tal menino não lhe entregaria a dita carta.

- O Ildefonso, meu marido, está tomando banho. – Enfatizou dona Miúda – Vou ver se ele já terminou. Vosmicê menino aceita um cafezinho? Quer entrar um pouco? Fiz um bolo de batata-doce agorinha mesmo, quer um pedaço? – Perguntou ela.

- Infelizmente, terei que declinar de seu convite, senhora. Minha tarefa é apenas entregar essa carta ao senhor seu marido, e nada mais. Não posso aceitar nada em troca. – Disse o menino que continuava ali, em pé, impassível.

Dona Miúda suspirou e entrou, deixando a porta entreaberta. Olhou para trás e viu que o menino continuava ali, petrificado, na mesma posição. Aquilo já estava ficando esquisito, pensou. Entrou no quarto e encontrou o seu Idelfonso já vestido, a toalha em volta do pescoço, enxugando o cabelo.

- Tem um menino esquisito, metido a besta, aí fora, te procurando. Quer entregar uma carta. – Falou dona Miúda, já meio abusada com aquela história.

- Um menino? Carta para mim? Lá fora? Tem certeza? – Retrucou abalado, o seu Ildefonso.

Dona Miúda percebeu logo a mudança no semblante do marido. Já o conhecia há mais de quarenta anos e sabia quando tinha alguma coisa errada com ele. Sabia, por exemplo, só em olhar para ele, quando estava feliz ou preocupado. Sabia até quando estava mentindo. Percebeu que ele, naquele momento em que ela lhe falou do menino e da carta, como ele teria ficado bastante nervoso. O suor começou a escorrer pelo corpo e a lhe encharcar a camisa. Nem parecia que ele tinha acabado de se enxugar. Viu também quando ele se esgueirou até a porta do quarto para ver o menino que continuava lá, incólume, em posição de sentido, em frente à porta entreaberta. Viu ainda quando ele correu para o banheiro, esvaindo-se em fezes, que lhe escorria pernas abaixo. Percebeu assustada que tudo aquilo era muito mais sério do que imaginava ser e viu ainda, que aquele mau pressentimento que sentiu bem antes, estava se tornando real.

O marido saiu do banheiro já recomposto. Abraçou dona Miúda e ela teve a impressão de que ele estava bastante febril e tremia muito. Dona Miúda ia já saindo às pressas para fazer um chá de gengibre, para baixar a febre, quando ele a deteve. Agarrou-a com mão forte e foi com ela até a porta, onde esperava-o, o menino. Dona Miúda, sem entender nada, começou a sentir fraqueza nas pernas e sentou-se para não cair. O seu Idelfonso recebeu a carta, abriu-a e leu pacientemente. Leu outra vez e mais uma vez. Dona Miúda observava o marido absorto com a carta na mão, diante do menino. Devolveu o papel ao menino que deu meia volta e saiu sem olhar para trás.

- O que foi, Ildefonso? O que foi aquilo? O que tinha na carta? – Perguntou Dona Miúda, aflita, desesperada, sentada, quase desfalecendo.

- Há coisas que não se deve saber, mulher. – Disse o marido, revigorado.

Um vento forte entrou casa adentro, balouçando as cortinas. A manhã estava radiante de sol de um dia de verão. Ildefonso pegou a mulher pela mão.

- Não era a carta que eu pensei que fosse. – Disse ele, sereno, beijando a testa da esposa, atônita, perplexa e confusa. Sentou-se à mesa, como se nada tivesse acontecido.

- Vamos tomar café. – disse.




sábado, 25 de novembro de 2017

A MENINA




Um homem estava sentado no banco da praça, absorto com o seu jornal, que nem se deu conta daquela mulher que se aproximava dele, com um bebê nos braços e trazendo com ela, uma menina de pouco mais de cinco anos. A mulher tocou-lhe suavemente no ombro dele e disse em voz definhada e meio rouca:

- O senhor poderia olhar essa menina, enquanto eu vou até aquela farmácia? – Apontou para o outro lado da praça, estendendo a mão mirrada.

O homem concordou e a mulher sorriu-lhe com a face escaveirada, um sorriso trêmulo com ânsias de fadiga.

- Não demore muito, senhora. – Disse ele.

Ela apenas sorriu-lhe outra vez - um sorriso doce e breve - denotando que lhe fugiu antes do tempo, desta vida airada, a mocidade.

A menina, tímida e em silêncio, sentou-se ao lado do homem, que lhe afagou a cabeleira alourada.

- Obrigada, moço. A mamãe não demora. – Disse a menina.

O homem ficou um tanto incomodado e aflito com aquela criança sentada ao seu lado. Não era bom, nos dias de hoje, um homem com a idade dele – já perto dos sessenta – ser visto com uma menininha, sem que ela fosse aparentada dele. Já havia lido sobre casos de velhos pedófilos que se aproveitavam de crianças que brincam nas praças. Sentiu um calafrio, só de se imaginar numa situação semelhante. Olhou com o rabo do olho para ver se a menina continuava sentada ao seu lado. A menina o olhou com um singelo sorriso.

O tempo passava e a mulher não voltava. Aquela situação já estava terrivelmente incômoda. Foi quando ele tomou uma decisão de um homem decente e chamou um policial que passava por ali. O policial prontamente o atendeu.

- Senhor policial, a mãe dessa menina pediu para que eu tomasse conta dela enquanto ia até a farmácia e já se passou mais de meia hora e ela ainda não voltou. Não sei o que eu faço.– Disse o homem visivelmente aflito.

- De que menina o senhor está falando? – Perguntou o policial.

- Dessa garotinha aqui, senhor! – Apontou para a menina que permanecia sentada no banco ao seu lado.

- Não vejo nenhuma criança aí, senhor. – Disse o policial, já um pouco duvidando daquela história.

- Como o senhor não está vendo? Ela está aqui sentadinha. – Apontou para a menina que permanecia sentada no banco, com um sorrisinho maroto.

- O senhor está querendo brincar comigo, senhor? – Bravejou o policial já irritado – Que tipo de brincadeira é essa?

Quando se virou outra vez, o homem não mais viu a menina. Desculpou-se com o policial umas mil vezes, por assim dizer. Provavelmente, a mãe já teria vindo buscar a criança sem que ele notasse. Só pode ter sido isso, pensou consigo mesmo. Decidiu ir para a casa e sentiu um calafrio gélido, quase morrendo de susto, ao ver que a menina vinha atrás dele.

- Cadê sua mãe, menina? – Perguntou o homem bruscamente, visivelmente irritado.

A menina sorriu-lhe ternamente, com os olhos negros e brilhantes, a pele avermelhada por causa do sol e a cabeleira alourada, presa num laço de fita vermelha. Ela então aproximou-se dele e encaixando a sua mãozinha pequenina na mão dele, disse quase num sussurro, pondo a outra mãozinha em concha na boca:

- Agora vou morar com você.

O desgraçado empalideceu. Tentou desvencilhar-se da mão da menina, e em vez disso, sentiu um aperto forte e tenaz, agarrando-o com firmeza descomunal.

A partir dali, daquele dia, a menina não o deixou mais. Onde quer que ele fosse ou estivesse, a menina o seguia. O mais notável e assustador é que ninguém via a menina, por mais que ele mostrasse ou tirasse alguma foto. Os amigos e familiares já duvidavam de sua sanidade mental.

Varava as noites sem conseguir dormir e quando adormecia, tinha terríveis sonhos inquietantes e pesadelos intermináveis, cheios de angústias agonizantes. Muitas vezes acordava no meio da noite sobressaltado e se deparava com a menina em pé e estática ao lado de sua cama, como se fosse um fantasma, a fitá-lo insistentemente. A menina não comia, não bebia nem dormia e sequer trocava de roupa. Às vezes, ouvia a menina paralisada, fitando um ponto qualquer na parede, sussurrando palavras ininteligíveis. O mais assustador era aquele sinistro sorriso dela.

O homem começou então a definhar e adoecia visivelmente. Tinha febres e delírios constantes. Sentia-se fraco e andava como um vulto melancólico saído das profundezas do inferno. Sua magreza excessiva causava espanto e repugnância. E assim se passavam os dias longos e as noites insones.

Em torno daquele homem, eram noites após noites de angústias e sofrimentos que se acercavam sobre ele, até que um dia, um raio de sol entrou por uma fresta da janela, e de repente, ocorreu-lhe uma ideia. Era uma ideia simples, que há muito deveria ter tido. Chamou a menina e disse que iam passear no parque. A menina saltou de alegria e agarrou bem forte a mão dele. Caminharam lentamente pelo parque, até que o homem avistou um rapaz sentado em um banco lendo o jornal.

Ao vê-lo com a criança, de mãos dadas, o rapaz sorriu e acenou para a menina. O homem então se aproximou e, tocando-lhe no ombro, perguntou:

- Você poderia olhar essa menina, enquanto eu vou até aquela farmácia?

O rapaz concordou e a menina, tímida, sentou no banco ao lado dele.

O homem então saiu dali a passos largos, sem olhar para trás.



quarta-feira, 1 de novembro de 2017

O MILAGRE




Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olhará de volta, para dentro de ti. (Friedrich Nietzsche)





Conta-se que, há muito tempo, um homem inescrupuloso dizia ter o dom da cura.

Falava que podia curar qualquer doença e fazia disso o seu meio de vida. Tinha fama de benzedor e curador. Garantia enxotar água-nas-juntas, algueiro, alôjo e antójo, somente com um sopro. Era só fazer o sinal da cruz e salpicar umas gotas de água benta que curava barriga farosa, berruga, bicheira de vaca, bicho de pé, boqueira, bucho quebrado e caduquice. E ganhava muito dinheiro com isso.

Certo dia, porém, um espírito que andava por ali a rodeá-lo, desceu ao seu lado e falou dentro do ouvido dele com uma voz fria e metálica como aço, deixando no ar um aroma de cânfora. Quando o espírito falava, o homem dizia que tinha a impressão de que tudo ao seu redor silenciava, como que se estivesse envolto numa bolha. Também experimentou um gosto de cravo-da-índia na boca, como aquele gosto de metais, quando se vai ao dentista.

sábado, 9 de setembro de 2017

ATRAVÉS DA JANELA




Como fazia todos os sábados, lá pelas onze horas, onze e meia, o velho advogado chegava ao bar e sentava numa mesa - quase cativa - bem em frente à janela, de onde se podia ver, com folga, a praça da Matriz. O dono do bar, seu Alfredo, gostava dele. Servia-o sempre o mesmo: uma garrafa de zinebra do Conde, “Gato Preto” e uma porção de queijo com azeitonas. Como aquele horário tinha pouco movimento, ele e seu Alfredo conversavam sobre quase tudo: mulheres, futebol e política, principalmente.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

O CANHÃO DO EMÍLIO SÁ CONTRA A JAGUNÇADA DO PADRE CÍCERO



Vendo passar o padre, com o pesado bordão com que costumava andar, seguido de um bando de fanáticos, disse: “Ali vai um missionário; amanhã um grande usurário; depois um perigoso revolucionário. ” E a profecia do sertanejo, feita quando o padre Cícero era um santo, realizou-se. (Manoel Bergström Lourenço Filho – in Juazeiro do Padre Cícero)



A Sedição de Juazeiro - como figura nos livros de História - foi um sangrento e cruel confronto ocorrido em 1914 entre as oligarquias cearenses e o governo federal provocado pela interferência do poder central na política estadual nas primeiras décadas do século XX. Ocorreu no sertão do Cariri, interior do Ceará, em reação à interferência do poder central contra a política do coronelismo. Sob a liderança de Floro Bartolomeu e do padre Cícero Romão Batista, um exército de jagunços, bandidos e cangaceiros derrotou as forças do governo federal, depondo Franco Rabelo. Naquela época, o padre Cícero já era idolatrado e considerado um homem santo, "fazedor de milagres".

sexta-feira, 26 de maio de 2017

O CORONEL E A BARATA



Lá no sertão, naqueles tempos, tinha um coronel muito do estribado dos cobres, dono de muitas terras a perder de vista, muito proseador, sabe-tudo, bravateiro até o meio das canelas. Orgulhoso e valentão que nem o Mata-Sete. Só porque tinha dinheiro metido nos cós, ele achava que mandava em todo mundo. E mandava mesmo.

Num tinha nada que ele num soubesse. Metia o bedelho em tudo o que não lhe dizia respeito, ralhava com tudo e com todos, dava palpite até nas coisas das mulheres. Porque tem assunto de mulher que os homens num entende nem que a vaca tussa, mas o coronel, esse sim, sabia de tudo. Num tinha um assunto que ele num botasse a colher.

sábado, 20 de maio de 2017

O PADRE, O MENINO E A GARAPADA DE RAPADURA

Xilogravura encontrada na internet.



Vô-le contá um causo assucedido lá pras banda dos Inhamuns, no interior do Ceará. O causo é o siuguinte e o siuguinte é eche:

Uma feita, vinha um pade em riba duma burrinha já cansadinha da viagem. Os dois, o pade e a burra, a burrinha e o pade, viajavam debaixo dum sol que era tão quente que nem brasa acesa, que nem fornalha. 

Esbaforido pelo calor infernal, o pade viu uma casinha na bêra da istrada. Apeou da burrinha que já não aguentava mais aquela lida de levá o pade.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A SEXTA-FEIRA SANTA NA CASA DE MINHA AVÓ


Minha avó já amanhecia com a cara séria e taciturna logo pela manhã. Quem a via daquele jeito, toda acabrunhada, exigindo a obrigação do silêncio, diria que algo muito sério havia acontecido. Logo ela que sempre fora uma mulher jovial, divertida e brincalhona o tempo todo, mas na Sexta-feira Santa era para ser um dia triste.

- Mataram o Nosso Senhor! – Dizia ela solenemente encurvada, com o terço preto nas mãos trêmulas e a face confiscada por uma pronunciada e profunda melancolia.

Poema agraciado no XX Prêmio Ideal Clube de Literatura 2018

Ponte Metálica ou Ponte dos Ingleses na Praia de Iracema em Fortaleza. (Foto Newton Silva). PONTE DOS INGLESES  O ideograma do te...