quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Conto agraciado no Prêmio de Literatura Unifor- edição de 2007

A crônica do abuso

Abud abriu os olhos. Havia um homem de costas para ele, sem nenhuma roupa, que exasperado, parecia falar ao telefone. Tentou sair de onde estava e percebeu que estava atado com correntes a um estrado de madeira. O corpo todo lhe doeu quando fez outro esforço. Aos poucos, sua visão foi se acostumando com o ambiente e descobriu, enfim, onde estava. Viu os cadeados que lhe prendiam às correntes e ao estrado. As travas de madeira que lhe tolhiam os movimentos das pernas. As presilhas de ferro nos dedos dos pés, como se fossem anéis parafusados na madeira, rasgando a carne. As algemas nos tornozelos que se fechavam a cada movimento. Moveu um pouco a cabeça para um lado e descobriu que também havia um colar de ferro que lhe apertava o pescoço por meio de um parafuso. Tentou falar, mas o colar de ferro lhe sufocou mais ainda. Os lábios estavam em carne viva. Sentiu sede e fome.

— Enfim acordou, o meu menino! – o homem que ele havia visto sem roupas, agora vestido, se aproximou com uma jarra d’água. Deu-lhe de beber à vontade. - “Se você tomar da água que eu lhe der jamais terá sede, eu vou preencher o vazio de sua vida para sempre.” – sorriu, e acrescentou: — Posso lhe dar a liberdade ou a morte, mas antes, poderá escolher um alívio. Quer que eu tire as algemas, as correntes ou a "Forquilha do Herege", o colar de ferro dos negros fujões? Os olhos de puro terror de Abud não viam senão o carrasco. Tentou falar, o colar rangeu entre parafusos.

— Ah, o colar! Quer que eu tire o colar? – o homem aproximou-se e, com uma chave de fenda e um alicate, arrancou-lhe os parafusos, lentamente, um a um, numa sequência interminável. — Escolheu bem. Assim podemos conversar. “Quando te vi amei-te já muito antes: Tornei a achar-te quando te encontrei. Nasci pra ti antes de haver o mundo. Não há cousa feliz ou hora alegre que eu tenha tido pela vida fora, que o não fosse porque te previa, porque dormias nela tu futuro”...

— Conhece? “A Falência do Prazer e do Amor” de Fernando Pessoa. Já leu Fernando Pessoa?

— Não... – balbuciou. Deixe-me sair...

— Imbecil! Que quer lá fora, se tem tudo aqui dentro, inclusive a mim? Posso matá-lo agora mesmo, se eu quiser. Não me tente! Desconfio que não me deseja mais.

O terror invadiu a pobre alma de Abud e ele entoou uma oração de quando era menino... ”Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador...” e lembrou-se bem daquele homem. Trabalhava na mesma repartição pública que ele e já o tinha visto algumas vezes nas reuniões e nas festas de aniversariantes. Todos o tratavam por Sr. Ormuz. Do tipo persuasivo, manipulador, tinha o olhar inquietador, lembrava Grigory Rasputin. Abud fizera amizade com ele e aos poucos ele já o tinha dominado ao ponto de serem vistos sempre juntos. Almoçavam sempre juntos. Ele lhe emprestava dinheiro sempre que precisava e nunca aceitava que lhe pagasse. Conversavam horas sobre quase tudo, confidências, livros, filmes e Abud julgava estar aprendendo bastante com aquele homem. Sr. Ormuz gabava-se de nunca ter faltado ou chegado atrasado um dia sequer, em 18 anos de serviço. Chegava sempre antes de todo mundo e saía tarde da noite. Nunca tinha ficado doente e nunca havia se envolvido sentimentalmente com qualquer funcionário, até conhecer Abud. Até conhecer Abud.

— Está a faltar ao trabalho, Abud. Não tenho mais justificativas a dar. Você está se saindo um péssimo funcionário. Um péssimo exemplo para os colegas. Não tenho mais justificativas a dar. Falei há pouco com o setor de RH e perdi até a paciência com eles, o que dificilmente deixo acontecer.

— Quanto tempo?... Perguntou num fio de voz, num fio de voz.

— Duas semanas, já. Não se lembra? Maldito!

Abud empalideceu mais ainda. ”santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador...” Ele havia estado refém do Sr. Ormuz durante duas semanas. Como ele teria chegado até ali, ele não lembrava por mais que tentasse. As correntes se contorceram no corpo de Abud, os cadeados e as algemas se fecharam mais. Os parafusos soltavam grunhidos. As travas das presilhas se apertaram. A dor e a vergonha e o medo cingiram-se em Abud. A cela em que Abud se encontrava preso estava escura, úmida, suja e havia correntes, cadeados e pregos nas paredes. Ganchos e arpões pendiam enferrujados. No canto, havia caixotes de madeiras, baratas, caixas e jornais velhos entulhados.

Mas, havia ainda, uma coisa que Abud não via e ninguém via: um anjo, a um canto, em meio aos entulhos, triste, acabrunhado de dor. Quem olhasse não veria nada além de uma sombra no canto. E o anjo recitou um poema no ouvido de Abud, tão baixo... tão baixo...

— Quanto a mim... – disse o Sr. Ormuz – Tenho que ir. Não posso me dar ao luxo de faltar ao trabalho. Quando eu voltar, podemos conversar mais um pouco...

— Espere... – suspirou Abud. As correntes se retorciam de dor e vexame. – tenho uma coisa a dizer...importante...

— E o que pode ser...? – desdenhou.

E Abud recitou o poema, tão baixo... tão baixo...

— Oh, meu Deus! Oh, meu Deus! O que disse? - Sr. Ormuz repentinamente se descompôs em prantos e medo e dor.

E Abud, outra vez, recitou o poema, tão baixo... tão baixo...

— Oh, meu Deus! - Sr. Ormuz caiu aos pés de Abud, com as mãos em penitência - O que disse? - Abud empalideceu outra vez. Os cadeados e as correntes mordiam sua carne. O colar de ferro não lhe deixava ver o que acontecia. Ouviu o tilintar de chaves e ferramentas entrecortado pelos sobrenaturais gemidos de choro e o ranger de dentes do Sr. Ormuz.

— Temos que ir ao hospital! Você está em péssimo estado! Oh, meu Deus! – O homem visivelmente transtornado começou então a manejar as ferramentas e as chaves de fenda, arrancando os parafusos e as presilhas e os cadeados e as correntes e as travas...

— Temos que ir ao hospital! Dizemos que foi atacado por um cão feroz. Que acha? – O homem freneticamente arrancava-lhe os parafusos, as travas e os cadeados, um a um, numa seqüência interminável.

— Sim... um cão feroz. – balbuciou atônito, Abud. - um cão feroz...

Abud abriu os olhos. Percebeu que estava em uma enfermaria. Uma enfermeira aplicou-lhe alguma coisa no braço. Ajustou o soro.

— Você teve sorte, rapaz. Poucos escapam de um cão feroz. – falou-lhe entre sorrisos. — Você chegou inconsciente. Graças ao distinto senhor que lhe trouxe aqui, tivemos tempo de reanimá-lo. Um milagre!

Abud virou o rosto e olhou para um canto do quarto. Pensou ter visto uma sombra. Mas estava muito cansado para pensar. No entanto, havia uma coisa que Abud não via e ninguém via: um anjo, a um canto. Quem olhasse não veria nada além do que parecia ser uma sombra... E o anjo disse alguma coisa no ouvido de Abud, tão baixo... tão baixo...

— Acabou... acabou...

Na repartição, onde trabalhava Abud, todos estranharam além de tudo isso, o fato de que, em 18 anos, pela primeira vez, o Sr. Ormuz faltara ao trabalho.

-------------------------------------------------------------


Nenhum comentário:

Postar um comentário

O CANHÃO DO EMÍLIO SÁ CONTRA A JAGUNÇADA DO PADRE CÍCERO

Vendo passar o padre, com o pesado bordão com que costumava andar, seguido de um bando de fanáticos, disse: “Ali vai um missionário;...