sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A terra


Um homem tinha dois filhos.
Certo dia, um dos filhos olhava pela janela, enquanto tomavam o café da manhã, que era um rico café da manhã. Rico porque tinha cuscuz com queijo, leite fresco, bolo de milho, bolo de batata, tapioca com leite de coco, que era especialidade da mãe, manteiga-da-terra e coalhada e queijo-coalho, além do café puro e quente, que era especialidade do pai, que o preparava antes de todos acordarem, como todas as manhãs.

O filho que olhava pela janela disse com voz firme:

- Vou embora.

O pai aquiesceu e disse:

- A terra não quer te largar.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Todos Ninguém

Hoje amanheci com frio. Muito frio. Olhei em volta e não vi nada, além da mesma janela que dava apenas para ver uma parte do céu. Havia sempre algo que tomava boa parte da janela e não me deixava ver além, mas eu me contentava em ver o céu. De qualquer forma, para quem está numa cama de hospital, já é grande coisa ver um pedacinho do céu. A essas pequenas coisas, só damos o real valor quando são tiradas de nós, como de mim foi tirada e da forma como foi. O frio estava intenso e pedi que diminuíssem um pouco, mas não me deram ouvidos.

Arimatéia


“Tempos críticos, difíceis de manejar”. O velho Arimatéia sentou-se. Lembrou já ter ouvido essa sentença em algum lugar. Eram exatamente esses tempos que ele estava vivendo agora. Difíceis de manejar. Estava cansado, exausto, perplexo. Já completara 75 anos, mas não se sentia tão velho assim. Era forte e saudável, apesar da idade. Afinal, quando criança, fora bem alimentado com o leite e o queijo de coalho da fazenda, batata-doce, coalhada, rapadura, carne de criação. Teve como poucos, uma infância feliz e com fartura. O pai, que de profissão era abatedor em matadouro, criava suínos e, um dia, querendo iniciá-lo na arte do açougueiro, o incentivou a abater um leitão. Foi horrível. A cada machadada, o porco soltava os mais terríveis e angustiantes gemidos que alguém já ouvira. Dizem que se um animal estiver sendo abatido e houver uma pessoa chorando por ele, ele demora mais a morrer. E foi o que aconteceu, mas, enfim, o pobre animal caiu por terra, ensangüentado, e Arimatéia, sentiu a vida do bicho esvaindo-se pela lâmina do cutelo. Seu corpo todo se estremeceu e ele percebeu um vulto, uma mulher, passar ao seu lado, com um vestido negro, como se fosse feito do pano preto de um guarda-chuva. Depois do abate, Arimatéia ficou toda a tarde ardendo em febre e jurou nunca mais repetir tal façanha, porém, o vulto nunca mais sairia de sua memória. Nunca mais.

O CANHÃO DO EMÍLIO SÁ CONTRA A JAGUNÇADA DO PADRE CÍCERO

Vendo passar o padre, com o pesado bordão com que costumava andar, seguido de um bando de fanáticos, disse: “Ali vai um missionário;...