sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Todos Ninguém

Hoje amanheci com frio. Muito frio. Olhei em volta e não vi nada, além da mesma janela que dava apenas para ver uma parte do céu. Havia sempre algo que tomava boa parte da janela e não me deixava ver além, mas eu me contentava em ver o céu. De qualquer forma, para quem está numa cama de hospital, já é grande coisa ver um pedacinho do céu. A essas pequenas coisas, só damos o real valor quando são tiradas de nós, como de mim foi tirada e da forma como foi. O frio estava intenso e pedi que diminuíssem um pouco, mas não me deram ouvidos.
Essas enfermeiras fazem o que querem e nem sequer nos dirigem a palavra. Vem uma e depois duas e até três e mexem em mim como se eu fosse um pacote. Embrulham, desembrulham, viram dum lado, viram dum outro. E você acha que elas dizem alguma coisa quando reclamo? Nada! Nada! São mudas e surdas, por certo. Deve ser por isso que não me escutam e não falam comigo. Ou talvez, a política do hospital proíbe de as enfermeiras terem um maior apego aos pacientes. Até aí, tudo bem, compreendo. Se bem, que dia desses, uma falou comigo como se eu fosse um bebê. Achei até engraçado. Entrei no jogo dela e me fiz de bebê e parece até que ela gostou. Eu, um marmanjo de 48 anos! Mas as outras, nem uma palavra! Bom, de qualquer maneira devo aceitar esse tipo de tratamento, afinal, eu estou doente e não vejo a hora de receber alta. Faz uma semana que estou nessa cama, todo quebrado, sendo paparicado por esse monte de enfermeiras, dia e noite, e não veio sequer um médico ver se já posso voltar para casa. Estou doido para voltar pra casa. Se bem que os médicos só prescrevem alta num período de oito dias de internamento e eles não dão alta nos finais de semana. Acho que na próxima segunda recebo alta. Vou aguardar. Espere...
Parece que tem um monte de gente no quarto. Quem serão? Devem ser os médicos que vieram me ver. Daqui da minha posição não dá pra ver muito bem, mas vejo uns vultos passando pela porta e não dá para escutar muito o que estão dizendo. Pedi à enfermeira para me sentar na cama, mas ela não deve ter me ouvido, pois não disse nada. O meu pescoço doeu muito quando tentei me virar um pouco para ver quem são essas pessoas no meu quarto. Vou ter mais cuidado. Não quero piorar meu quadro clínico e ficar mais uma semana. Até que gosto do hospital. Ouço sempre uma música instrumental, tão bonita! Acho que é aquela do filme “A vida é Bela”. É tão leve e evoca uma época perdida nas brumas do tempo! Estou sentindo um cheiro bom de carne assada... ou é de peixe? Puxa, que delícia! Acho que vieram trazer o meu almoço. Se bem que não estou bem lembrado se já tomei café da manhã. Aliás, nunca me lembro o que almocei ou jantei. Deve ser por causa desses remédios que me aplicam quase que diariamente. A janela já está escura... nossa! Já é noite?! Não é possível! Agorinha eu olhei e vi o céu de um azul tão lindo! Não pode ser noite... em tão pouco tempo? Acho que estou meio grogue. Pra mim, o tempo passou feito uma bala. Na verdade, nem sei que horas são, nem se é dia ou se é noite! Li, certa vez, numa dessas revistas médicas que quando alguém passa algum tempo numa cama de hospital, começa a ter vertigens... E eu já estou aqui há quase uma semana!
Então está explicado essa minha confusão com o tempo. Independente de que horas são, não consigo dormir com a expectativa de voltar logo para casa. Acredito que logo, logo, eles entram por aquela porta, com um papel na mão e me enxotam daqui! E eu vou com muito gosto! Afinal, quero voltar à minha vidinha normal, ver meus amigos, minha bicicleta, meus livros e lhes digo uma coisa: assim que eu sair daqui, vou escrever um livro com essa minha experiência! Escapei de morrer, por um triz! Fico impressionado que eu esteja ainda me sentindo bem, só com algumas escoriações, depois de ter sofrido aquele terrível acidente na estrada. Lembro que o carro virou várias vezes, incontáveis vezes! Acordei aqui, nessa cama, uma semana depois, são e salvo! Vou passar um bom tempo até que eu volte a dirigir novamente. Estou ouvindo algumas pessoas entrando no quarto. Será que são os médicos? Será que enfim, vou receber alta hoje? Vou receber alta hoje? Alta hoje? Hoje? Ho...


— Como ele está doutor? – perguntou a mulher, que diariamente vinha visitá-lo, sempre nos finais de tarde, já há dezesseis anos e sempre trazia consigo, um pequeno aparelho de MP4 e, carinhosamente, colocava nos ouvido dele.

— O estado dele é imutável. Lamento. É um caso sem volta, devo dizer-lhe. O acidente causou-lhe danos irreversíveis, causando destruição anatômica da área do tronco encefálico e dos hemisférios cerebrais. Há uma lesão do tronco encefálico acima do nível da ponte, ainda que os hemisférios cerebrais estejam íntegros, levam ao coma profundo. As estruturas filogeneticamente mais antigas do encéfalo resistem melhor às agressões. Assim, se o exame neurológico revela ausência das funções do bulbo e ponte, pode-se admitir que mesencéfalo, diencéfalo e hemisférios cerebrais já estão lesados e o paciente atinge o estágio mesencefálico completo, raramente ele se recupera sem seqüela funcional grave. O estágio de morte cerebral é considerado quadro terminal definitivo.

— Quer dizer, que ele não escuta nada?

— No quadro clínico em que ele se encontra, devo afirmar que ele não sente dor, nem fome, nem sede, nem escuta, nem tem mais memória. Sinto muito. Admiro o seu zelo com ele, mas dezesseis anos é muito tempo. Acho que você esperou demais e deveria seguir sua vida.

— Eu queria acreditar que um dia ele poderia, pelo menos, ouvir a música que coloco para ele ouvir. Ontem eu trouxe aquela do filme “A Vida é Bela”... que ele tanto gostava. Mas eu pensei muito e conclui que o senhor tem razão. Não posso ser egoísta e continuar com essa teimosia em achar que ele pode voltar um dia.

— Eu trouxe os papéis para a senhora assinar a autorização. Assim, os aparelhos serão desligados e ele poderá ter um descanso digno. Lamento. É um caso sem volta, devo dizer-lhe.

Parece que tem um monte de gente no quarto. Quem serão? Devem ser os médicos que vieram me ver. Daqui da minha posição não dá pra ver muito bem, mas vejo uns vultos passando pela porta e não dá para escutar muito o que estão dizendo. Será que são os médicos? Será que enfim, vou receber alta hoje? Vou receber alta hoje? Alta hoje? Hoje? Hoj...



Conto dedicado a, entre outros, Terri Schiavo, Terry Wallis, Patricia White Bull, Amy Pickard, Salvatore Crisafulli e Zack Dunlap.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

ATRAVÉS DA JANELA

​ Como fazia todos os sábados, lá pelas onze horas, onze e meia, o velho advogado chegava ao bar e sentava numa mesa - quase cativ...