sexta-feira, 24 de agosto de 2012

As histórias do João Cabôco

Cândido Portinari - Enterro na Rede

João Cabôco já morreu faz tempo. Era vaqueiro, cantador de viola e repentista. Vivia metido no meio do mato atrás dos garrotes que se perdiam. Nunca voltava de mãos vazias. Trazia o bicho amarrado, ora pelos chifres, ora pelo pescoço. Falava com satisfação:

- Êita, patrão! Eche deu trabaio, mas eu trouxe o bicho. Tava lá todo ingrenhado nos mato. Ôxente!


De noitinha, entre uma cantoria e outra, sentava no terreiro, cigarro de palha entre os dedos, a viola de lado e um bule de café nas trempes, fumegante, cheiroso. Gostava mesmo era de contar história de assombração pros meninos da fazenda. “Pru mode os minino se mijar na rede de noite”, se divertia ele. E o povo se reunia em torno dele. Vinha gente de tudo quanto era canto só pra ouvir as cantorias e as histórias. “O João Cabôco vai contar história hoje”! Alardeava o povo na feira. E era cada história! Sabe-se lá onde diabos ele aprendia. Tinha sempre uma história nova que ele garantia que era tudo verdade, que ele tinha ouvido alguém contar, no tempo quando trabalhava como caixeiro viajante, no meio do sertão.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Coitada da Cumade Jaqueline



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Isso foi nos anos sessenta. Zé de Ciço, caba da peste do Cariri, era devoto do padim Ciço e já tinha batizado quase todos os meninos com o nome de Cícero, em homenagem ao santo do sertão. Era “Ciço” pra cá, “Cicim” pra lá que num acabava mais!

A mulher já barriguda de mais um “cumedozim de rapadura” chegou pra ele e perguntou, mode como quem num quer nada:

- Ô Zé, cumé mermo o nome qui tu qué dá pru nosso minino? Tu falô mas já misquici.

— Ôxente, Muié! Vai ser “Dion Quenedi”, aquele prisidente americano virado na gota! E tem mais: vamos dar ele de afilhado. O pade dixe que vai ser mêi dificil...o hôme lá é mêi ocupado.

- Vixe! Tu tem cada ideia! Êita!

quarta-feira, 18 de julho de 2012

O vendedor


“A miséria é múltipla. O infortúnio da terra é multiforme”. Edgar Allan Poe 


Como nenhum outro, ele era um excelente vendedor. Eu disse excelente? Menti. Era excepcional! Já nascera com aquele intuito. Um dom para vender tudo o que lhe propusessem para tal. Qualquer coisa, mesmo! Ambicioso, ávido por lucro, era lépido e astuto. Aguerrido, lançava-se intrépido, diuturnamente, em andanças sem rumo, febril como um explorador em busca de um tesouro. 

Em sua lida diária, não havia obstáculos para realizar uma venda e nunca, em hipótese alguma, aceitava um “não” como resposta a seus reclames. Vendia coisas que tinham um altíssimo valor e coisas supostamente invendáveis, inúteis, supérfluas e enganosas como pirâmides financeiras. Estudava com cuidado o possível cliente bem antes de abordá-lo. Se fosse alguém de posses, chegava à ousadia de oferecer um artigo caro, como um super iate de luxo de 15 toneladas. Dizia-se que era extremamente feliz em seu ofício. Não saía de mãos abanando. Gabava-se, esnobe, de nunca ter perdido uma venda. Sua pasta tinha todo tipo de catálogo dos mais diversos produtos, desde artigos da indústria naval, construção civil, imóveis, equipamentos hospitalares a anúncios classificados de baixo custo.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Uma Lenda Cearense



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Segundo o historiador Tomás Pompeu de Sousa Brasil, os primeiros habitantes das terras de Aracati, os índios Potyguara, teriam entrado em contato com os europeus quando o navegador espanhol Vicente Yáñez Pinzón, aportara no local denominado Ponta Grossa ou Jabarana, no litoral do Ceará.

O povo conta há muito tempo que foi nessa época que se deu essa história. Naquele tempo, o acesso a praia de Ponta Grossa não era fácil ou até mesmo quase impossível. Para se chegar até aquela remota localidade só era possível vindo pela praia do Retiro Grande ou Areia Branca, no Rio Grande do Norte. 

Não se sabe surgido de onde, um náufrago de pele branca aportou ali, sozinho e doente em busca de água potável e de abrigo. Viu que o lugar era completamente deserto, mas percebeu que havia rastros de pessoas. Mais tarde, para sua derrota, descobriria que se tratava de uma tribo de índios chamada de Jabaranas.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

No dia em que o Bode Iôiô virou gente





Iôiô foi um bode mestiço com forte predominância da raça parda alpina que viveu na cidade de Fortaleza no início do século XX. Em 1915 um retirante da seca vendeu o dito cujo para José de Magalhães Porto, representante do industrial Delmiro Gouveia, correspondente no nordeste da empresa britânica Rossbach Brazil Company, localizada na Praia de Iracema. 

O bode perambulava, sem ser molestado pelos fiscais da prefeitura, pelas ruas centrais da cidade, na companhia de boêmios e escritores que frequentavam os bares e cafés ao redor da Praça do Ferreira, centro cultural da capital. Bebia cerveja e cachaça, fumava charuto e gostava de ouvir música e muitas vezes, acompanhava os seresteiros pelas madrugadas. O bicho parecia gente. Era sempre visto no meio das conversas dos boêmios, poetas e intelectuais. Esse nome Iôiô foi lhe dado por ele sempre percorrer o mesmo trajeto, entre a Praça do Ferreira e a Praia de Iracema, num vai-e-vem danado.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Um homem que era o Diabo



Entre os anos de 1911 e 1915 viveu em Fortaleza um homem estranho, vindo, diziam, do Rio de Janeiro, do Piauí ou talvez de São Paulo. Ao certo não se sabia a sua procedência. As beatas juravam de mãos postas que aquela figura tinha com certeza, emergido dos quintos dos Infernos.

No livro “Fortaleza Descalça”, o poeta Otacílio de Azevedo assim o descreveu: “... era alto, macérrimo, perfil grego, sobrancelhas espessas e juntas, olhos fundos e profundos com olheiras cor de azinhavre. (...) Possuía uma particularidade interessante: tinha seis dedos em cada mão, o que lhe aumentava o misterioso aspecto e talvez justificasse o seu comportamento esdrúxulo. (...) Um sentimento de repulsa dele me afastava e me fazia temê-lo, como se ele fosse um monstro daquelas antigas histórias de Trancoso”.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

"Voulez-vous coucher avec moi"?


A cidade de Fortaleza, entre as últimas décadas do século XIX e as primeiras do século XX, foi amplamente influenciada pelas ideias de modernidade estética e comportamental, especialmente francesas, período que ficou conhecido como Fortaleza da Belle Époque.

Era a Fortaleza metida a besta. Segundo o blog Fortaleza Antiga, “...a cidade se encheu de sobrados, palacetes e mansões que ornamentaram o novo perfil urbano da cidade. A exemplo de outras cidades ditas civilizadas, Fortaleza tinha a “Cidade Luz” como referência de modernidade. Dessa forma, a capital do Ceará foi arrebatada por uma febre de afrancesamento. Ser moderno era acompanhar as modas vindas de Paris, usar expressões em francês e abrir lojas com nomes franceses. As instituições culturais propagaram-se com o Instituto do Ceará fundado em 1887, a Academia Cearense de Letras (ACL) em 1894, a Academia Francesa em 1873 e o Clube Literário em 1894; a Padaria Espiritual, com intensas atividades voltadas à renovação artística e literária, no período de 1892 a 1898”.

Foi então que, seguindo essa moda, começou a aparecer na cidade prostitutas afrancesadas vinda de Recife para “sentar praça” aqui para servir aos coroneis que esbanjavam dinheiro, enriquecidos com o próspero comércio do algodão.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Todo castigo pra corno é pouco


Cornélio era desses homens pequenos, franzinos, tímidos, risinho fraco. Puxava uma perna, andava de cabeça baixa e pouco falava com os colegas de trabalho. Era de corar quando lhe contavam qualquer piada obscena. Muito competente e pontual no trabalho era por isso respeitado por todos na repartição pública. O típico cidadão comum daquela canção de Belchior.“Vivia o dia e não o sol, a noite e não a lua. Acordava sempre cedo, era um passarinho urbano. Era um homem de bons modos: Com licença; foi engano".

De casa para o trabalho e do trabalho para casa. Sair com os colegas para tomar uma cerveja depois do expediente, então, nem pensar!

Agora, o cabra era muito azarado. Eu digo azarado porque Cornélio teve a ousadia de se casar com uma belíssima mulher! Loura, olhos azuis e penetrantes, boca vermelha, carnuda, faces rosadas, sardenta, sorridente. Seios fartos e bunda torneada como numa escultura de porcelana, coxas grossas, pele dourada, perfumada. Um encanto de mulher. Uma manga-rosa!

“A manga rosa,
Peitos gostosos,
Rosados doces
Mama
Teu sumo escorre
da minha boca”.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Dona Zefinha e o Cão



Zé de Zefinha era um cabra feio que só a peste! Era mais feio do que a palavra Teje Preso. O povo dizia que o cabra era tão feio, que quando nasceu, a parteira ia jogando o desgraçado no lixo. Preguiçoso feito o cão, passava o dia entre uma coisa e outra que a mãe mandava fazer e o fundo de uma rede na varanda do quintal, enfiando peido em cordão. Ele não trabalhava, não tinha amigos e de tão feio que era sequer tinha namorada. Pra dona Zefinha, a mãe dele, não. Ele era feio pros outros. Pra ela, podia até ser meio malamanhado, mas era bonito que só.

- Feio é a fome. – dizia ela.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O corrupto

Certo dia, recebi um telefonema de um vereador aqui de Fortaleza.

- Um vereador? Pensei – Vixe! – Fiquei imaginando se eu tinha feito alguma charge sobre a atuação pífia de algum vereador ou se tinha criticado a administração falida da prefeita de Fortaleza.

Nem uma coisa nem outra. Logo de cara, o sujeito, do outro lado da linha, começou logo a elogiar as charges, dizendo que eu era um gênio do traço, que já era meu fã desde os tempos em que eu publicava no Diário do Nordeste, que já acompanhava a evolução do meu trabalho agora na internet e que queria encomendar umas cartilhas.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O gentileza




No início dos anos oitenta eu trabalhava em um antigo prédio comercial na Rua Guilherme Rocha, próximo a Praça do boticário Ferreira, bem no Centro de Fortaleza. 

Embora meu horário de entrada fosse às oito horas, eu chegava lá pontualmente às sete, pois assim dava tempo de tomar um café no Azteca, ponto de encontro obrigatório de jornalistas, publicitários, políticos e madrugadores daqueles tempos.

Na entrada do prédio, sentado junto ao batente, quase que invisível aos transeuntes, trabalhava um distinto senhor, já grisalho, sereno, em uma pequena banca de madeira. Ele vendia cigarros, isqueiros, caixa de fósforos, canetas, ficha de telefone público, guarda-chuvas, baterias para relógios, envelopes e uma variedade enorme de outras coisas.

O CANHÃO DO EMÍLIO SÁ CONTRA A JAGUNÇADA DO PADRE CÍCERO

Vendo passar o padre, com o pesado bordão com que costumava andar, seguido de um bando de fanáticos, disse: “Ali vai um missionário;...