sexta-feira, 27 de abril de 2012

Um homem que era o Diabo



Entre os anos de 1911 e 1915 viveu em Fortaleza um homem estranho, vindo, diziam, do Rio de Janeiro, do Piauí ou talvez de São Paulo. Ao certo não se sabia a sua procedência. As beatas juravam de mãos postas que aquela figura tinha com certeza, emergido dos quintos dos Infernos.

No livro “Fortaleza Descalça”, o poeta Otacílio de Azevedo assim o descreveu: “... era alto, macérrimo, perfil grego, sobrancelhas espessas e juntas, olhos fundos e profundos com olheiras cor de azinhavre. (...) Possuía uma particularidade interessante: tinha seis dedos em cada mão, o que lhe aumentava o misterioso aspecto e talvez justificasse o seu comportamento esdrúxulo. (...) Um sentimento de repulsa dele me afastava e me fazia temê-lo, como se ele fosse um monstro daquelas antigas histórias de Trancoso”.

Chamava-se Raimundo Varão. Era um artista. Primoroso poeta e desenhista. Trabalhou no estúdio de fotografia do dinamarquês Niel Olsen com Herman Lima, que mais tarde se tornaria contista famoso e autor de Tigipió. 

Raimundo Varão parece que gostava da alcunha de filho de Lúcifer ou que era o próprio Diabo em pessoa vindo das profundezas do abismo eterno para ceifar as almas dos condenados. Ele mesmo contribuía para aumentar os mexericos e falatórios em torno de si. E os boatos se multiplicavam a cada dia. Um homem extremamente pálido como um vampiro, usando roupas pretas, ateu, não tomava banho, praticamente não comia nada além de cerveja com bolachas, tendo um odor fétido de defunto e ainda diziam que criava em seu quarto de pensão um sapo amarelo com o qual conversava e trocava carícias, era sem dúvida um motivo e tanto para as bocas ávidas de histórias mirabolantes dos fofoqueiros daquela época.

Certa feita, depois de uma interminável noite de bebedeira, o enigmático poeta terminou a farra na Praia Formosa (hoje Praia de Iracema), em meio a uma tempestade com raios e trovões. Raimundo Varão não se intimidou e berrava ensandecido aos Céus que Deus provasse a sua existência mandando um raio que o partisse ao meio, causando arrepios nos companheiros de boemia.

Varão adoecia frequentemente de fulminantes e efêmeros amores, paixões platônicas e arrebatadoras. Varava a noite insone a entoar cânticos febris para as moças recatadas e ingênuas dos sobrados. Os pais apavorados se apressavam a esconder as filhas, pois o Diabo estava à solta e não dormia.

O infame tinha uma predileção pela inocência das imagens das santas da Igreja Católica. Dizia que todas as santas eram belas e a candura de suas mãozinhas postas arrebatava o sacrílego. Apaixonou-se perdidamente pela imagem de Santa Teresa de Jesus que vira em uma igreja de Fortaleza e para ela deixou escrito o seguinte poema:

ANTE A IMAGEM DE SANTA TERESA DE JESUS

Teresa de Jesus, lírio da Espanha
A casta luz de teu olhar magoado 
Só me desperta a fantasia estranha 
Das misérias da carne e do pecado; 
Por ti, no fundo d’alma se me entranha 
Não sei que o amor brutal de alucinado... 

Vem do bando falaz das ilusões
A despertar-me os lúbricos anseios. 
(possam curar-me d’alma as podridões 
teus olhos imortais de sonhos cheios) 
Surgindo dentre inúmeras visões 
O alabastro divino dos teus seios... 

Santa ou louca? O que foste não importa,
Pois nada importa quando o amor brutal 
Nos dilacera, nos domina e corta 
Como a lâmina fria de um punhal; 
E mais se a nossa alma se conforta 
Nas venenosas brotações do mal? 

Ó poetisa gentil de membros lassos,
Nesses loucos acessos de histerismo, 
Como deviam ser os teus abraços 
Repassados de doce magnetismo... 
Por ti, meu coração feito em pedaços 
Havia de rolar no eterno abismo! 

Se tu vivesses hoje e os meus desejos
Pudesse saciar no amor profundo, 
A volúpia infernal dos nossos beijos 
Abrasaria o coração do mundo...



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