sexta-feira, 20 de abril de 2012

"Voulez-vous coucher avec moi"?


A cidade de Fortaleza, entre as últimas décadas do século XIX e as primeiras do século XX, foi amplamente influenciada pelas ideias de modernidade estética e comportamental, especialmente francesas, período que ficou conhecido como Fortaleza da Belle Époque.

Era a Fortaleza metida a besta. Segundo o blog Fortaleza Antiga, “...a cidade se encheu de sobrados, palacetes e mansões que ornamentaram o novo perfil urbano da cidade. A exemplo de outras cidades ditas civilizadas, Fortaleza tinha a “Cidade Luz” como referência de modernidade. Dessa forma, a capital do Ceará foi arrebatada por uma febre de afrancesamento. Ser moderno era acompanhar as modas vindas de Paris, usar expressões em francês e abrir lojas com nomes franceses. As instituições culturais propagaram-se com o Instituto do Ceará fundado em 1887, a Academia Cearense de Letras (ACL) em 1894, a Academia Francesa em 1873 e o Clube Literário em 1894; a Padaria Espiritual, com intensas atividades voltadas à renovação artística e literária, no período de 1892 a 1898”.

Foi então que, seguindo essa moda, começou a aparecer na cidade prostitutas afrancesadas vinda de Recife para “sentar praça” aqui para servir aos coroneis que esbanjavam dinheiro, enriquecidos com o próspero comércio do algodão.

Conta-se que chegou na cidade para a Pensão da Amélia Campos, que ficava defronte a Padaria Lisbonense, na Rua Dr. Pedro Borges - Beco dos Pocinhos – e que era a mais antiga casa de recursos da cidade, uma mariposa que não falava uma palavra sequer de Português, o que não era empecilho para as funções que a donzela iria exercer.

Certa feita, compareceu naquele bordel, um rico e abastado comerciante, coronel algodoeiro, semi-analfabeto, grosso que só papel de enrolar prego, visivelmente interessado em conhecer a tal francesinha.

A madame, toda serelepe, foi logo apresentando a moça ao coronel que de pronto ficou logo encantado com a formosura da marafona. Entre uma bebida e outra, o coronel já doido pra se abufelar com a fuampa, se levantou avexado, puxando-a pelo braço, se babando como um cachorro doido.

- Bora prum lugar mais sossegado, que eu quero te mostrar o que é bom pra tosse.

Ela toda “não-me-toques”, fazendo muxoxo, jogando charme pro cabra, disse num francês crioulo:


- Voulez-vous coucher avec moi?


O coronel deu um pulo pra trás, colérico, causando o maior alarido, chamando a atenção de todos no salão. A madame correu em socorro da rapariga assustada.

- Diabéisso, coronel? Tá estranhando a minha menina? Tenha mais respeito que a minha pensão é ambiente familiar! Que foi que aconteceu pro senhor perder as estribeiras?

- Essa sinhazinha aí, teve o desplante de me perguntar se eu queria ir com ela pra fazer o meu cu velho miar! – gritou o coronel puto de raiva, vermelho que só um pimentão-de-caiena – diga a ela que eu sou é homem! Esse negócio de fazer o cu miar num é comigo não! Isso é coisa de mariquinha!


Um professor de Francês do Liceu que estava na pensão, observando aquele desentendimento e vendo que o coronel era mais burro que uma porta, se aproximou e calmamente explicou:

- Coronel, fique tranquilo. A donzela não quis lhe ofender de maneira alguma. Ela apenas perguntou se o senhor gostaria de se deitar com ela. É que ela falou em Francês.

- Ôxente! Era só isso? Arriégua! Essa muié num sabe falar direito não? Êita diacho!

A madame interveio novamente.

- Pronto Coronel, pode levar a bichinha pro quarto. Num se preocupe não que ela vai lhe atender. Num se avexe não, hôme de deus!

- Pois eu vou mesmo! – disse o coronel ainda esbaforido – agora se ela vier com essa conversa de fazer o meu cu miar eu sento o tabefe nas fuças dela!

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