quarta-feira, 9 de maio de 2012

No dia em que o Bode Iôiô virou gente





Iôiô foi um bode mestiço com forte predominância da raça parda alpina que viveu na cidade de Fortaleza no início do século XX. Em 1915 um retirante da seca vendeu o dito cujo para José de Magalhães Porto, representante do industrial Delmiro Gouveia, correspondente no nordeste da empresa britânica Rossbach Brazil Company, localizada na Praia de Iracema. 

O bode perambulava, sem ser molestado pelos fiscais da prefeitura, pelas ruas centrais da cidade, na companhia de boêmios e escritores que frequentavam os bares e cafés ao redor da Praça do Ferreira, centro cultural da capital. Bebia cerveja e cachaça, fumava charuto e gostava de ouvir música e muitas vezes, acompanhava os seresteiros pelas madrugadas. O bicho parecia gente. Era sempre visto no meio das conversas dos boêmios, poetas e intelectuais. Esse nome Iôiô foi lhe dado por ele sempre percorrer o mesmo trajeto, entre a Praça do Ferreira e a Praia de Iracema, num vai-e-vem danado.

Quem visita Fortaleza poderá ver o bode Iôiô imortalizado como peça de museu. Logo após sua morte, em 1931, foi empalhado e doado ao acervo do Museu do Ceará. 

Conta-se que o bode Iôiô era a reencarnação de Paulo de Castro Laranjeira, engenheiro fiscal das obras do Estado e poeta e seresteiro. Laranjeira se apaixonou perdidamente, quando por acaso, na Praça do Ferreira, cruzou o olhar com uma donzela de traços finos, esnobe, esbelta de olhos verdes como o mar de Fortaleza. Nunca mais foi o mesmo! Enlouqueceu. Seu sonho de cortejá-la e casar com ela era impossível. A família da moça jamais permitiria tal consorte. Um boêmio cachaceiro? Nunca, jamais! Teria dito um dia o pai dela. 

Destroçado pela paixão suicidou-se bem debaixo do sobrado da moça, no dia 14 de fevereiro de 1897, com um tiro de pistola no ouvido, embriagado pelo champanhe e dizimado pelo fogo da paixão bem logo após cantar em serenata a modinha “Teu Desprezo” que tinha escrito especialmente para ela, cujos versos assim falavam: 


"Teu desprezo me arrasta lentamente

Para a campa solitária vou partir
E a morte será minha vingança
Para que serve, ó mulher, eu existir."



Se fitares meu sepulcro esquecido

Ó tu, a quem tanto idolatrei,
Deita sobre meu túmulo uma saudade
Em troca do amor que te jurei.” 


Dezoito anos depois do suicídio de Laranjeira, o bode Iôiô vinha calmamente de suas andanças caprinas, quando se aproximou como de costume, de uma roda de seresteiros. Naquele momento falavam da morte trágica do Paulo Laranjeira. Em homenagem póstuma, um boêmio chamado Fetinga então começou a cantar a modinha “Teu Desprezo”. Ao ouvir a música, o bode Iôiô que estava atento à conversa, começou a tremer e desabou no chão, em convulsão epilética, espumando.

O espanto foi grande e o desespero foi geral. O bode estava morrendo, com certeza. Alguns minutos depois, o caprino se levantou incólume, refeito. Tinha sobrevivido àquela terrível e estranha síncope, mas notaram uma evidente e melancólica tristeza no olhar. Passado o susto, os seresteiros voltaram então a cantar a modinha de Paulo Laranjeira. De repente, outra vez, ato contínuo, o bode Iôiô repetiu a cena grotesca e caiu em estado epilético, se estrebuchando no chão. 

Os boêmios então não tiveram dúvida, o bode Iôiô era o Laranjeira reencarnado. O boato então se espalhou pelos quatro cantos da cidade e até a Igreja interveio, proibindo que se contasse a tal história, pois intentava contra os princípios sagrados da Igreja. 

Mas que o bode parecia ser gente, parecia, dizia o povo. O mistério aumentou ainda mais quando em 1966, misteriosamente o rabo do bode sumiu. Dizem que foi roubado por um turista estrangeiro. Para que alguém iria querer o rabo do bode? Vai ver foi levado pra fazer algum feitiço, afinal o bode era o mesmo que tá vendo uma pessoa. 

O bode Iôiô participou de atos políticos em coretos, praças e saraus literários, foi o segundo mais votado vereador de Fortaleza, comeu a fita inaugural do Cine Moderno, assistiu peça no Theatro José de Alencar, passeou de bonde, perambulou pelas igrejas e até pela Câmara Municipal. Segundo o historiador Raimundo Girão, autor do livro "Geografia da Estética Cearense", o bode Iôiô era um cidadão cearense como outro qualquer.

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