quarta-feira, 18 de julho de 2012

O vendedor


“A miséria é múltipla. O infortúnio da terra é multiforme”. Edgar Allan Poe 


Como nenhum outro, ele era um excelente vendedor. Eu disse excelente? Menti. Era excepcional! Já nascera com aquele intuito. Um dom para vender tudo o que lhe propusessem para tal. Qualquer coisa, mesmo! Ambicioso, ávido por lucro, era lépido e astuto. Aguerrido, lançava-se intrépido, diuturnamente, em andanças sem rumo, febril como um explorador em busca de um tesouro. 

Em sua lida diária, não havia obstáculos para realizar uma venda e nunca, em hipótese alguma, aceitava um “não” como resposta a seus reclames. Vendia coisas que tinham um altíssimo valor e coisas supostamente invendáveis, inúteis, supérfluas e enganosas como pirâmides financeiras. Estudava com cuidado o possível cliente bem antes de abordá-lo. Se fosse alguém de posses, chegava à ousadia de oferecer um artigo caro, como um super iate de luxo de 15 toneladas. Dizia-se que era extremamente feliz em seu ofício. Não saía de mãos abanando. Gabava-se, esnobe, de nunca ter perdido uma venda. Sua pasta tinha todo tipo de catálogo dos mais diversos produtos, desde artigos da indústria naval, construção civil, imóveis, equipamentos hospitalares a anúncios classificados de baixo custo.

Numa dessas andanças pela cidade vislumbrou um imponente, luxuoso e alto edifício empresarial, todo negro, de portas negras de vidro opaco, chão de granito negro. Tinha certeza que nunca o tinha visto antes. Mas como não o teria visto, se passava ali quase todos os dias? Incrível como não o tinha ainda percebido. Lembrou que naquele local existia um velho prédio em ruínas e agora, para seu espanto, uma torre de vidro e aço se erguia até o céu. Conjeturou atônito de como a construção civil andava a passos largos! Construíam praticamente da noite para o dia! Não era à toa que a cidade estava crescendo daquele jeito! 

Ambicioso, viu ali a chance de oferecer seus produtos. Prédio novo, novos escritórios! Entrou e ainda espantado, decidiu bater de porta em porta, andar por andar. No mínimo, deixaria seu cartão de visita. E foi assim que, ao bater em uma das portas luxuosas, já no último andar, de onde se podia ver o mar, que lhe veio ao encontro uma mulher deslumbrante, qual sílfide de sorriso provocador, insinuante e gentil. Ela prontamente o deixou entrar, ofereceu-lhe água e vinho e, sem hesitar, comprou-lhe bastante coisas. Ele estava estasiado! Que sorte! Nunca tinha vendido tanto em um só dia! Foi embaralhado nos catálogos e blocos de pedidos que ele ouviu uma proposta que lhe gelou dos pés à cabeça até a medula. Aquela mulher deslumbrante qual Náiade e fatal como Medusa, com seu sorriso lascivo e petrificante, propôs comprar-lhe um fio de cabelo, uma gota de saliva, uma gota de sangue. Pagaria a ele o que fosse, o que lhe pedisse e achasse justo. O vinho escancarou a boca abominável e falou por ele. Despojou-se de sua alma e ali mesmo passaram a tarde em selvagem sexo, embriagados pelo desejo ardente e pelo álcool devastador. 

Debaixo de um viaduto, enrolado em jornais, imundo, faminto, fedorento, coberto de pústulas como num cão sarnento, o viciado em crack, soropositivo, alcoolizado, pronunciava palavras desconexas que ninguém entendia. Falava de um edifício todo negro, de portas de vidros opacos e chão de granito negro, onde certo dia, quando era um vendedor de sucesso e extremamente feliz, teria encontrado o demônio e com ele feito um negócio do qual se arrependeria amargamente para toda a sua existência! A maior venda que tinha feito, da qual não tinha nenhum orgulho. Vendera a própria alma. E depois... e depois tudo é mistério, o horror, o horror! Uma história que não deveria ser contada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A MENINA

Um homem estava sentado no banco da praça, absorto com o seu jornal, que nem se deu conta daquela mulher que se aproximava dele, c...