quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Cartão Bolsa-Cachaça

Assim como são as pessoas, são as criaturas. Não digo nem que sim nem que não, mas Deus tá vendo a peleja. Um dia a casa cai. Tem coisa que a gente não se acostuma é nunca!

Pois pasmem, meus amigos, com o sucedido. Parece ser uma coisa à toa, mas não é.

Um dia desses, uma sexta-feira, como de costume, larguei meus afazeres episcopais de desentupidor de pia batismal e saí pra Praça da Lagoinha com o intuito de tomar uma lapada na bodega do seu Egídio, hábito contumaz, desde os tempos áureos da UNE. Já dizia Sêneca: “difficulter reciduntur vitia, quae nobiscum creverunt”.


Não sou homem de ouvir conversa dos outros. Longe de mim fazer inferno, mas logo que cheguei ao bar do seu Egídio, refúgio dos cachaceiros e cus-de-cana, logo prestei atenção em dois papudinhos que enchiam a caveira de cachaça, completamente subjugados pela engasga-gato e falavam, na linguagem trôpega dos pau-d’água incorrigíveis, que iriam pagar a cachaçada com cartão.

- Cartão? Égua! – bradei. – Diabéisso! Agora tem cartão pra bob esponja?

Que a curiosidade matou o gato eu já sei, mas fiquei doido pra saber o que o seu Egídio, homem grosso que só papel de enrolar prego iria dizer dessa marmota.

Como é que uns feladaputa desses iam ter algum cartão?

Como eu já tava por ali mesmo, gostando da putaria e já tinha tomado umas talagadas, coloquei foi lenha na fogueira e falei pro seu Egídio que os cus-de-cana estavam planejando dar um checho nele.

- Seu Egídio, os papudim aqui tão dizendo que vão lhe pagar com cartão! – bradei.

- Aí dento! – gritou o grosso do outro lado do balcão – Tão pensando que eu sou as Casas Bahia? Aqui num tem essa história de cartão não, seus baitolas! Acho bom irem logo vomitando a “ceda”!

- Num é isso não, seu Egídio! – falou um deles – nóis vai pagar é com esse aqui, ó!

Quase que eu tenho um troço quando o pudim de cachaça mostrou o cartão do Bolsa-Família. O seu Egídio brilhou os olhos de contentamento.

Passa a senha! – E vocês podem é morrer de coma alcoólica que eu num to nem vendo! E ainda chamo o Samu!

Bebi por conta dos “papudim” e do Bolsa-Família até o cu fazer bico.

Seu Egídio ficou tão satisfeito com a novidade que já mandou fazer uma imagem do São Lula, padroeiro dos corruptos e dos manguaceiros, para colocar na prateleira das cachaças.

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