quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

AS LUZES DE NATAL







Veja como são bonitos os palácios 
E veja como são pobres os campos, 
O quanto estão vazios os celeiros dos camponeses 
Enquanto os bem-nascidos usam ornamentos 
Ocultando armas afiadas. 
E, quanto mais eles têm, mais eles tomam, 
Como pode haver homens como esses, 
Que nunca têm fome, nunca têm sede, 
E ainda assim comem e bebem até estourarem! 


Verso 53 do Tao Te Ching segundo Witter Bynner

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O SERMÃO


“Ai dos que habitam na terra e no mar; porque desceu a vós o Diabo, tendo grande ira, sabendo que já tem pouco tempo! Nos últimos tempos apostatarão alguns da Fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios”.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A TROMBOSE


Seu Otacílio amanheceu todo troncho, com uma banda morta, a boca virada prum lado, toda roxa. Quando a dona Mariazinha, a mulher dele viu aquilo, tomou foi um susto com a cena grotesca. O velho tentava falar alguma coisa e só saía uns grunhidos de porco. A situação do velho era calamitosa, diga-se de passagem. A coitada da mulher dele alarmou no meio da rua, pedindo socorro, que era pru mode acudir o marido que tava tendo uma trombose. A casa se encheu de gente querendo ver o seu Otacílio todo inchado dentro duma rede veia, grunhindo qual um barrão e se cagando todim, feito menino novo.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

HISTÓRIAS DO SERTÃO: AS RUÍNAS ASSOMBRADAS DE COCOCI

Foto do blog de Altaneira

Lá pras bandas de Parambu, cidade dos Inhamuns, no sertão do Ceará, existe uma localidade abandonada chamada de Cococi. Já foi uma cidade, mas hoje é uma vila fantasma, deserta e em ruínas. O povo tem medo até de passar por lá. Diz-se que tem assombração. Depois que anoitece não é bom ficar em Cococi.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

DESEJO CEGO


Ao lado do prédio do Instituto dos Cegos na Avenida Bezerra de Menezes, tem uma parada de ônibus e é comum sempre ao meio-dia ver dezenas de deficientes visuais à espera de condução. No meio dessas pessoas, no vai e vem da hora do almoço, nota-se um cego em especial. Ele fica lá por horas, sentado em um dos bancos, talvez à espera de alguém para voltar para casa. Um filho, um amigo, a mulher, quem sabe.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

O VAMPIRO DA PRAÇA DO FERREIRA



O vampiro chegava sempre no final da tarde. Sentava sempre no mesmo banco, em frente ao prédio do Cine São Luiz. Fazia isso já há dezenas de anos. Ficava lá por horas a fio. Despretensioso, alheio a tudo ao seu redor, somente observava o vai e vem de pessoas. O olho exangue demorava em algumas pessoas, preferencialmente em mocinhas púberes. Esputava como um lobo.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

UMA ESTRANHA HISTÓRIA



Conheci seu Aírton na década de oitenta. Era um homem humilde, autodidata, de poucas palavras. Ele trabalhava na limpeza e servia o cafezinho, entre outras coisas. Certa vez ele me contou essa estranha história:

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

AS PARTES ÍNTIMAS DAS PUTAS


A Parábola dos Cegos, 1568, Pieter Bruegel;


Todos os dias o velho descia a rua onde ficava a zona do baixo meretrício. Cego, curvado pelo peso da idade, pobre e doente, o corpo todo coberto por severas chagas sifilíticas, esfrangalhado, o miserável vagava pela cidade como um cão sarnento. Misturava-se com as putas, travestis, bêbados, cafetões, proxenetas, garotas de programas, entre outros personagens não menos desprezíveis que faziam ali o vil comércio de corpos e de almas perdidas no abismo dos delírios sexuais. Quem pensou que o velho ia à busca da luxúria ou da impudicícia, ou mesmo dos prazeres sodomitas, enganou-se redondamente. Na verdade ele estava ali diuturnamente, numa tarefa quixotesca e inútil, apregoando qual um louco, um alerta contra o pecado capital da lascívia e da devassidão.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A HISTÓRIA DA MULHER QUE DEVOROU O MARIDO

Saturno devorando um filho - Francisco de Goya

Morava uma humilde mulher numa casinha no meio do mato, abandonada pelo marido, que era como assim dizer, caixeiro viajante e por sinal, muito perdulário. Ganhava tudo o quanto podia e gastava tudo o que não tinha nos jogos de cartas, deixando de lado a obrigação de encher a despensa da casa. Passavam meses e anos inteiros sem que ele voltasse, deixando a miserável esposa passando as mais cruéis adversidades. A pobre mulher andava em trajes de pedinte, numa pobreza nunca vista, seca e esfaimada, só peles e ossos.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O SONHO

Robert ParkeHarrison - sleeping man

Seu João Rodrigues acordou sobressaltado e afobado feito a peste. Passou a noite tendo um pesadelo repetitivo, uma sucessão de sonhos terríveis, que não acabava nunca. Não conseguia dormir de jeito maneira. A todo instante dava um pinote para fora da rede e olhava para as telhas para ver se ainda estava escuro ou já era dia. Ficava tentando ouvir o galo, mas não ouvia nada. Estava tudo em silêncio sepulcral. A noite não passava e quando ele mal cochilava, vinha o sonho de novo a atormentar-lhe. Um sonho esquisito que se repetia sempre. Agoniava-lhe a simples idéia de ter que voltar a dormir. A noite toda chamou pela mulher por várias vezes, mas era como se não conseguisse pronunciar a palavra certa. Tentava dizer uma coisa e parecia que saía outra. A língua estava toda embolada e não sentia a boca, como aquela sensação de quando se vai ao dentista. Tampouco conseguia sair da rede. Era como se não tivesse os pés, pois por mais que tentasse ficar de pé não sentia o chão. Isso começou a lhe apavorar. Pensou logo que podia estar tendo uma trombose. A mulher dele, dona Maria José, já tinha lhe dito que era perigoso acordar de supetão e meter os pés no chão frio ou então sentir a barra de vento nas costas.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

A MULHER FEIA


A duquesa feia de Quentin Massys

Deus come escondido, já o Diabo sai por toda a parte lambendo o prato, como disse sabiamente Guimarães Rosa no Grande Sertão.

É por isso que num se deve prestar muita atenção na feiúra dos outros. Todo mundo é como tem que ser, ou com suas feiúras ou com suas bonitezas. Mas dito isto à parte, rapaz, a mulher do seu Zé Tóin, dona Mazé, é mais feia do que barruada de trem. Mas como Deus faz as coisas tortas ficar endireitadas, ela é um doce de pessoa, educada, simpática, que até a feiúra dela passa assim de lado, que é pru mode a gente num precisar de vê.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

VELHO MACHO



Seu Antônio Feitosa, cabra sertanejo dos Inhamuns, virado na gota serena, mais grosso do que papel de enrolar prego, fez uma viagem pra Fortaleza, que era pru mode fazer uma visitinha pros parentes.

- Pura invencionice do diabo decha muié! Por mim, eu ficava aqui mermo no meu sertão! - Dizia o cabra, visivelmente emburrado com a ideia de ter que se ausentar da fazenda.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

HISTÓRIAS DO SERTÃO – A cruz na estrada



“Caminheiro que passas pela estrada,
Seguindo pelo rumo do sertão,
Quando vires a cruz abandonada,
Deixa-a em paz dormir na solidão”.

(Castro Alves)



No sertão as estradas são solitárias e silenciosas. O silêncio da solidão é deslumbrante. Aqui e ali se vê uma árvore seca, uma casinha esquecida, um muro em ruínas, uma cancela. Tudo é mato nos dois lados da estrada. Quem passa sozinho se arrisca a ver coisas, ouvir vozes, sentir cheiros. Cheiro de cuscuz e café, fornada de tapioca, cheiro de bosta de vaca, cheiro de mato, cheiro de caju, cheiro de chuva, sem chover.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

UM HOMEM DE SORTE




Conto-vos a história de Juvenal, um rapaz de uma mediocridade de tal porte, que vivia às tontas em busca da fortuna fácil, envolvido até a medula em jogos de azar, jogando, bebendo e principalmente fornicando em orgias infernais. Tais orgias à parte, nos jogos de azar, no entanto, esse Juvenal nunca ganhava nada, apesar de gastar o que podia e o que não podia em apostas e que, invariavelmente, perdia tudo. 

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

OS ENCANTOS DE DONA ORLANDA






Há males que vêm para o bem. Todos nós já ouvimos essa sentença ser dita desde tempos imemoriais. E há muita verdade nisto, com toda a certeza. Que o diga dona Orlanda, cujo marido fora morto por engano numa emboscada que não era para ele. No dia de seu assassínio, estava na companhia do verdadeiro homem que deveria receber a sentença de morte.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

HISTÓRIAS DO SERTÃO – O VELÓRIO


Dr. Cosme era um homem muito rico, dono de fazendas, criador de cavalo, inimigo dos pobres, humilhador dos negros, mandante de pistoleiro, dado a velhacadas de cigano e alquilador. Podia comprar tudo o que via, mas não pôde comprar a saúde. Era um homem doente, sempre à morte. Não havia dinheiro que chegasse à mão dele que não fosse para comprar remédio ou para pagar a um esculápio, que ele mandava buscar, a peso de ouro, na cidade grande. Até mesmo tinha mandado chamar nigromantes e hierofantes do estrangeiro. Mas qual o quê! Sem sucesso! A doença dele ocupava toda a cidade. O sofrer do infeliz era tão grande que tirava o sono dos bons.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A FOME



Seu Roberto Barreto, homem muito culto, já falecido, me contava um monte de histórias do sertão. Publicou nos anos oitenta um excelente livro intitulado “Caminhos Ásperos”, onde narra sua dura jornada desde o sertão até chegar aqui em Fortaleza. Passou por um monte de presepada.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O DIABO NA JANELA

A Ilustração é de Daniel Klein


Aquela moça era bonita que só vendo. Ficava a manhã toda na janela arrumando os cabelos trançados, ora botando papoulas, ora botando girassol, ora pintando as unhas, ora botando batom, sempre sorrindo com a boca vermelha para os moços que passavam em frente da casa, só pra ver a boniteza dela.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A MORTE E A VIDA




Amanheceu uma manhã silenciosa, quente, sem brisa. O suor descia como goteiras. Dona Mazé, atarefada na cozinha, deu fé duma coisa no quintal. Uma galinha cantou como um galo. Ela se arrepiou de cima a baixo, se mijando todinha. Quem ouve tal canto sabe logo que vai haver desgraça. É prenúncio infalível de coisa ruim. Pra se prevenir da desgraça é bom cortar logo um dedo da galinha ou matar a bicha.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

UM DIA DE FRANCISCO

São Francisco de Assis

Minha mãe me deu o nome de Francisco das Chagas, que é o mesmo São Francisco de Assis, canonizado pelo Papa Gregório IX, em 16 de julho de 1228. Ela me dizia ser um nome forte e que esse nome iria me proteger pelo resto da vida. Mesmo descontente, cresci com esse nome, mas ninguém me chamava de Francisco das Chagas. Ora me chamavam de Chico, ora de Chiquim, ora de Chaguinha, ora de Das Chaga, e por aí vai. Confesso que eu odiava esse nome. Minha mãezinha quase sempre vinha me consolar, dizendo que nem toda pessoa era merecedora de usá-lo. Embora isso não me convencesse, eu via o brilho nos olhos de minha mãe e me resignava. Além do mais eu sabia que não era merecedor do nome Francisco das Chagas. Eu vivia jogado no mundo, comendo, bebendo, fornicando e lambendo os beiços. Cresci sem ter Fé alguma, sempre odiando o nome que minha mãe me dera.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

UM ANJO CHAMADO WEBER

Rua Padre Mororó na Fortaleza antiga

O professor Weber parecia um anjo. Gostava sempre de usar a roupa branca de enfermeiro. Costumávamos encontrá-lo à sombra dos fícus-benjamim, na calçada da Rua Padre Mororó, onde fica o curso de enfermagem São Camilo de Léllis, do qual era ele o diretor. Fazíamos, então, questão de cumprimentá-lo e sentir o forte aperto de mão. Ele tinha um apreço por todos, tinha os braços abertos, o coração generoso, exalava simpatia, amizade, benevolência.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

HISTÓRIAS DO SERTÃO – A ASSOMBRAÇÃO DO AÇUDE




O açude é um mar de tão grande que é.
Nas profundezas das águas tem uma cidade antiga.
Histórias de amor e medo, profundos segredos.

O menino nasceu todo esbranquiçado, transparente, a pele branca, os olhos vermelhos que dava medo. Parecia até uma alma penada. Era por isso que desde menino não saía durante o dia. Escondia-se de todos. Andava escondido do sol. Só saía quando escurecia para pescar no açude. Ficava por lá até altas horas da noite. A mãe dele morria de preocupação com o menino. Voltava pra casa com o samburá cheio de peixes de todos os tipos.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

O IDIOTA


Francisco de Goya, O Idiota

O idiota quando nasceu, já era um idiota. Nasceu de pais idiotas que consideraram que tinha sido uma idiotice terem se casado e ainda uma idiotice pior, quando ela engravidou. Quando ele nasceu, deram-lhe um nome idiota qualquer. Eles viram esse nome na televisão quando assistiam à programação idiotizante.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

O DIA DA MORTE





Quando o médico entrou na sala, observou que o semblante dele era grave.

Ao ouvir o diagnóstico sentiu um soco no estômago. Quase desfalece ali mesmo. A vista ficou turva. O médico todo de branco, sentado do outro lado da mesa, deu-lhe a impressão de que era um espectro. A sala do doutor era fria, muito fria, repleta de diplomas e havia muitas fotos de congressos de medicina. Outras fotos mostravam o doutor sempre fazendo pose nos principais monumentos europeus, demonstrando que era financeiramente bem sucedido. Viu uma réplica da torre Eiffel em cima da mesa que lhe pareceu imensamente simplória.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

A JANELA DA ALMA



Daqui da janela dá para ver a rua, a praça, a igreja, a chuva. Passam carros, pessoas, passam coisas. Passa um homem de bem vendendo pipoca. Passa devagar, sem pressa e senta no banco da praça. Pombos revoam em volta e ele reparte a pipoca com os pombos. O rosto dele é feito todo de sorrisos. Chegam crianças colorindo tudo à volta e os pombos saltam como crianças. Árvores balançam os braços, os galhos, as folhas abraçando o vento, desfolham. E a vida passa de manhã na praça.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

AMANHÃ É SÁBADO

Um sábado antigo, uma rua antiga em Fortaleza

O sábado tem uma magia, um “não-sei-o-quê” de diferente e de especial. É como se a natureza conspirasse para o sábado. Acorda-se mais disposto do que nos outros dias, percebe-se mais o azul do céu, azul translúcido como um vitral de catedral, espelhado nas poças d’água, quando chove. Há mais canto de pássaros, bem-te-vis empoleirados no centenário pé de pitomba no quintal. Nas manhãs de sábado abrem-se as cortinas, clareia-se a casa toda, o corredor, o quintal. Ouve-se um silêncio tão profundo! O cheiro gostoso de café e pão com manteiga vem acordar-nos e uma sensação de contentamento estufa-se no peito, fazendo bater mais forte o coração, revitalizando uma promessa, uma esperança, um juramento. No jardim, rosas abrem-se às borboletas e abelhas e as formigas, incansáveis jardineiras, podam e fazem piqueniques. O perfume no ar fica mais intenso e a manhã nem bem começou.

Bem que Clarisse Lispector falou que o sábado é a rosa da semana e sábado de tarde a casa é feita de cortinas ao vento.

Ah, tardes de sábado!

Notou como as sombras nas calçadas são maiores? Estendem-se enormes, alongando-se nas ruas, convidando-nos para sentar sob árvores generosas.

Nelson Rodrigues certa vez escreveu que o sábado é uma ilusão.

Amanhã, pois, é dia de ilusão.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

A CAIXINHA MÁGICA DA VOVÓ



A vovó Rita Júlia tinha uma caixinha onde guardava de tudo. Se alguém precisasse de alguma coisa, qualquer coisa, a vovó ia ao quarto buscar sua caixinha, de onde tirava o que fosse preciso. A gente ficava curiando só pra ver o que tinha dentro da caixinha da vovó, mas ela fechava tão rápido que não dava pra ver nadinha de nada.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

AIDS - O CÃO FEROZ


Matthias Grünewald: A Tentação de Santo Antão, c. 1515 (detalhe)


Ao nascer, desde eras ancestrais, cada um de nós traz consigo dois cães interiores. Um é prudente e dócil e o outro é feroz e violento. Vez por outra é travada sangrenta luta corporal até a morte. O cão que vai vencer é aquele que for mais bem alimentado.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

DAMIANA E A MACUMBEIRA


Eita, que o povo do sertão é cheio de arrumação!

Eu vou contar então a história da Damiana, negra cheia de prosa, que morava na fazenda desde quando era menina pequena. Trabalhava na cozinha, comia de tudo e por isso era gorda como uma porca. Tinha vez que ela fazia um panelão de doce de goiaba e antes do doce esfriar ela já tava lá, raspando o tacho. Comida de panela mesmo, ela não gostava, não. Só gostava de bagulho. Comia o tempo todo. Bruaca, batata-doce, tapioca, rapadura, maria-maluca, alfenim, bolo de milho, pé-de-moleque, grude, cocada, não demorava muito na frente da Damiana.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

A BOTIJA DA IMBURANA




Olhando pela janela dava pra ver o pé de Imburana, bonito, majestoso em plena seca, com seus galhos despidos de folhas, anunciando a temporada florida.

A imburana serve pra tudo: tomar banho com as cascas da imburana serve pra curar dor nas juntas e fraqueza das pernas. A casca também dá um xarope que é bom pra curar crupe, difruço, tosse de cachorro, cobreiro, impinge, pereba braba, empachamento, barriga farosa, dor no mucumbu e até vento caído.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

UM SONETO BEM BONITO



Dona Magide, filha de sírio-libanês, nascida na cidade de Itapiúna no sertão do Ceará, tem os olhos azuis como o azul de uma tarde de verão em Quixadá. Aquele mesmo azul de quando o céu, como num espelho, reflete nas águas do açude do Cedro.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

AS BORBOLETAS - para minha mãe


Dona Socorro todo dia cuidava do jardim. Até conversava com as flores, mudava os jarros, plantava mais uma roseira aqui, outra ali. Ralhava com as formigas. Tinha antúrios, estrelícias, girassóis, sorrisos-de-maria, boas-noites, muçambês, papoulas-dobradas, amarelas e vermelhas, jitiranas, rosas e rosas-meninas, enchendo os olhos de tantas flores e perfumes.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Histórias do Sertão – O Choro no Matadouro



O sertão é vasto. Perdido no meio dessa solitária vastidão, onde só se vê a caatinga, árvores secas, cipós e pedras, encontra-se o sertanejo, homem resignado com a dura sorte, rude e ao mesmo tempo sábio e paciente observador das coisas à sua volta.

O sol causticante projeta sombras enormes. O vento atiça a poeira no areal, rodopiando galhos e folhas secas, sulcando a terra, assoviando um trinado contínuo e fino, indo perder-se nas furnas das pedras do boqueirão. O mais impressionante é o azul do céu.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Histórias do sertão – O menino gazo




No sertão de antigamente não existia energia elétrica, não senhor. Quando anoitecia, acendiam-se lamparinas e lampiões de gás. E a noite era lá fora escura e estrelada, senão salpicada de vaga-lumes errantes. Ouvia-se o coaxar de sapos, grilos em canto uníssono e o farfalhar das folhas das carnaubeiras prateadas pela lua cheia.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

CAVILAÇÃO


O doutor, mestre em leis, erudito e profundo conhecedor de toda a hermenêutica do Direito Romano, da jurisprudência vigente e intérprete da Lex Duodecim Tabularum, sentou-se ofegante na poltrona, de frente para aquele homem esquisito, de tez amarelada, que exalava um odor adocicado como amêndoas em calda e tetracloreto de carbono.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

O TERRORISTA


Nicodemos sempre foi um rapaz tímido, nunca teve coragem para nada e agora tinha decidido e iria fazer o que sempre sonhou desde menino: um ato terrorista.

Tinha visto a notícia dos atentados nos Estados Unidos e isso lhe deu coragem. Se aconteceu lá na cidade de Boston, por que não aqui nessa bosta de cidade onde ele morava?

sexta-feira, 12 de abril de 2013

SEGREDOS




Dona Helenita, velha e dedicada secretária há mais de... Quantos anos mesmo? Trinta? Quarenta anos? Meu Deus! Quanto tempo desperdiçado sentada em sua patética e velha cadeira giratória de palhinha!

quinta-feira, 4 de abril de 2013

A FILHA DO CORONEL



O vaqueiro Severino estava apaixonado pela filha do coronel Zé Carneiro. O boato já corria por tudo quanto era canto. Pelo menos era isso o que o pessoal pensava. No bar de dona Rosinha, era só no que se falava.

quinta-feira, 28 de março de 2013

NÃO-ME-DEIXES


Duas velhinhas, Dora e Dorinha, todo dia, bem de tardezinha, ficavam ali em suas cadeiras de balanço, sentadinhas numa sombreada calçada lá em Quixadá. Proseando, tricotando e vendo a vida passar.

Contavam histórias dos discos voadores que assombrava o povo, de uma menina chamada Mariana que corria de noite pelas ruas de Quixadá e subia na parte mais íngreme da Pedra do Cruzeiro e que pouca gente viu e outras histórias mais que sabiam de cor e salteado e por assim dizer.

quinta-feira, 21 de março de 2013

MÃE


Debaixo de um viaduto, no meio de entulhos de construção e sacos de lixo, dividindo com ratos e baratas o tosco casebre feito com caixas velhas de papelão e restos de madeira, abandonado à própria sorte, encontrava-se um homem tremendo de frio e de fome. Estava miseravelmente imundo e doente. Quem o examinasse veria em uma de suas pernas um inchaço que o impedia de levantar, oriundo de algum ferimento mal curado, má circulação ou doença renal crônica, cujo estado inflamatório fora agravado talvez pelas péssimas condições de higiene em que ele se encontrava. Enrolado em jornais, jogado sobre um colchão velho manchado de urina e fezes, febril, delirava, sufocado pelo odor nauseabundo que exalava dele mesmo. Quem passasse por ali, caso tivesse o interesse ou a curiosidade de saber as condições daquele pobre homem, é possível que escutasse suas preces fervorosas, mescladas de arrependimento, vergonha, perdão e palavras desconexas sobre uma imensa riqueza que tivera um dia, há muito tempo, quando era jovem e que perdera tudo quando se entregou ao mundo abominável de prazeres carnais e vícios descomunais.

sexta-feira, 15 de março de 2013

PAPA JOSÉ


Sentado na varanda, o velho sertanejo olhou para o curral e viu o pé de ipê todo amarelo, bonito, parado na paisagem seca. Não tinha um pé de vento. Sentiu só o mormaço vindo das coivaras e das capoeiras. Uma tristeza medonha lhe invadiu o coração, também seco, sem esperança. Bebeu um gole da água morna e barrenta, a mesma água que ele dividia com os bichos, afinal era tudo “fi de Deus”, como ele dizia. A mulher dele estava lá, ouvindo o radinho de pilha, acompanhando o conclave que iria eleger o novo papa.

sexta-feira, 8 de março de 2013

AS CORRENTES DA PAIXÃO



Quinquinha era uma pretinha alforriada e já contava com seus dez anos de idade. Tinha o cabelo pixaim, as pernas finas, os olhos e o bucho grande. Ela parecia mais com um boi de melão-caetano, dois palitos enfiados num sabugo, dois cambitos segurando um caçuá. E não era bonita, não, a pobrezinha! A pretinha ainda era feinha que dava dó. Era mais feia do que indigestão de torresmo. Cresceu ali mesmo na casa grande e desde pequena já ajudava na lida da cozinha. Mesmo alforriada pela Lei do Ventre Livre, aprendeu cedo o que era o trabalho escravo na fazenda. Mas era feliz. O patrão, dono da fazenda, apesar de ter muitos escravos, era um homem de ideais abolicionistas e não se presenciava ali o maltrato com os pretos, como ela ouvia falar. Mas não era bem assim.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

DONA GORDA


“Aquele que conheceu apenas a sua mulher, e a amou, sabe mais de mulheres do que aquele que conheceu mil”. (Leon Tolstoi) 


Dona Gorda tinha uma quitanda na feira-livre. Todo sábado, bem cedinho, mal o sol nascia, ela vinha toda faceira, cheirosa, rechonchuda, sorridente, abarrotada de mercadorias. 

- Fruta, verdura, legume! Êita melancia bonita! – apregoava. 

Tinha a voz forte, bonita. Não tinha quem não ouvisse Dona Gorda oferecendo a mercadoria. Também não tinha ninguém que não gostasse dela. Todo mundo falava bem dela. Ajudava a todos na feira. Sua simpatia contagiava a todos. Comentava futebol, novela, política, contava piada e sorria o tempo todo, sempre jovial com o sorriso franco e acolhedor, de bem com a vida.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O CASTELO



Tinha chovido a noite toda. Deu até pra ouvir o ribombar dos trovões. O clarão dos relâmpagos alumiava até o alto da serra da Guaramiranga, estremecendo o chão, que dava até medo.

Logo pela manhã, bem cedinho, Zé já estava de pé, respirando com satisfação o cheiro da terra molhada e a vista descansava só em olhar para o verde da mata. Nuvens carregadas coroavam o cume da serra e as formigas de asa saltitavam aqui e ali, fazendo a alegria das galinhas e dos capotes no terreiro. Mariazinha, a mulher de Zé que estava barriguda, já estava ali no fogão à lenha fazendo o café e as tapiocas de coco. O cheiro gostoso invadia a casa toda.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

AS ESTRADAS DO SERTÃO


Vaqueiro, caixeiro viajante ou andarilho, por mais valente que seja, sabe que não se deve andar sozinho pelas estradas no meio do sertão. De jeito maneira! Principalmente quando escurece. Ou quando as noites ficam brancas de dar medo, com aquela lua cheia lá no alto, ora se escondendo por detrás da serra, ora alumiando as estradas desertas e sinuosas. O chão fica todo prateado até onde a vista alcançar. Tudo fica em silêncio e não se ouve nem o canto penoso da acauã agourando, chamando a seca pro sertão. Tudo adormece.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A VEZ QUE CHOVEU BOSTA NAS MUTAMBEIRAS


O pio da coruja rasga-mortalha atravessou a madrugada, bem em riba do telhado, rasgando seda, arrupiando até os cabelos do cu do seu Nicanô!

- Caralho! Essa passou perto. Te esconjuro, fi do cão! Vai pra puta que pariu! – bradou, se benzendo repetidamente, se agarrando com as estátuas dos santos, se enrolando com o rosário, com o pescoço cheio de escapulários benzidos pelo padre Arnópio, no dia em que ele foi assistir a missa da padroeira, justo quando sentiu umas dores no peito do lado do coração e umas dormências e uns tremeliques no braço, uns puxavancos nos lombos, entortando os beiços, chega a merda desceu pelas pernas.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

UM HOMEM PROBO


O doutor juiz é um homem probo, irrepreensível. Nasceu aqui mesmo. Não gostava desse negócio de trabalhar na lavoura, não. Estudou, estudou, estudou e, a contra gosto, por insistência dele, o pai lhe mandou terminar os estudos lá em São Paulo. Formou-se em Direito com louvor e fez concurso para juiz. E não quis morar por lá não, pelo contrário, quis vir aqui para o sertão de onde saiu. Um homem justo e bom.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

HISTÓRIAS DO SERTÃO - A mulher de branco e a botija encantada




- Lá pras bandas do açude tem visage! Ora se tem! Eu mermo já vi com eche zói que a terra há de cumê!

Era assim que o seu Alfredo começava a contar uma de suas histórias. Aí o povo se acomodava em riba das sacas de farinha pra ouvir relatos de aparições, almas penadas e botijas. Cabras como João Caboco, acostumado na lida com o gado, pegador de boi brabo, até onça já enfrentou, ficava assim com os olhos arregalados.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

HISTÓRIAS DO SERTÃO: O Cachorro da mulésta ou o Dia em que o Cão visitou o Catolé

Cidadezinha do interior é tudo parecida. Tem a Igreja Matriz, a pracinha, o prefeito, o padre, o delegado e o coronel. E Catolé não era diferente, não senhor! Mas tinha lá um coronel muito rico, dono de quase todas as terras da região, cabra metido a valente e impiedoso, dado a maltratar os bichos e os empregados que eram tratados como escravos. Era até mandante de pistoleiro. Gabava-se de já ter mandado muita gente pros quintos dos infernos.

E tudo o que acontece ou deixa de acontecer é sabido por todos, comentado nas bodegas, nos botequins, na feira, na barbearia, na missa e principalmente na farmácia, que é lugar onde se fala da vida alheia.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Dona Chiquinha da tapioca

Mulher com Cesto na Cabeça (Newton Rezende, 1959)



Óia a tapioca! Ô lapa de tapioca! É mais branquinha do que as fia do coroné!

Esse era o grito da dona Chiquinha da Tapioca, invariavelmente, sempre às cinco horas da manhã. Pouca gente lá no sertão do Quixadá ainda se lembra dela e de suas saborosas e cheirosas tapiocas de coco.

- É de hoje, dona Chiquinha? – perguntava um gaiato.

- Ôxente! Tu tá ficando doido? Onde já se viu tapioca de ontonte prestar pra alguma coisa? – exasperava-se – fiz agorinha lá em casa. Quem quer, quer. Quem num quer, tem quem quer! – saía faceira, trombuda, ofendida.

O MILAGRE

Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo...