sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

HISTÓRIAS DO SERTÃO: O Cachorro da mulésta ou o Dia em que o Cão visitou o Catolé

Cidadezinha do interior é tudo parecida. Tem a Igreja Matriz, a pracinha, o prefeito, o padre, o delegado e o coronel. E Catolé não era diferente, não senhor! Mas tinha lá um coronel muito rico, dono de quase todas as terras da região, cabra metido a valente e impiedoso, dado a maltratar os bichos e os empregados que eram tratados como escravos. Era até mandante de pistoleiro. Gabava-se de já ter mandado muita gente pros quintos dos infernos.

E tudo o que acontece ou deixa de acontecer é sabido por todos, comentado nas bodegas, nos botequins, na feira, na barbearia, na missa e principalmente na farmácia, que é lugar onde se fala da vida alheia.


- O novo doutor tá chegando hoje no trem das cinco. – disse o boticário pra dona Firmina, mulher do seu João Preto, dono da única bodega da cidade.

- E eu já num sei? Ôxente! Já escutei dizer lá na feira que o caba é bonito que só a peste e bem novim! E a muierada já tá toda assanhada! Quem num tá gostando nadinha é o coroné. Tá doidim lá na fazenda, mais nervoso do que gato em dia de faxina. Andano pra lá e pra cá num pé e nôto! Eu soube que ele queria era o filho dele pra ser o dotô daqui do Catolé, mas o minino num quer saber de estudá. Tá lá nas europas gastando a herança do véi! – cochichou a dona Firmina pro boticário que soltou um sonoro “Êita diacho!”.

Às cinco horas em ponto o trem trouxe o novo médico. Todo de branco, com a maleta na mão, franzino e delicado. Foi a maior algazarra. Parecia até dia de comício. O prefeito fez um discurso de boas vindas, o padre rezou uma missa e o doutorzinho já começou, logo no primeiro dia, sendo chamado pra fazer um atendimento lá no meio dos matos. Subiu no lombo dum jumento e quando ia passando perto da farmácia ouviu um alerta do boticário:

- Bom dia, doutor! Num vá pela estrada não, pois o coronel soltou o cachorro e ninguém passa por lá numa hora dessas, não senhor! O bicho é brabo que só o diabo! Já mordeu uma penca de gente por aqui. O senhor vai ter que arrodear lá pras bandas do açude.

- Eu tenho lá medo de cachorro! – disse o doutor confiante. – Nem de coronel! – completou em tom ameaçador.

No dia seguinte a notícia já corria de boca em boca. O cachorro do coronel amanheceu morto, enfiado numa estaca, com as tripas de fora e com os olhos arrancados. Era só no que se falava no Catolé. E o boticário já tinha espalhado pra tudo quanto era canto da cidade o que o doutorzinho tinha falado no dia anterior.

Ninguém teve a coragem de perguntar se o doutor tinha feito aquilo com o infeliz do animal. O fato é que ninguém descobrira quem tinha massacrado o bicho daquela maneira tão violenta e a história esfriou e caiu no esquecimento. Menos pro coronel que mandou espalhar que já sabia quem era o matador do cachorro e que a história não iria ficar sem resposta. A vingança seria tal e qual.

Passados uns dias, o coronel enviou um convite amistoso para o doutorzinho. Um convite para um jantar na fazenda. O doutor aceitou com muito gosto, apesar das advertências do povo.

- O senhor num é doido de ir! O coronel é cabra perigoso! E ele pensa que foi o senhor doutor que matou o cachorro dele. – disse o boticário com as mãos postas. – O doutorzinho limitou-se a sorrir e disse que não se preocupasse, pois tudo ficaria esclarecido no seu devido tempo.

Naquela noite o coronel recebeu o convidado em sua fazenda e logo lhe ofereceu uma garrafa da melhor cachaça do seu engenho. Conversaram amistosamente durante algum tempo até que chegou a hora do jantar que transcorreu normalmente. (O que o doutor não sabia é que o coronel tinha mandado cozinhar o cachorro morto em água envenenada com folhas de angico-preto para servir de jantar pra ele).

No dia seguinte o doutor partiu no primeiro trem, logo pela manhã. Ninguém entendeu o porquê daquela repentina mudança de planos. Dizem que o prefeito e o padre imploraram para que ele ficasse em Catolé, mas não teve jeito.

No mesmo dia, lá pra três horas da tarde, encontraram o corpo do coronel transpassado por uma estaca, com as tripas de fora e com os olhos arrancados. Assim como, do mesmo jeito, os corpos dos capangas do coronel e mais dois cachorros. A viúva do coronel, dona Gertrudes, em estado de choque, foi poupada não se sabe a razão. Apenas balbuciava que tinha sido coisa do Demo. Era coisa do Capeta, do cachorro da mulésta. O pavor tomou conta da cidade e por muito tempo, mal anoitecia, o povo se trancava nas casas com medo. Desde esse dia então, o fato ficou conhecido como “O dia em que o Cão visitou o Catolé”.

E não se falou mais nisso até os dias de hoje

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