quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

DONA GORDA


“Aquele que conheceu apenas a sua mulher, e a amou, sabe mais de mulheres do que aquele que conheceu mil”. (Leon Tolstoi) 


Dona Gorda tinha uma quitanda na feira-livre. Todo sábado, bem cedinho, mal o sol nascia, ela vinha toda faceira, cheirosa, rechonchuda, sorridente, abarrotada de mercadorias. 

- Fruta, verdura, legume! Êita melancia bonita! – apregoava. 

Tinha a voz forte, bonita. Não tinha quem não ouvisse Dona Gorda oferecendo a mercadoria. Também não tinha ninguém que não gostasse dela. Todo mundo falava bem dela. Ajudava a todos na feira. Sua simpatia contagiava a todos. Comentava futebol, novela, política, contava piada e sorria o tempo todo, sempre jovial com o sorriso franco e acolhedor, de bem com a vida.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O CASTELO



Tinha chovido a noite toda. Deu até pra ouvir o ribombar dos trovões. O clarão dos relâmpagos alumiava até o alto da serra da Guaramiranga, estremecendo o chão, que dava até medo.

Logo pela manhã, bem cedinho, Zé já estava de pé, respirando com satisfação o cheiro da terra molhada e a vista descansava só em olhar para o verde da mata. Nuvens carregadas coroavam o cume da serra e as formigas de asa saltitavam aqui e ali, fazendo a alegria das galinhas e dos capotes no terreiro. Mariazinha, a mulher de Zé que estava barriguda, já estava ali no fogão à lenha fazendo o café e as tapiocas de coco. O cheiro gostoso invadia a casa toda.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

AS ESTRADAS DO SERTÃO


Vaqueiro, caixeiro viajante ou andarilho, por mais valente que seja, sabe que não se deve andar sozinho pelas estradas no meio do sertão. De jeito maneira! Principalmente quando escurece. Ou quando as noites ficam brancas de dar medo, com aquela lua cheia lá no alto, ora se escondendo por detrás da serra, ora alumiando as estradas desertas e sinuosas. O chão fica todo prateado até onde a vista alcançar. Tudo fica em silêncio e não se ouve nem o canto penoso da acauã agourando, chamando a seca pro sertão. Tudo adormece.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A VEZ QUE CHOVEU BOSTA NAS MUTAMBEIRAS


O pio da coruja rasga-mortalha atravessou a madrugada, bem em riba do telhado, rasgando seda, arrupiando até os cabelos do cu do seu Nicanô!

- Caralho! Essa passou perto. Te esconjuro, fi do cão! Vai pra puta que pariu! – bradou, se benzendo repetidamente, se agarrando com as estátuas dos santos, se enrolando com o rosário, com o pescoço cheio de escapulários benzidos pelo padre Arnópio, no dia em que ele foi assistir a missa da padroeira, justo quando sentiu umas dores no peito do lado do coração e umas dormências e uns tremeliques no braço, uns puxavancos nos lombos, entortando os beiços, chega a merda desceu pelas pernas.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

UM HOMEM PROBO


O doutor juiz é um homem probo, irrepreensível. Nasceu aqui mesmo. Não gostava desse negócio de trabalhar na lavoura, não. Estudou, estudou, estudou e, a contra gosto, por insistência dele, o pai lhe mandou terminar os estudos lá em São Paulo. Formou-se em Direito com louvor e fez concurso para juiz. E não quis morar por lá não, pelo contrário, quis vir aqui para o sertão de onde saiu. Um homem justo e bom.

O CANHÃO DO EMÍLIO SÁ CONTRA A JAGUNÇADA DO PADRE CÍCERO

Vendo passar o padre, com o pesado bordão com que costumava andar, seguido de um bando de fanáticos, disse: “Ali vai um missionário;...