sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A VEZ QUE CHOVEU BOSTA NAS MUTAMBEIRAS


O pio da coruja rasga-mortalha atravessou a madrugada, bem em riba do telhado, rasgando seda, arrupiando até os cabelos do cu do seu Nicanô!

- Caralho! Essa passou perto. Te esconjuro, fi do cão! Vai pra puta que pariu! – bradou, se benzendo repetidamente, se agarrando com as estátuas dos santos, se enrolando com o rosário, com o pescoço cheio de escapulários benzidos pelo padre Arnópio, no dia em que ele foi assistir a missa da padroeira, justo quando sentiu umas dores no peito do lado do coração e umas dormências e uns tremeliques no braço, uns puxavancos nos lombos, entortando os beiços, chega a merda desceu pelas pernas.


- Essa demorô foi muito! Já é a terceira vez que echa bicha passa por aqui! Tá adivinhando a morte dum cristão! Cruz credo! – Emendou dona Mundinha, fazendo o café no fogão à lenha, abanando o fogo, se benzendo, beijando a foto do papa João Paulo Segundo, que botava assim, em riba da penteadeira, entre duas velas.

- Muié, será que vou morrer? Naquele dia senti aquela dor no mucumbuco que me caguei todim, tu se alembra? Inté o dotô diche que era pru mode eu me aquetá, num beber mais aquela zinebra lá do cumpade mestre Zé, lá nas mutambeiras!

- Larga de ser frôxo, home de deus! Caba medroso! Se tiver que morrer, morre de qualquer jeito, pois pra deus num tem eche negóço, não! Se tu num morreu daquele troço daquele dia é puisquê deus num quis e pronto! Eu fiz inté uma promessa pra padroeira pru mode tu ficar bom.

- E que diacho essa coruja quer rasgando seda em riba da casa? Que tá adivinhando, isso tá! Morro de medo de rasga-mortalha! – se encolheu num canto acendendo mais uma vela nos pés da imagem da padroeira.

Aí a rasga-mortalha piou de novo, e de novo, e de novo. O chilro entrou de casa adentro no mesmo momento em que uma ventania escancarou a porta, ocupando os quartos, varrendo tudo o que via pela frente, estufando as cortinas, atrás das portas, dentro do pote, balançando as panelas, derrubando os caçuás, apagando as velas e as lamparinas.

Foi o maior alvoroço. Pense num desassossego da peste! Ouviu-se uns peidos e o cheiro de bosta invadiu a casa, misturando com o odor de vela queimada e do querosene que derramou das lamparinas. Só se ouvia os gritos mal-assombrados do seu Nicanô, chamando pela dona Mundinha e bradando os nomes de todos os santos, rogando pela vida miserável, pedindo perdão pelos malfeitos. “Eu vou morrêêêêêêêêêê”! Era o grito do seu Nicanô que ecoou pelo meio do mato, rodopiando pelas coivaras, pelas caatingas, pelo meio das águas do rio Acaraú.

A fedentina era tão insuportável que, no meio da confusão e no escuro, sem ver um palmo diante do nariz, dona Mundinha pensou que a fossa tivesse estourado.

- Valha minossasinhora! Cruz credo! – gritou dona Mundinha tateando atrás de uma vela e da caixa de fósforos. – Já tô é sufocada com eche cheiro de bosta!

- Ô Nicanôôôô! Cadê o diacho deche hôme que some numa hora dessa? Ô caba medroso duma figa! Acode hôme de deus! A rasga-mortalha já foi simbora!

E nada do Nicanô responder. Foi quando a atribulada madrugada passou e logo de manhãzinha, dona Mundinha deu-se conta do estrago. Tava tudo de cabeça pra baixo. As panelas jogadas no terreiro no meio das galinhas, os tamboretes em riba do fogão e os caçuás espalhados pra todo lado. Tinha merda pra tudo quanto era canto. Até a foto do papa João Paulo Segundo tava boiando numa poça de merda. A merda amarela descia das paredes, se espalhava pelo chão, fazendo poça, pingando das telhas, nas folhas das bananeiras e nas palhas dos coqueiros e o seu Nicanô escondido debaixo das cangalhas, no paiol, se tremendo de medo, todo cagado.

Lá fora, o povo curioso, já se amontoava pra ver o destroço. Tinha gente de todo canto das Mutambeiras mangando da putaria. Ninguém sabia o que tinha acontecido.

- Êita, catinga da peste! A fossa estourou, foi? – perguntavam uns.

- Ouvi dizer que foi uma chuva de bosta! – comentavam outros.

- O pessoal diche que foi o Cramulhão que passou aqui de madrugada vindo lá das bandas da Amontada fugindo da igreja dos crente!

Mas a dona Mundinha sabia. Morta de vergonha, ela num ia era dizer pra ninguém. O ruim mesmo era ter que limpar aquela merda toda espalhada pela casa e pelo terreiro que parecia que num tinha mais fim. Ela só num entendia uma coisa: como foi que o diacho do Nicanô conseguiu cagar rodando.


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