quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

DONA GORDA


“Aquele que conheceu apenas a sua mulher, e a amou, sabe mais de mulheres do que aquele que conheceu mil”. (Leon Tolstoi) 


Dona Gorda tinha uma quitanda na feira-livre. Todo sábado, bem cedinho, mal o sol nascia, ela vinha toda faceira, cheirosa, rechonchuda, sorridente, abarrotada de mercadorias. 

- Fruta, verdura, legume! Êita melancia bonita! – apregoava. 

Tinha a voz forte, bonita. Não tinha quem não ouvisse Dona Gorda oferecendo a mercadoria. Também não tinha ninguém que não gostasse dela. Todo mundo falava bem dela. Ajudava a todos na feira. Sua simpatia contagiava a todos. Comentava futebol, novela, política, contava piada e sorria o tempo todo, sempre jovial com o sorriso franco e acolhedor, de bem com a vida.

É mais fácil obter o que se deseja com um sorriso do que à ponta da espada.”, disse uma vez Shakespeare. 

Dona Gorda contava já com seus quarenta e poucos anos. E quem disse que aparentava essa idade? Gordinha desde quando era menina pequena, nunca se deixou levar por essas modernidades, essas leviandades, esse negócio de fazer dieta, esse negócio de que mulher tem que ser magra pra ser bonita. Vaidade não tinha não. Só se arrumava e se perfumava pro marido. 

Era casada com o seu Chiquinho da Barbearia e com ele vivia muito bem, sem nunca ninguém ouvir nenhuma queixa dela. Sempre foi um bom marido e ela sempre era muito dedicada a ele. 

- O meu Chiquim me acha bonita do jeito que eu sou assim mesmo, gordinha. – comentava orgulhosa, sorridente e cheirosa como uma manga rosa. 

Ah, mas tinha uma coisa, só pra não ser tudo perfeito. O povo diz que de vez em quando o Diabo, invejoso do jeito que é, sempre bota o rabo no meio dos assuntos dos outros. E foi assim que se deu: o seu Chiquinho da Barbearia não era coisa nenhuma esse marido perfeito, como a Dona Gorda pensava que era. Não é que o cabra safado era frequentador assíduo na Pensão da Dona Fulô? Raparigueiro e mulherengo que só a peste, tinha até filhos com outras mulheres por aí. Bebia e se gabava no bar do seu Antônio: 

- Hoje vô lá na Pensão da Fulô. Chegaram umas meninas novinhas, lá. Tem até uma japonesinha que eu tô doido pra abufelar! Diz que é até virgem! Hoje tô com o cobre, tô estribado, doido pra gastar! – disse tomando um gole de cachaça e fazendo uma careta. 

- Um hôme num deve faltar com o respeito com a esposa, seu Chiquim! O sinhô é casado na Lei da Igreja. A Dona Gorda merece respeito e muito. O que Deus ajunta ninguém separa e o que Deus separa num se ajunta mais! 

- Ôxente, Chico Gato! E quem foi que pediu tua opinião? Vá pra baixa da égua, vá! Quem sabe da minha vida sou eu! Ora, mas num tô dizendo mermo! 

Chico Gato era um vaqueiro grande, vinte e poucos anos, alourado, corado de sol da lida com o gado. Tinha assim uns olhos amarelados, igualzinho a olho de gato e por isso o apelido. 

- Tô só lhe avisando, seu Chiquim. Respeite sua muié que ela é uma pessoa muito distinta e o sinhô tá enganando ela. Cuidado que inda é tempo! 

O seu Chiquinho da Barbearia se levantou de uma vez e partiu pra cima do Chico Gato, pronto pra briga. O vaqueiro se afastou, olhou em volta assim com os olhos amarelos, tomou um gole de cachaça, deu uma cusparada e saiu já montando no cavalo. O pessoal segurou o seu Chiquinho, que exasperado, bufava de raiva como um touro brabo. Mas o pessoal do bar sabia que o vaqueiro grandalhão tinha razão. Dona Gorda não merecia ser enganada. Ela era uma boa pessoa. Todos gostavam dela. Mas o seu Chiquinho não estava nem aí pra opinião do povo. Passou a tarde toda na Pensão da Dona Fulô bebendo e gastando dinheiro na companhia das fuampas. 

No sábado seguinte, dia de feira-livre, ninguém viu Dona Gorda abrir a quitanda. Ninguém ouviu a voz dela. A feira ficou em silêncio. Todo mundo sentiu falta daquele jeito sorridente, toda rechonchuda, faceira, apregoando suas frutas e verduras, cheirosa como uma manga rosa. 

- Dona Gorda tá doente? Não vem hoje? – se perguntavam uns aos outros, tristes, desapontados. – Ninguém sabia porque diachos Dona Gorda não tinha vindo naquele sábado, como fazia há mais de trinta anos. A feira não seria mais a mesma sem aquela voz forte, sem as gargalhadas gostosas que só ela sabia dar. A feira nunca mais seria a mesma sem a Dona Gorda. 

Quando deu meio-dia a notícia já tinha se espalhado por toda a cidade. Alguém contou pra ela o que o seu Chiquinho da Barbearia andava fazendo às escondidas. Contaram tudo mesmo, tintim por tintim e ela foi até a Pensão da Dona Fulô saber se era verdade e pegou justamente o cabra safado no quarto com uma rapariga. Uma não! Eram três raparigas de uma vez só com ele na cama, nus e bêbados como gambás. Ela saiu de lá em silêncio assustador. O seu Chiquinho da Barbearia, quando se deu conta da merda que tinha feito, já era tarde. Quando chegou em casa só encontrou tudo revirado. Dona Gorda já tinha feito as malas e ido embora. 

No bar do seu Antônio era a conversa do momento. Todo mundo dava uma opinião. Pra cada um tinha uma versão diferente do acontecido. 

- Diz que ela foi simbora com aquele vaqueiro grandalhão, dos zói amarelo, o Chico Gato. O seu Chiquim tá lá na barbearia, todo liquidado, chorando pela Dona Gorda, que nem um bezerro desmamado. Agora num tem mais jeito! Nem mel nem cabaça! 

É a mais pura verdade: O que Deus ajunta ninguém separa e o que Deus separa não se ajunta mais. 

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