sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

UM HOMEM PROBO


O doutor juiz é um homem probo, irrepreensível. Nasceu aqui mesmo. Não gostava desse negócio de trabalhar na lavoura, não. Estudou, estudou, estudou e, a contra gosto, por insistência dele, o pai lhe mandou terminar os estudos lá em São Paulo. Formou-se em Direito com louvor e fez concurso para juiz. E não quis morar por lá não, pelo contrário, quis vir aqui para o sertão de onde saiu. Um homem justo e bom.


O doutor juiz, já com seus mais de 60 anos, era avesso aos modismos da modernidade. Bem casado porém sem filhos, ia à missa todos os domingos, chovesse ou fizesse sol. Na hora das ofertas fazia questão que o vissem colocar notas de cem reais, novinhas, na cesta do ofertório. Rezava todo o ofício. Fazia parte do terço dos homens e era uma questão inconteste que o pároco lhe acompanhasse para o lauto almoço dominical em sua fazenda. E aquela paróquia era uma das mais prósperas da região, tendo já recebido elogios da Arquidiocese e o próprio bispo prometeu um dia visitar a cidade para conhecer o doutor juiz, um bem-feitor para a obra de evangelização. Um homem de Deus.

Foi assim que um dia desses chegou da capital, a pedido dele próprio, um novo juiz para auxiliá-lo na lida com a papelada do fórum, pois a demanda já vinha se acumulando por anos a fio e além do mais, já não via a hora de se aposentar. Omnis labor optat praemium.

O que ele não sabia é que novo juiz não passava de um garoto recém-concursado. O juiz assim que o viu, decepcionou-se terrivelmente. Como podem mandar um fedelho? Mesmo assim o recebeu cordialmente e lhe acomodou em uma sala no fórum, abarrotada até o teto de papelada, enchendo-lhe de tarefas inúteis. O novo juiz não se importou nem um pouco. Pelo contrário! Frequentava os bares, as festas, fez amizades com os jovens da cidade, andava a cavalo pra cima e pra baixo, era convidado para piqueniques e até o padre passava horas com ele a conversar sobre filosofia, religiões, bulas pontifícias, sobre a vida e sobre a morte. Bonus pastor animam suam dat pro ovibus suis.

O doutor juiz ficou visivelmente enciumado e aborrecido com a desenvoltura do garoto. Como pode um magistrado se portar daquela maneira?

“Causa-me espécie o comportamento desse rapaz” – disse uma vez – e pôs-se a dificultar a vida do jovem juiz impondo-lhe incumbências absurdas, fazendo-o trabalhar até altas horas da noite, subtraindo-lhe os sábados, domingos e feriados.

Porém, para sua desgraça, o jovem togado parecia não fazer caso e cumpria à risca os absurdos sem contestação e sempre arrumava tempo para sair com os amigos, para ir aos bares, convescotes, festas e não faltava às discussões eruditas com o pároco, sob as sombras vespertinas dos oitizeiros nos jardins da casa paroquial, ao som mavioso dos cantos gregorianos. Lucrum unibus est alterius damnum.

Deu-se então que o doutor juiz transformou-se da noite para o dia. Não mais ia à missa, parou de frequentar o terço dos homens e o lauto almoço dominical com o pároco não mais aconteceu. Sequer ia ao trabalho no fórum, como fazia por mais de trinta anos de magistrado. Tempus belli et tempus pacis.

Deu-se ainda que a cidade um dia, amanheceu estarrecida com o que se sucedeu, pois é certo que “nada há encoberto que não haja de ser descoberto; nem oculto, que não haja de ser sabido. Porquanto tudo o que em trevas dissestes, à luz será ouvido; e o que falastes ao ouvido no gabinete, sobre os telhados será apregoado”.

Ora, o bispo tinha chegado de surpresa para visitar a paróquia. Toda a comitiva eclesiástica, as irmãs reclusas do convento, as crianças do coral da igreja, o prefeito, a primeira-dama e demais autoridades dirigiram-se para a casa paroquial onde certamente encontrariam o pároco. E deveras o encontraram. Com ele também o doutor juiz e o novo magistrado.

A cena era esta: os três estavam nus e embriagados sobre a pia batismal, entre garrafas de cerveja, revistas pornográficas e brinquedos sexuais. O doutor juiz, em desavergonhado e frenético ato de felação, com a boca entre as pernas do pároco, enquanto que o novo magistrado lhe sodomizava impetuosamente ao mesmo tempo em que beijava o pároco na boca, num delírio greco-romano de amantes apaixonados, sem se darem conta dos circunstantes.

O diabo pode citar as Escrituras quando isso lhe convém. Unus duntaxat non preliatur.

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