quinta-feira, 28 de março de 2013

NÃO-ME-DEIXES


Duas velhinhas, Dora e Dorinha, todo dia, bem de tardezinha, ficavam ali em suas cadeiras de balanço, sentadinhas numa sombreada calçada lá em Quixadá. Proseando, tricotando e vendo a vida passar.

Contavam histórias dos discos voadores que assombrava o povo, de uma menina chamada Mariana que corria de noite pelas ruas de Quixadá e subia na parte mais íngreme da Pedra do Cruzeiro e que pouca gente viu e outras histórias mais que sabiam de cor e salteado e por assim dizer.

quinta-feira, 21 de março de 2013

MÃE


Debaixo de um viaduto, no meio de entulhos de construção e sacos de lixo, dividindo com ratos e baratas o tosco casebre feito com caixas velhas de papelão e restos de madeira, abandonado à própria sorte, encontrava-se um homem tremendo de frio e de fome. Estava miseravelmente imundo e doente. Quem o examinasse veria em uma de suas pernas um inchaço que o impedia de levantar, oriundo de algum ferimento mal curado, má circulação ou doença renal crônica, cujo estado inflamatório fora agravado talvez pelas péssimas condições de higiene em que ele se encontrava. Enrolado em jornais, jogado sobre um colchão velho manchado de urina e fezes, febril, delirava, sufocado pelo odor nauseabundo que exalava dele mesmo. Quem passasse por ali, caso tivesse o interesse ou a curiosidade de saber as condições daquele pobre homem, é possível que escutasse suas preces fervorosas, mescladas de arrependimento, vergonha, perdão e palavras desconexas sobre uma imensa riqueza que tivera um dia, há muito tempo, quando era jovem e que perdera tudo quando se entregou ao mundo abominável de prazeres carnais e vícios descomunais.

sexta-feira, 15 de março de 2013

PAPA JOSÉ


Sentado na varanda, o velho sertanejo olhou para o curral e viu o pé de ipê todo amarelo, bonito, parado na paisagem seca. Não tinha um pé de vento. Sentiu só o mormaço vindo das coivaras e das capoeiras. Uma tristeza medonha lhe invadiu o coração, também seco, sem esperança. Bebeu um gole da água morna e barrenta, a mesma água que ele dividia com os bichos, afinal era tudo “fi de Deus”, como ele dizia. A mulher dele estava lá, ouvindo o radinho de pilha, acompanhando o conclave que iria eleger o novo papa.

sexta-feira, 8 de março de 2013

AS CORRENTES DA PAIXÃO



Quinquinha era uma pretinha alforriada e já contava com seus dez anos de idade. Tinha o cabelo pixaim, as pernas finas, os olhos e o bucho grande. Ela parecia mais com um boi de melão-caetano, dois palitos enfiados num sabugo, dois cambitos segurando um caçuá. E não era bonita, não, a pobrezinha! A pretinha ainda era feinha que dava dó. Era mais feia do que indigestão de torresmo. Cresceu ali mesmo na casa grande e desde pequena já ajudava na lida da cozinha. Mesmo alforriada pela Lei do Ventre Livre, aprendeu cedo o que era o trabalho escravo na fazenda. Mas era feliz. O patrão, dono da fazenda, apesar de ter muitos escravos, era um homem de ideais abolicionistas e não se presenciava ali o maltrato com os pretos, como ela ouvia falar. Mas não era bem assim.

ATRAVÉS DA JANELA

​ Como fazia todos os sábados, lá pelas onze horas, onze e meia, o velho advogado chegava ao bar e sentava numa mesa - quase cativ...