quinta-feira, 4 de abril de 2013

A FILHA DO CORONEL



O vaqueiro Severino estava apaixonado pela filha do coronel Zé Carneiro. O boato já corria por tudo quanto era canto. Pelo menos era isso o que o pessoal pensava. No bar de dona Rosinha, era só no que se falava.


- O Severino tá é de juízo mole. Se apaixonar logo por quem? Pela filha do coroné seu Zé Carneiro! 



- O fi duma égua só anda agora todo perfumado, escrevendo versos de amor. 

- Se o coroné sabe duma arrumação dessas vai é capar ele! Ora, se vai! 

- E por falar no diabo... 

O vaqueiro Severino entrou no bar. Só se ouvia o povo cochichando. Ele fez de conta que não era com ele e acenou pro pessoal, sorridente, todo perfumado. O cheiro enjoado de leite de rosas misturado com a inhaca da lida com o gado invadiu o recinto, fazendo até cachorro espirrar. 

- Dona Rosinha bote uma aí, que hoje eu vô me abufelar com a fia do coroné seu Zé Carneiro! – Dona Rosinha num gostou nem um pouco e olhou pra ele assim meio atravessado e foi logo desembuchando: 

- Tome tento, hôme de Deus! Cê sabe o que povo da fofocando aí, num sabe? Que vosmicê tá arrastando a asa pra fia do coroné seu Zé Carneiro! Hôme, num se meta com isso não! A fia do coroné seu Zé Carneiro num é pru seu bico, não! Ela é minina fina. É muita areia pro seu caminhão! 

- O coroné num vai deixar a fia dele se misturar com vaqueiro fedendo a bosta de vaca que nem nóis! – completou um outro vaqueiro que tava ali perto. 

O vaqueiro apaixonado nem ligou para os conselhos e saiu todo faceiro, decidido. Não dava a mínima para o que o povo dizia, nem escondia de ninguém que estava apaixonado e apesar das mangofas, ainda dizia que era correspondido. 

Dias depois, o coronel Zé Carneiro pegou o vaqueiro Severino de madrugada fazendo amor com a novilha premiada que ele tinha mandado buscar lá em São Paulo. 

O povo dizia que o sem-vergonha tava todo nu, lambuzado, beijando a vaca na boca apaixonadamente. Parecia um beijo de novela. A baba pegajosa do ruminante escorria pelos cantos da boca do infeliz. 

Só bastou isso pro coronel Zé Carneiro aplicar violenta surra de relho no cabra safado, jurando capar o desgraçado. Se escondendo por trás da vaca que pastava impassível à cena tragicômica, o tarado implorava misericórdia ao colérico coronel que bramia trêmulo o chiqueirador em uma das mãos. 

- Ocê pode inté se abufelar com a minha novilha premiada, seu disgramado! Agora espalhar pra todo mundo na cidade que minha filha é uma vaca, eu não deixo por menos! 

E mais uma vez a chibata estalou nas costas do vaqueiro apaixonado, espirrando sangue e merda, pois o infeliz se cagava a cada golpe do coronel. Dizem que a coça varou a madrugada e no raiar do sol, ainda dava para ouvir os berros do miserável a léguas de distância. 

A vaca ruminando, impassível, olhava a cena sem entender patavina.

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