quinta-feira, 25 de abril de 2013

CAVILAÇÃO


O doutor, mestre em leis, erudito e profundo conhecedor de toda a hermenêutica do Direito Romano, da jurisprudência vigente e intérprete da Lex Duodecim Tabularum, sentou-se ofegante na poltrona, de frente para aquele homem esquisito, de tez amarelada, que exalava um odor adocicado como amêndoas em calda e tetracloreto de carbono.

Esse estranho homem, mal entrou na sala, o ar ficou seco, pesado, soturno e sentiu-se uma angustiante sensação incômoda. Trouxera-lhe logo pela manhã um documento onde estavam graves denúncias. Acusava um homem de planejar revoltas e desobediência civil de tal porte, que poderia abalar toda a ordem ideológica, econômica e política do país.

Leu a primeira página de um monte de papeis encadernados que aquele homem lhe trouxera. A vista ficou-lhe turva. Ele não estava acreditando em nada daquilo. Não podia ser!

O homem amarelo, de olhos amarelos, dentes amarelos, de hálito cetônico, que estava sentado tranquilamente à sua frente, o olhou serenamente como um Buda.

- Isso é uma cavilação! – bradou o Erudito doutor. - O que significa isso? Santo Deus! Isso é um escárnio! Que queres de mim? Que eu acredite nessa trama execrável? Saiba que pelo Código de Ética e Disciplina do Duodecim Tabulae, capítulo dois, artigo oitavo, diz que devo informá-lo de forma clara e inequívoca, quanto a eventuais riscos da sua pretensão, e das consequências que poderão advir de tal demanda. Mas isso é uma ignomínia!

- O senhor leu a segunda página? Faça a gentileza, leia a segunda página e vai entender melhor. – disse calmamente o homem amarelo exalando o odor inebriante do Cestrum nocturnum.

- Foi o senhor mesmo quem escreveu isso? Que mente doentia teria escrito tal coisa? Sou legisperito há mais de trinta anos e nunca, nunca vi coisa tão nauseabunda e distorcida da realidade! Penso que esse homem que acusa deve ser inocente.

- Por isso o procurei antes de tomar qualquer atitude. – disse o homem amarelo com uma voz disfônica e quase inaudível – soube que o senhor é o melhor doutor em leis e o mais experiente. Leia a segunda página e irá entender melhor. Terei paciência e não o interromperei. É preciso que o senhor leia com calma e com serenidade. Depois posso explicar-lhe os pormenores.

O doutor legista sentiu-se lisonjeado e voltou-se para o cartapácio. Em silêncio leu e releu a segunda página e empalideceu visivelmente. Limpou freneticamente os óculos várias vezes, como se quisesse ter certeza do que estava lendo. O homem amarelo, de odor adocicado, o observava em silêncio.

O Jurisprudente, visivelmente abalado, terminou a leitura da segunda página e ficou em silêncio por alguns instantes. Sentiu o sufocante odor adocicado penetrar-lhes nas narinas e observou bem melhor aquele homem de pele amarela e olhos amarelados que parecia ser portador da síndrome de Lutz-Richner-Landolt. Com certeza essa era a causa daquele amarelidão. Era magro e quieto como uma aranha e esquelético como um cão com calazar. Quando abria a boca para falar exalava um hálito com odor similar ao de frutas envelhecidas.

- Essa denúncia que o senhor me trouxe é gravíssima. É possível que essa pessoa, a quem o senhor aponta neste documento, pode ser sentenciada à morte. Está ciente disto? E as consequências dessa condenação serão catastróficas e com certeza, abalará os alicerces pré-estabelecidos. O senhor tem prova desta denúncia? Pode entregar esse homem à Justiça?

O esquelético homem amarelo, de olhos amarelos e de hálito cetônico, sorriu e assentiu com a cabeça. Poderia sim, entregá-lo. Sabia de coisas sobre ele e onde ele se escondia. Mas tencionava receber alguma coisa pela cabeça do homem.

- Com certeza o senhor será bem recompensado. Há gente muito interessada em colocar as mãos nesse homem. Não se preocupe. O senhor será regiamente recompensado.

O aracnídeo homem sorriu e estendeu a mão ao jurisconsulto, selando o acordo. A mão era fria como o mármore dos necrotérios. O erudito doutor sentiu um calafrio.

- Como devo chamá-lo, senhor? Não me disse seu nome...

A boca do amarelo se abriu, lançando um odor de veludo mofado das malas ancestrais. Abriu a bolsa de couro que trazia à tiracolo e entregou um cartão de visita.

- Meu nome é Judas. Judas Iscariote.



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