quinta-feira, 18 de abril de 2013

O TERRORISTA


Nicodemos sempre foi um rapaz tímido, nunca teve coragem para nada e agora tinha decidido e iria fazer o que sempre sonhou desde menino: um ato terrorista.

Tinha visto a notícia dos atentados nos Estados Unidos e isso lhe deu coragem. Se aconteceu lá na cidade de Boston, por que não aqui nessa bosta de cidade onde ele morava?


Tomou o café da manhã reforçado. Afinal um bom terrorista tem que se alimentar bem. Comeu tudo a que tinha direito. Comeu como se fosse a última refeição de um condenado.

Vestiu-se, arrumou a mochila nas costas e saiu em busca de um alvo. Pensou em explodir dentro do metrô. Aí se lembrou que nessa bosta de cidade não tinha merda de metrô, porra nenhuma. Andou mais algumas quadras e viu um Shopping Center, mas como ainda era cedo, havia poucas pessoas e não teria o efeito esperado por ele. Tinha que ser uma coisa grande e tinha que atingir o maior número de pessoas.

Ficou na parada de ônibus para pensar em alguma coisa. Em poucos instantes o ponto de ônibus ficou lotado de pessoas que iam para o trabalho. Os ônibus passavam lotados, pessoas se dependurando, arrastadas nas portas, saindo pelas janelas. Foi então que viu que um ônibus seria o lugar ideal para se explodir. Subiu no coletivo lotado, se espremeu o quanto pôde, de licença em licença, chegou ao meio do transporte e se acomodou na porta central. Havia pessoas por cima dele, por baixo e dos lados. Quase sufoca com a inhaca dos suores, maus hálitos e até bafo de cachaça. Numa contagem rápida viu que ali havia umas cem pessoas ou até mais, talvez até cento e cinquenta passageiros. Era realmente o local perfeito.

Então explodiu.

Soltou um senhor peido fedido. Não foi apenas alto, mas também longo e picotado. Parecia um ovo fritando. O povo apertado já com dificuldade para respirar, começou a abanar o ar em volta para espantar o odor terrível de feijão estragado de três dias. Nicodemos não satisfeito, logo em seguida, teve vontade de soltar outro. Levantou a perna e ouviu-se um estrondo absurdamente alto.

RRRRRRRRRRROOOOOOOOOOOOUUUUUUUUUUMMMMMMM!

Esse, então, parecia com o barulho de um motor a diesel pegando e fedeu ainda pior! Esperando que o odor nauseabundo se dissipasse, os passageiros sacudiam os braços numa tragicômica coreografia. O terrorista extasiado não teve dúvidas: jogou o peso sobre a outra perna e mandou ver. Desta vez merecia medalha de ouro na categoria. Enxofre puro. As janelas vibraram, o ônibus sacudiu e em dez segundos havia centenas de pessoas desmaiadas pra tudo quanto era lado. Até parecia que estavam mortas.

Na confusão o motorista parou o ônibus. Quem terá sido o feladaputa que soltou essa bomba? Era a pergunta dos passageiros sufocados e amarelos de tanto respirar o ar rarefeito e insalubre. No meio do bolo de gente que tentava escapar pelas janelas, Nicodemos conseguiu também sair. Ele mesmo não aguentava mais o próprio peido, mas estava satisfeitíssimo e ria-se consigo mesmo em meio às imprecações do povo.

Uma velhinha debilitada se segurou no braço de Nicodemos, sufocada, com falta de ar, pedindo pelo amor de deus que lhe tirassem dali.

- Esse peidão filho duma puta merecia era uma surra! – disse ela indignada.

Nicodemos abriu um sorriso largo. Sentiu o estômago embrulhar de novo. Aqueles três pratos fundos de feijão requentado do dia anterior tinham feito um belo estrago na tripa gaiteira.

- Concordo com a senhora. – disse o biltre, quase deixando escapar a gargalhada.



Adaptado da anedota “O homem que não podia comer feijão” de autor até então desconhecido.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

ATRAVÉS DA JANELA

​ Como fazia todos os sábados, lá pelas onze horas, onze e meia, o velho advogado chegava ao bar e sentava numa mesa - quase cativ...