sexta-feira, 7 de junho de 2013

DAMIANA E A MACUMBEIRA


Eita, que o povo do sertão é cheio de arrumação!

Eu vou contar então a história da Damiana, negra cheia de prosa, que morava na fazenda desde quando era menina pequena. Trabalhava na cozinha, comia de tudo e por isso era gorda como uma porca. Tinha vez que ela fazia um panelão de doce de goiaba e antes do doce esfriar ela já tava lá, raspando o tacho. Comida de panela mesmo, ela não gostava, não. Só gostava de bagulho. Comia o tempo todo. Bruaca, batata-doce, tapioca, rapadura, maria-maluca, alfenim, bolo de milho, pé-de-moleque, grude, cocada, não demorava muito na frente da Damiana.


- Eita muié que come! Parece a fome do Chico Dondom! – o povo caçoava.

- Isso é uma muié ou é uma roçadeira?

Ela fazia era rir da língua do povo. Fazia de conta que não era com ela. Comia porque gostava de comer e ninguém tinha nada com isso.

Ninguém, vírgula.

Pois ela conheceu um vaqueiro na quermesse, na festa da padroeira. O cabra até olhou assim pra ela com os zói cumprido. Ela se arrepiou todinha com aquele olhar do moço. Mas ouviu o vaqueiro comentar que se ela não fosse tão gorda, até que ia se abufelar com a danada. Isso foi o fim. Damiana se recolheu em casa e naquela noite não comeu mais nada, como era de costume. Até uma bandeja de pé-de-moleque que tava em cima da mesa, ficou intocada. Queria emagrecer nem que fosse um pouquinho, só pra agradar o vaqueiro. O povo que gostava de mangar da pobrezinha, se apiedou. Até que um dia uma mãe-de-santo ensinou pra ela a oração da cabra preta.

- É pru mode a sinhá Damiana ficar magra e amarrar eche hôme. – dizia a macumbeira. – Mas a sinhá tem que fazer direitim, conforme diz aqui no livro da capa preta, senão num funciona. Tem que ficar de jejum por uma sumana. Num pode comer nadinha de nada, nem um grãozim de arroz.

Damiana seguiu à risca as instruções da mandingueira e quem disse que deu certo? A velha catimbozeira não sabia o que tinha dado errado. Fez de novo, de novo e de novo. Damiana até parecia que tava ficando era cada vez mais gorda.

- Ôxente! A sinhá tá fazeno o que eu diche? Tá ficano de jejum pru mode a reza dar certo? Num pode cumê nadica de nada! Se cumê, a reza num fonciona é de jeito manêra! Dêxe eu ver dento dos seus bolsos!

Damiana abriu os bolsos do vestido. Só num bolso tinha metade do bolo pé-de-moleque. No outro bolso a mãe-de-santo, já enfezada, fumaçando com o cachimbo na boca, encontrou duas rapaduras, três pedaços de grude, uma batata doce e uma maria-maluca já meio comida. Aquilo já foi o bastante pra velha cachimbeira sair puta da vida com a Damiana, esconjurando com tudo e com todos!

Quanto a Damiana, vendo que tava livre da terrível penitência, continuou comendo e muito. Não dispensava nada e até se esqueceu o tal do vaqueiro e mandou o cabra pra baixa da égua, no dia que se encontrou com ele na quermesse! E digo uma coisa: o cabra se apaixonou pela negrinha atrevida. Dizem que até andou um tempo, feito um doido, atrás da velha catimbozeira.

- Que era pru mode aquela negrinha atrevida se amarrar nimim!


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