sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A FOME



Seu Roberto Barreto, homem muito culto, já falecido, me contava um monte de histórias do sertão. Publicou nos anos oitenta um excelente livro intitulado “Caminhos Ásperos”, onde narra sua dura jornada desde o sertão até chegar aqui em Fortaleza. Passou por um monte de presepada.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O DIABO NA JANELA

A Ilustração é de Daniel Klein


Aquela moça era bonita que só vendo. Ficava a manhã toda na janela arrumando os cabelos trançados, ora botando papoulas, ora botando girassol, ora pintando as unhas, ora botando batom, sempre sorrindo com a boca vermelha para os moços que passavam em frente da casa, só pra ver a boniteza dela.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A MORTE E A VIDA




Amanheceu uma manhã silenciosa, quente, sem brisa. O suor descia como goteiras. Dona Mazé, atarefada na cozinha, deu fé duma coisa no quintal. Uma galinha cantou como um galo. Ela se arrepiou de cima a baixo, se mijando todinha. Quem ouve tal canto sabe logo que vai haver desgraça. É prenúncio infalível de coisa ruim. Pra se prevenir da desgraça é bom cortar logo um dedo da galinha ou matar a bicha.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

UM DIA DE FRANCISCO

São Francisco de Assis

Minha mãe me deu o nome de Francisco das Chagas, que é o mesmo São Francisco de Assis, canonizado pelo Papa Gregório IX, em 16 de julho de 1228. Ela me dizia ser um nome forte e que esse nome iria me proteger pelo resto da vida. Mesmo descontente, cresci com esse nome, mas ninguém me chamava de Francisco das Chagas. Ora me chamavam de Chico, ora de Chiquim, ora de Chaguinha, ora de Das Chaga, e por aí vai. Confesso que eu odiava esse nome. Minha mãezinha quase sempre vinha me consolar, dizendo que nem toda pessoa era merecedora de usá-lo. Embora isso não me convencesse, eu via o brilho nos olhos de minha mãe e me resignava. Além do mais eu sabia que não era merecedor do nome Francisco das Chagas. Eu vivia jogado no mundo, comendo, bebendo, fornicando e lambendo os beiços. Cresci sem ter Fé alguma, sempre odiando o nome que minha mãe me dera.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

UM ANJO CHAMADO WEBER

Rua Padre Mororó na Fortaleza antiga

O professor Weber parecia um anjo. Gostava sempre de usar a roupa branca de enfermeiro. Costumávamos encontrá-lo à sombra dos fícus-benjamim, na calçada da Rua Padre Mororó, onde fica o curso de enfermagem São Camilo de Léllis, do qual era ele o diretor. Fazíamos, então, questão de cumprimentá-lo e sentir o forte aperto de mão. Ele tinha um apreço por todos, tinha os braços abertos, o coração generoso, exalava simpatia, amizade, benevolência.

O MILAGRE

Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo...