sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A MORTE E A VIDA




Amanheceu uma manhã silenciosa, quente, sem brisa. O suor descia como goteiras. Dona Mazé, atarefada na cozinha, deu fé duma coisa no quintal. Uma galinha cantou como um galo. Ela se arrepiou de cima a baixo, se mijando todinha. Quem ouve tal canto sabe logo que vai haver desgraça. É prenúncio infalível de coisa ruim. Pra se prevenir da desgraça é bom cortar logo um dedo da galinha ou matar a bicha.


Dona Mazé sabia que quando uma galinha canta de galo vai morrer o dono da casa. Ela se lembrou do marido, seu Josézim, que tava até adoentado, de cama. Ele tinha se cortado no roçado com a enxada e a ferida tava feia.

- Diacho! Vô é fazer uma canja dessa bicha pra eche véi miorá. – Pensou enquanto se asseava na beira do cacimbão.

Pegou a galinha, matou e fez a canja, que tava cheirosa de dar água na boca. Seu Josézim tomou com gosto, chega suou. Aí passou a febre, se levantou disposto e foi pro terreiro, já pedindo pra tomar café. A ferida já tava boa, cicatrizada. Dona Mazé acendeu uma vela e rezou um pai-nosso e uma ave-maria pra Nossa Senhora do Rosário e pra São José, Padroeiro do sertão. Contou pro marido a história da galinha, ainda preocupada com a melhora repentina dele. Ficou com medo, pois doente que tá muito doente, que melhora assim, de uma hora pra outra, é na certa a visita da saúde, a melhora da morte. Seu Josézim sorriu confiante e abraçou forte a Dona Mazé.

- Se assossegue, muié. Eu num vô morrer, não. Tô inté cum vontade de tomar uma pinga, que é pru mode comemorar a minha melhora!

- Ôxente, seu José! Se aquiete! Onde já se viu brincar assim com essas coisas? – Disse se benzendo, adoçando o café com rapadura.

Quando foi de tardezinha, chegou a notícia da morte de um compadre deles, que morava a umas léguas dali. Dona Mazé sossegou o coração, pensando como é que a galinha errou de agouro.

- José, cumé que foi morrer logo o nosso cumpade? A galinha num agorou num foi tu? E eu num matei ela, que é pru mode tu num morrer?

- Ôxente, Mazezinha. Tu num intende mermo de nada. Tu veve rezano pra esses santos aí e num intende mermo dechas coisas... tu num se alembra que o dono dessa casa é o nosso cumpade? Eu fiquei inté de pagar a ele quando colhesse e vendesse o milho e o feijão? Mas que com essa seca nóis tivemos prejuízo e não deu pra pagá o hôme?

- Intonce a galinha num errou não, zezim! Ela só teve o mau agouro inviezado!

Um vento seco e quente entrou cozinha adentro, rebolando as panelas no chão, batendo as portas, estufando as cortinas de retalhos, assoprando a poeira no meio do mundo, que rodopiava feito uma doida no quintal. Seu Josezim e dona Mazé ouviram o ribombar de trovão e correram pra janela. O céu já tava meio escuro no fim de tarde, viam-se ainda umas nuvens alaranjadas por detrás do serrote. O vento amenizou, trazendo cheiro de terra.

Dona Mazé se agarrou com o marido. Ele a abraçou forte, os olhos marejaram. Ouviu a mulher dizer baixinho, como é que podia o compadre ter morrido, justamente em um dia tão bonito como esse. Seu Josézim respirou o ar puro do sertão castigado e pensou consigo mesmo, que às vezes, a morte de alguém não é só tristeza. Foi pro terreiro, se ajeitou na cadeira pra ver o anoitecer.

- Vai chover.

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