sexta-feira, 27 de setembro de 2013

HISTÓRIAS DO SERTÃO – A cruz na estrada



“Caminheiro que passas pela estrada,
Seguindo pelo rumo do sertão,
Quando vires a cruz abandonada,
Deixa-a em paz dormir na solidão”.

(Castro Alves)



No sertão as estradas são solitárias e silenciosas. O silêncio da solidão é deslumbrante. Aqui e ali se vê uma árvore seca, uma casinha esquecida, um muro em ruínas, uma cancela. Tudo é mato nos dois lados da estrada. Quem passa sozinho se arrisca a ver coisas, ouvir vozes, sentir cheiros. Cheiro de cuscuz e café, fornada de tapioca, cheiro de bosta de vaca, cheiro de mato, cheiro de caju, cheiro de chuva, sem chover.

Ao longe, quase inaudíveis, ouvem-se os sons do mato: latidos entrecortados por aboios, trinados, chilreios, gorjeios, gorgolejos, piados, guinchos, tinidos, arrulhos e coisa e tal, embora não se possa aqui, descrever o pesado silêncio que paira sobre a estrada solitária. 

É muito comum encontrar uma cruz na beira da estrada. Quem a pôs ali, ninguém sabe, ninguém lembra. Mas ao passar diante de uma cruz assim abandonada, se limpa ao redor, faz-se o Sinal da Cruz e reza-se um Pai-Nosso e uma Ave-Maria e depois se vai embora, deixando-a em paz, pois ali repousa a memória de alguém que já se foi, que não anda mais entre nós. 

Embora muitas vezes, andarilhos solitários contam que se escutam passos de alguém caminhando ao lado e quando se olha para trás, somente a estrada vazia a se perder de vista. 

Há quem diga que é só a solidão da estrada vazia.

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