quinta-feira, 31 de outubro de 2013

AS PARTES ÍNTIMAS DAS PUTAS


A Parábola dos Cegos, 1568, Pieter Bruegel;


Todos os dias o velho descia a rua onde ficava a zona do baixo meretrício. Cego, curvado pelo peso da idade, pobre e doente, o corpo todo coberto por severas chagas sifilíticas, esfrangalhado, o miserável vagava pela cidade como um cão sarnento. Misturava-se com as putas, travestis, bêbados, cafetões, proxenetas, garotas de programas, entre outros personagens não menos desprezíveis que faziam ali o vil comércio de corpos e de almas perdidas no abismo dos delírios sexuais. Quem pensou que o velho ia à busca da luxúria ou da impudicícia, ou mesmo dos prazeres sodomitas, enganou-se redondamente. Na verdade ele estava ali diuturnamente, numa tarefa quixotesca e inútil, apregoando qual um louco, um alerta contra o pecado capital da lascívia e da devassidão.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A HISTÓRIA DA MULHER QUE DEVOROU O MARIDO

Saturno devorando um filho - Francisco de Goya

Morava uma humilde mulher numa casinha no meio do mato, abandonada pelo marido, que era como assim dizer, caixeiro viajante e por sinal, muito perdulário. Ganhava tudo o quanto podia e gastava tudo o que não tinha nos jogos de cartas, deixando de lado a obrigação de encher a despensa da casa. Passavam meses e anos inteiros sem que ele voltasse, deixando a miserável esposa passando as mais cruéis adversidades. A pobre mulher andava em trajes de pedinte, numa pobreza nunca vista, seca e esfaimada, só peles e ossos.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O SONHO

Robert ParkeHarrison - sleeping man

Seu João Rodrigues acordou sobressaltado e afobado feito a peste. Passou a noite tendo um pesadelo repetitivo, uma sucessão de sonhos terríveis, que não acabava nunca. Não conseguia dormir de jeito maneira. A todo instante dava um pinote para fora da rede e olhava para as telhas para ver se ainda estava escuro ou já era dia. Ficava tentando ouvir o galo, mas não ouvia nada. Estava tudo em silêncio sepulcral. A noite não passava e quando ele mal cochilava, vinha o sonho de novo a atormentar-lhe. Um sonho esquisito que se repetia sempre. Agoniava-lhe a simples idéia de ter que voltar a dormir. A noite toda chamou pela mulher por várias vezes, mas era como se não conseguisse pronunciar a palavra certa. Tentava dizer uma coisa e parecia que saía outra. A língua estava toda embolada e não sentia a boca, como aquela sensação de quando se vai ao dentista. Tampouco conseguia sair da rede. Era como se não tivesse os pés, pois por mais que tentasse ficar de pé não sentia o chão. Isso começou a lhe apavorar. Pensou logo que podia estar tendo uma trombose. A mulher dele, dona Maria José, já tinha lhe dito que era perigoso acordar de supetão e meter os pés no chão frio ou então sentir a barra de vento nas costas.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

A MULHER FEIA


A duquesa feia de Quentin Massys

Deus come escondido, já o Diabo sai por toda a parte lambendo o prato, como disse sabiamente Guimarães Rosa no Grande Sertão.

É por isso que num se deve prestar muita atenção na feiúra dos outros. Todo mundo é como tem que ser, ou com suas feiúras ou com suas bonitezas. Mas dito isto à parte, rapaz, a mulher do seu Zé Tóin, dona Mazé, é mais feia do que barruada de trem. Mas como Deus faz as coisas tortas ficar endireitadas, ela é um doce de pessoa, educada, simpática, que até a feiúra dela passa assim de lado, que é pru mode a gente num precisar de vê.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

VELHO MACHO



Seu Antônio Feitosa, cabra sertanejo dos Inhamuns, virado na gota serena, mais grosso do que papel de enrolar prego, fez uma viagem pra Fortaleza, que era pru mode fazer uma visitinha pros parentes.

- Pura invencionice do diabo decha muié! Por mim, eu ficava aqui mermo no meu sertão! - Dizia o cabra, visivelmente emburrado com a ideia de ter que se ausentar da fazenda.

ATRAVÉS DA JANELA

​ Como fazia todos os sábados, lá pelas onze horas, onze e meia, o velho advogado chegava ao bar e sentava numa mesa - quase cativ...