sexta-feira, 11 de outubro de 2013

A MULHER FEIA


A duquesa feia de Quentin Massys

Deus come escondido, já o Diabo sai por toda a parte lambendo o prato, como disse sabiamente Guimarães Rosa no Grande Sertão.

É por isso que num se deve prestar muita atenção na feiúra dos outros. Todo mundo é como tem que ser, ou com suas feiúras ou com suas bonitezas. Mas dito isto à parte, rapaz, a mulher do seu Zé Tóin, dona Mazé, é mais feia do que barruada de trem. Mas como Deus faz as coisas tortas ficar endireitadas, ela é um doce de pessoa, educada, simpática, que até a feiúra dela passa assim de lado, que é pru mode a gente num precisar de vê.


Seu Zé Tóin sempre ocupado com o bar, servindo a manguaça e tira-gosto, botando os papudins no olho da rua, num tava nem ligando pros comentários sobre a feiúra de dona Mazé. Ela devia ter lá seus encantos, pois assim comparando, o seu Zé Tóin era bonitão, novo, corado e mesmo assim não ficava arrastando asa pra mulher nenhuma. E quem pensasse que ele casou com ela por causa de dinheiro, se enganou redondamente, pois ela é de família pobre e ele é quem tem dinheiro amufambado nas virilhas.

Saber ela sabia que o povo falava. Saber que nasceu feia que fazia dó, ela sabia também, pois havia de já ter se olhado no espelho, pois não existe mulher que se desvie de espelho, feia ou não. Mas isso também num contava muito, pois dona Mazé num ligava pro converseiro desse magote de fofoqueiro que num tinha o que fazer e ficava falando das feiúras dos outros.

Até que chegou na cidade, vindo das distantes terras russas, uma misteriosa cigana feiticeira chamada Kathiuska, que botava um feitiço pra quem quisesse ficar bonito. Era tiro e queda. Ficava bonita que virava uma princesa. A dona Mazé sabendo disso ficou toda se saracoteando, pra lá e pra cá, doida pra fazer uma visita pra cigana misteriosa. Queria virar princesa que era pru mode agradar o Zé Tóin e acabar de vez com o fuxico do povo desocupado. Mas quando a tal cigana viu a feiúra da dona Mazé, quase que cai pra trás. Ela nunca tinha visto tamanha baranga. Aquilo num era feia não, era o cão chupando manga. A desgraçada da cigana quase morre dum ataque do coração. Mas logo a fineza e a doçura de Dona Mazé conquistaram a pitonisa, desfazendo os mal-entendidos da apresentação.

Depois disso não se sabe se dona Mazé ficou bonita ou não. Mas o que se sabe e o que fala em todo canto é que ela fugiu com a cigana misteriosa, deixando o desgraçado do seu Zé Tóin desconsolado e sendo motivo de piada na cidade toda. Como a dona Mazé com aquela feiúra toda meteu um par de chifres no desgraçado do marido e ainda mais com outra mulher, ninguém sabe explicar.

Mas é como eu disse antes: ela deve ter lá seus encantos.

Um comentário:

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