quinta-feira, 31 de outubro de 2013

AS PARTES ÍNTIMAS DAS PUTAS


A Parábola dos Cegos, 1568, Pieter Bruegel;


Todos os dias o velho descia a rua onde ficava a zona do baixo meretrício. Cego, curvado pelo peso da idade, pobre e doente, o corpo todo coberto por severas chagas sifilíticas, esfrangalhado, o miserável vagava pela cidade como um cão sarnento. Misturava-se com as putas, travestis, bêbados, cafetões, proxenetas, garotas de programas, entre outros personagens não menos desprezíveis que faziam ali o vil comércio de corpos e de almas perdidas no abismo dos delírios sexuais. Quem pensou que o velho ia à busca da luxúria ou da impudicícia, ou mesmo dos prazeres sodomitas, enganou-se redondamente. Na verdade ele estava ali diuturnamente, numa tarefa quixotesca e inútil, apregoando qual um louco, um alerta contra o pecado capital da lascívia e da devassidão.


Mas bem antes disso, nos tempos irreparáveis da juventude, era ele mesmo extremamente extravagante e com o dinheiro abundante de uma herança, gostava mesmo era de viver em farras, patuscadas e bacanais. Um consumado devasso! Amanhecia e anoitecia dentro dos puteiros, nas mais sórdidas espeluncas.

Mas como é próprio de um herético aferrar-se às suas próprias ideias e a estupidez insiste sempre, deu-se que certo dia, esse mesmo sujeito, ainda embriagado do Ron Montilla da farra da noite anterior, acordou em um quarto de cabaré, completamente grogue, como já era de seu costume. Atarantado como estava, procurou lavar o rosto e foi direto à bacia onde se lavam as partes íntimas das putas, uma água turva, nauseabunda, gosmenta e mal cheirosa. No dizer dele mesmo, tempos depois, na verdade a água era um caldo pútrido e insalubre. Sabe lá Deus, o que poderia ter naquela fatídica e doentia bacia branca de ágate!

Cegou ali mesmo. Sentiu os olhos sendo corroídos e arrancados das órbitas, numa dor infernal, muito embora a estultícia já o tivesse cegado fazia já muito tempo.

Mas o que é perder a visão para quem já era cego? O homem miserável agora, outrora mulherengo e galanteador tempestuoso, então surpreendido pela desventura e pelo infortúnio, virou motivo de chacota e piadas infames. Perdida a visão, perdeu-se também a fortuna em busca da cura impossível. Gastou em vão tudo o que herdara.

Mas a desgraça fez brotar nele um tênue sentimento de decência e restou-lhe tão somente a árdua tarefa de abrir, nos outros, os próprios olhos.

Um comentário:

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