sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A TROMBOSE


Seu Otacílio amanheceu todo troncho, com uma banda morta, a boca virada prum lado, toda roxa. Quando a dona Mariazinha, a mulher dele viu aquilo, tomou foi um susto com a cena grotesca. O velho tentava falar alguma coisa e só saía uns grunhidos de porco. A situação do velho era calamitosa, diga-se de passagem. A coitada da mulher dele alarmou no meio da rua, pedindo socorro, que era pru mode acudir o marido que tava tendo uma trombose. A casa se encheu de gente querendo ver o seu Otacílio todo inchado dentro duma rede veia, grunhindo qual um barrão e se cagando todim, feito menino novo.

Aí veio o doutor, que na verdade nem era doutor coisa nenhuma. Era mesmo o veterinário que trabalhava na fazenda do prefeito e que vez por outra vinha acudir o povo. Afinal, gente e bicho são tudo filhos de Deus. E o velho Otacílio que mais tava parecendo com um sapo, todo inchado, arroxeado e ainda mais roncando como um porco, tava mais pra bicho do que gente.

O doutor olhou aqui e ali, apertou o bucho do velho, examinou a língua, botou os ouvidos nas costas e concluiu o que todo mundo já sabia. O homem teve foi uma trombose. E das feias. Num vai durar nadinha. Tá mais pra lá do que pra cá e já pode encomendar o caixão que é coisa de poucos dias.

Qual o quê, meus amigos. Passado a agonia daquele sucedido, o velho Otacílio foi melhorando dia após dia sob os cuidados da mulher dele. O doutor até podia entender de cavalo, de vaca ou de bode, mas de burro chucro ele não entendia era nada. 

O fato é que seu Otacílio não morreu não. Só ficou assim meio abestalhado e atoleimado, rasgando dinheiro e amassando merda. Tava mesmo era com a bixiga lixa. Dona Mariazinha, coitada, pegou mais essa cruz pra carregar. No começo ela banhava, dava sopinha na boca, botava pra dormir. Aí o velho se cagava todo na rede e ela ia limpar na maior paciência que esse mundo já viu. Tempos depois ela deixou o velho se virar sozinho. Andava todo troncho para tudo quanto era canto na cidade. Comia tudo o que vinha pela frente e voltava pra casa todo sujo e enlameado. Ela jogava o desgraçado dentro de uma tina de água fria e só tirava quando se lembrava dele, muitas vezes tarde da noite. 

Mas teve um dia que a paciência de dona Mariazinha se acabou. Começou a chegar uns meninos que vinham a mando do seu Mané Bofão, dono da mercearia, trazendo uns papeizinhos, cobrando umas coisas que o seu Otacílio andava comprando fiado. Aí ela foi lá na bodega fumando numa quenga. Onde já se viu uma coisa dessas? O seu Mané Bofão lhe disse que o seu Otacílio chegava lá e se encostava no balcão e dava de pau a tomar cachaça e a comer farinha. Ultimamente já tava até levando umas raparigas pra encher a cara com ele. Dona Mariazinha voltou pra casa e no caminho pegou uma vara de marmeleiro. Esperou que o seu Otacílio chegasse das suas andanças. Do jeito que o velho tava, todo sujo, mijado e enlameado, o passo troncho, mais melado do que espinhaço de pão doce, a dona Mariazinha sapecou-lhe a vara nos lombos do velho. Foi tanta peia que no outro dia o cabra safado amanheceu curado da trombose. Sério que só porco mijando.

A notícia da peia correu o mundo. A mulher que curou a trombose do marido com uma coça de vara de marmeleiro. O velho tava realmente com um pé na cova. O povo conta que o doutor veterinário começou então a aplicar o método da dona Mariazinha, metendo a coça sem dó nem piedade no povo, que era pru mode expulsar o cão dos couros. Já, o seu Otacílio, parece até que virou crente. 

Aí eu não confirmo. Já é mentira demais da conta.

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