sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

HISTÓRIAS DO SERTÃO: AS RUÍNAS ASSOMBRADAS DE COCOCI

Foto do blog de Altaneira

Lá pras bandas de Parambu, cidade dos Inhamuns, no sertão do Ceará, existe uma localidade abandonada chamada de Cococi. Já foi uma cidade, mas hoje é uma vila fantasma, deserta e em ruínas. O povo tem medo até de passar por lá. Diz-se que tem assombração. Depois que anoitece não é bom ficar em Cococi.

Uma vez no mês de dezembro, perto do Natal, um vaqueiro voltava sozinho para Parambu e despercebido como estava, entretido com o silêncio da estrada e sonolento com o trote do animal, viu que já estava passando por Cococi, justamente quando já era noite. A solidão era fatal e assustadora. Sentiu uma atmosfera pesada, uma sensação de sufocamento, uma ansiedade incômoda esmagando-lhe o peito. As casas em ruínas projetavam suas sombras e esgueiravam-se pelas ruas desertas. Há coisas das quais não é possível se dar conta, coisas tantas, materiais, espirituais e misteriosas, que não é de nossa compreensão. 

Mergulhado na escuridão do lugar, o vaqueiro temeroso, vislumbrou uma sombra imprecisa, uma sombra tal como projetada pela lua, que se assemelhava ao vulto de uma criança, mas não era a sombra de um ser vivente. Era vaga, disforme, imprecisa e com certeza não era uma sombra humana. O cavalo estancou assustado. O vaqueiro teve a impressão de ter visto a figura frágil de uma menina no meio das ruínas. Ele se aproximou e viu mesmo uma menininha, acocorada, faminta e assustada, num cantinho assim, entre as ruínas de uma casa velha.

Comovido, o vaqueiro colocou a inocente criatura na garupa e rumou para casa. A mulher dele se alegrou muito, pois ainda não tinham filhos e ela sempre sonhou em ter uma menina. E como já estava perto do Natal, seria muito bom ter criança em casa. Planejavam até mesmo adotá-la, caso ninguém procurasse por ela. O vaqueiro saiu para tanger umas cabeças de gado e iria se ausentar por uns dias, prometendo voltar a tempo para a ceia natalina. A mulher ficou em casa com a menina, ansiosa pelo retorno do vaqueiro.

Passado os dias, o vaqueiro retorna para casa. No caminho experimentava uma incômoda e angustiante sensação, como se percebesse a proximidade da morte e a temível sombra que a precede. Um pressentimento de que se encaminhava para uma terrível desgraça também o acompanhava. Agitava a cabeça como que para expulsar os pensamentos agourentos, dizendo consigo mesmo que não haveria de ser nada.

Ao chegar a casa, mal a reconheceu! No lugar havia apenas uma velha casa em ruínas, como se tivesse já transcorrido uns cem anos, desde que partira. Enlouquecido, o vaqueiro saiu em busca de respostas e todos diziam que aquela casa já estava abandonada há muitos anos e que lá morava uma velha e solitária senhora cujo marido a tinha abandonado e desaparecido sem deixar vestígios.

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