sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O SERMÃO


“Ai dos que habitam na terra e no mar; porque desceu a vós o Diabo, tendo grande ira, sabendo que já tem pouco tempo! Nos últimos tempos apostatarão alguns da Fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios”.

Era assim o sermão dominical do padre Expedito. Repleto de advertências com relação à chegada do Anticristo, do Enganador, do Pai da Mentira. A igreja ficava lotada. Vinha gente de toda a cidade e de municípios vizinhos. E até o Bispo vinha da Capital só para ouvir as palavras de sabedoria do padre Expedito.

“Acautelai-vos! Virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; E desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas”!

Atemorizado, o povo escutava em profundo e cerimonioso silêncio. Lá fora o tempo parecia que parava. Até as árvores curvavam-se, diziam, para ouvir o padre. Aquele sim, um homem de Deus! Confabulavam os fieis entre si. É preciso que se saiba que o padre Expedito era um homem digno de ser respeitado e, até mesmo, temido, dado ao seu profundo conhecimento das Escrituras.

Em um domingo desses, como de costume, a igreja lotada de fieis aguardava a chegada do padre para mais um sermão. De dentro da casa paroquial, que ficava nos fundos da igreja, por uma pequena brecha de uma pequena cortina púrpura, imperceptível por detrás do altar, o sacerdote que ficava enfunado de orgulho, observava a quantidade de pessoas que chegavam para a missa, pois consequentemente, a sacolinha na hora do Ofertório ficaria abarrotada.

Enquanto revisava suas anotações, percebeu no meio do burburinho, uma bela senhorita, até então desconhecida dele. Estava ali, solenemente em silêncio, como se rezasse o rosário. A suave face da moça no meio das pessoas destacava-se de forma angelical e pura como a imagem de Nossa Senhora. Aconteceu então que, não se sabe como, ou se por obra do próprio Deus ou quem sabe, até mesmo por artimanha do Demônio, a doce donzela, no meio da multidão, encontrou os olhos do padre, fulminando-o como um raio, fitando-o profundamente e o desconcertando totalmente. A boca rosada dela abriu-se em um tímido, singelo e sutil sorriso, fazendo com que o pároco se desestruturasse do outro lado, derrubando a Bíblia e as folhas de papel no chão. No mesmo instante uma repentina rajada de vento entrou furiosamente pela janela, rodopiando a papelada por todos os lados e levando boa parte dos manuscritos porta afora, espalhando-os pelo meio da rua, sem dar oportunidade ao destrambelhado padre de catá-los novamente.

Mesmo assim, passado o imprevisto, o padre ainda trêmulo e vacilante, conseguiu proferir o sermão, mesmo de improviso. Durante o tempo em que estava no púlpito, por mais que buscasse no meio do povo, não conseguia localizar visualmente a senhorita. Sumira por completo, deixando o padre ainda mais acabrunhado.

A aparição angelical não fez nada bem ao sacerdote, deixando-o perdidamente apaixonando e doentiamente impressionado com a visão da moça. Quem disse que ele conseguiu dormir? No quarto escuro, no silêncio da noite, mal conseguiu fazer sua orações. Apenas ouvia o lúgubre tique-taque do relógio que se alongava noite adentro quais tentáculos mortíferos, remoendo suas apreensões e seus medos. Buscando inutilmente se desvencilhar das ideias e dos pensamentos que emperravam dentro de sua conturbada alma, o pobre clérigo desabou miseravelmente sobre a cama, em prantos, aprisionado pela paixão nunca dantes experimentada. Ficou cativo dessas noites insones, atormentado por uma dor lancinante, qual aquelas intermináveis e atrozes dores de dentes que massacram os desafortunados, varando a madrugada.

Depois desse encontro fantasmagórico, o miserável padre caiu em desgraça. Abandonou a batina e caiu na vida mundana. Andava qual um louco à busca da bela senhorita, ora embriagando-se nas mais sórdidas espeluncas, ora amancebando-se com as meretrizes, como o cão que volta ao próprio vômito.

É possível que este padre Expedito tenha se apoiado no próprio entendimento, pois é certo que se qualquer homem pensar somente em si mesmo e se achar ser um dos mais espertos, que ele descarte sua esperteza para que ele possa aprender a ser verdadeiramente sábio. A serpente enganou a todos com a sua astúcia, conforme as Escrituras, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os nossos sentidos, nos apartando da simplicidade. Também é provável que o tal religioso não tenha se sujeitado a Deus e sim ao Diabo, quando não cultivou a simplicidade e a humildade, pois também está escrito: Sujeitai-vos, pois, a Deus, resisti ao Diabo, e ele fugirá de vós.

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