sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A MÃO DA GLÓRIA

Foto de Lee Jeffries

O homem macérrimo e doente, andava às voltas com uma ideia fixa, que o vinha há dezenas de meses exaurindo-lhe o semblante, agora mortificado, de aparência abjeta, desprezível, como um edifício oco.

Havia já sido advertido de que sua saúde inspirava cuidados, mas não dera ouvidos aos  médicos, pois havia urgência em obter o seu intento. Era um homem de maus trabalhos. A doença não adoece o caráter de um homem.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

HISTÓRIAS DO SERTÃO: A MULHER DO CACIMBÃO

Desta feita a história era de um menino que todo dia ia no cacimbão para buscar água. Mas de uma hora para a outra, sem mais nem menos, se negava a ir. A mãe desse menino, atarefada nos afazeres da casa, insistia muito, mas o menino não queria ir mais no cacimbão de jeito nenhum. A mãe desse menino ficou cabreira com aquilo e se aquietou. E perguntou o que tinha lá no cacimbão. O menino assustado disse sussurrando que toda vez que ia buscar água, tinha uma mulher lá, sentada em cima da tampa. E essa mulher não era gente não. 

sábado, 18 de outubro de 2014

O COURO DE BODE




Por fim das forças, Agripino queria ficar rico. Andava preenchido até à alma com a mais profunda depressão - a doença da cobiça - que lhe atormentava noite e dia. Sua figura magra, taciturna e encurvada, causava repugnância. Sua sombra disforme projetava no solo, um edifício negro, cujas janelas, semelhantes órbitas destituídas de espírito, vagava desolada, alheia a ele próprio, como se quisesse desvencilhar-se dele, numa inútil batalha, infértil delírio, terrível desolação.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A LUZ MISTERIOSA DE CANINDÉ



Aqui no meu Ceará, na bela cidade de Canindé, numa localidade chamada Salgado Ingá, anda aparecendo umas histórias de uma luz misteriosa que vem atacando as pessoas no meio da noite. Dizem que essa luz surge por detrás de uns montes e voa baixo, silenciosamente pelas estradas à noite, assustando os agricultores que já andam apavorados com a seca medonha que campeia no meio dos roçados, sem falar na situação caótica por que passam as cidades do interior cearense, reféns da violência urbana, assaltos a bancos, tráfico de drogas e todo tipo de crime. E agora, mais essa luz misteriosa!

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

OS MISTERIOSOS ROCHEDOS DE QUIXADÁ



O anoitecer lá é um grande mistério.

Primeiro o céu todo, no horizonte, fica tingido de matizes multicores: uns azuis amarelados, verdes avermelhados, cúmulos rosáceo-alaranjados, nuvens cinzas transparentes esgarçadas como algodão, coroam os rochedos sombreados que despencam vertiginosamente sobre o vale. As águas do açude, ainda refletindo os últimos raios fugidios de sol, espelham também as enormes sentinelas de pedra centenárias, libertando espectrais gemidos dos mortos, levados pela fria aragem noturna.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

OS DESAPARECIDOS




O velho Antônio, quando bebia, vidrava os olhos verdes de esmeralda em um ponto fixo, fitando através da  janela, espelhando o céu. Ficava assim por tempos e tempos, remoendo velhas memórias, fotos amareladas de pessoas esquecidas,  regurgitadas ali mesmo na toalha quadriculada da mesa do bar.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

O ANEL



Havia um homem naquela rua que tinha por muitos anos um armarinho, muito sortido de coisas várias. Podia-se ali, sem nenhum exagero, encontrar-se de tudo o que se procurasse e mesmo que não se encontrasse o que se queria, aquele homem se prontificava e se empenhava de tal zelo, a ponto de consegui-lo em poucos dias, aquilo que se procurasse.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

A CIDADE DESERTA



Uma vez voltei ao lugar antigo da minha infância antiga. Era um lugar de céu aberto, ensolarado, de manhãs de azuis intermináveis, onde árvores verdes deitavam suas sombras nas calçadas anchas pela tarde inteira.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

MISTÉRIOS DO SERTÃO

Imagem do blog Crônicas de um Brasileiro

Quando a gente era menino, andava mato adentro, atrás de aventuras, caçando passarinho, tomando banho no açude, pescando traíras gordas que eram assadas ali mesmo nas pedras do lajeiro, enchendo o bucho de goiabas, mangas, azeitonas, pitombas, siriguelas, macaúbas, coco babão... era uma alegria quando algum de nós encontrava um pé de caju carregado! Naquele tempo tinha-se a impressão de que os dias eram mais longos, as tardes majestosas, verdes, o céu de um azul profundo. O vento rodopiava nas estradas levantando colunas de poeira e folhas secas. Às vezes observávamos um silêncio enorme, como se o tempo parasse literalmente. Ouvíamos apenas um longo assovio dentro dos ouvidos. Os mais velhos diziam que quando alguém estiver no meio do mato e o tempo parar assim, carecia de ter muito cuidado para não ser "encantado" e sumir para sempre. 

A gente conhecia muitas histórias de meninos que tinham sumido e que nunca mais apareceram. Meu avô, muito temeroso, apesar de ser um homem valente e corajoso, contava-nos sempre uma história de um vaqueiro que saiu muito cedo de casa para tanger a boiada. Ele costumava levar na garupa o filho dele, que tinha uns dez anos de idade, que era para o menino aprender logo a lidar com o gado. No meio do mato ele sentiu o tempo ficar parado, ouvindo apenas um assovio longo no meio da estrada. O cavalo estancou e o garoto sumiu da garupa como por encanto. Depois disso o menino nunca mais apareceu. O vaqueiro enlouquecido, passou o resto de seus dias a procurar o filho no meio do mato, sem nunca mais o ter encontrado. A gente morria de medo, mas mesmo assim, se entranhava dentro do mato, revigorados pela sede de aventura e à cata de mistérios.

Ouvíamos dizer que, se subíssemos no alto do serra do boqueirão, poderíamos ver o mar. Ora, que aventura melhor do que aquela? Meu avô dizia que era verdade e que uma vez subiu e viu mesmo lá do alto, a linha azul do mar. Mas nos desencorajou. 

No meio do mato fechado, antes de chegar ao boqueirão, tinha uma casa antiga onde morava uma velha catimbozeira. O povo dizia que ela era leprosa e por conta dessa doença vivia isolada. Outros dizia que não, que ela não era leprosa, coisa nenhuma. Na verdade era uma feiticeira que roubava crianças nos sítios e arrancava as orelhas, somente as orelhas e fazia com elas um colar. Muitos meninos apareciam sem as orelhas, outros nem apareciam mais, pois a velha gostava de comer os meninos mais gordinhos e rechonchudos. Depois dessas histórias, quem é que tinha vontade de dormir? 

Meu avô atiçava a fogueira e contava as mais estranhas histórias que ele sabia e que tinha ouvido alguém contar. O vento frio cortava a pele e uivava na copa das árvores, assoviando no telhado. A lua prateava o sertão e de vez em quando tempo parava. Minha avó se encolhia enrolada em uma manta de crochê e meu avô, iluminado pela fogueira, com brasas dentro dos olhos, começava outra história de arrepiar os cabelos.

Aí a gente ficava com medo de subir a serra e ficava no alpendre até tarde da noite olhando para a serra azulada, lá no fim do horizonte, imaginando que lá de cima, dava pra ver a linha azul do mar.



sexta-feira, 13 de junho de 2014

O OITIZEIRO

Imagem: Copyright: Vera Messias Marques - Treknature

Sentado em um banco da praça, sob a sombra generosa de um oitizeiro antigo, um homem simples e de aparência humilde, sem grandes pretensões para com o mundo, armava todo dia sua banquinha de quinquilharias e miudezas. Ficava ali por horas, comercializando seus produtos tão simples quanto ele próprio.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

O PADRE ROMILDO VIROU LUBISÔME



Dona Bastiana amanheceu atarefada. O padre Romildo veio cedo tomar café e almoçar na casa dela. Não era todo dia que ela recebia uma visita importante, ainda mais sendo o padre Romildo. Um homem de Deus. Um verdadeiro santo na Terra.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

OS GATOS PARDOS




À noite todos os gatos são pardos.

Quando a porta de vidro deslizou fazendo aquele ruído característico, cabeças sincronizadas se viraram, curiosas. As mulheres atentas, os homens extasiados. A nova cliente que já era esperada por todos, enfim dava o ar da graça. E realmente a moça era muito bonita. Embora seja certo de que a expectativa é a grande filha da puta da história, a beleza daquela senhorita superou acima do esperado.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

MEMENTO MORI


"Memento mori" - Albrecht Dürer(1471-1528)

Hoje presenciei uma cena degradante de um homem extremamente mal humorado. Contorcia-se, esse homem, em sua ira, como se fosse parte dele a raiva, tal como se fosse um membro a mais no seu corpo, que o tornava vermelho, os olhos injetados como um vampiro, enquanto que a jugular pulsando, saltava-lhe como a destilar o ódio.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

UMA MÃE NO QUARTO DE HOSPITAL



Sentada defronte à janela do quarto do hospital, absorta, uma mãe escrevia a esmo. Nem percebia a aragem com cheiro de eucalipto que entrava no quarto da filha doente, que dormia serenamente, depois de muitas noites insones, de febres, vômitos e dores. De faces rosadas, dormia como dormia um anjo dentro de uma pintura. A mãe nem percebia que lá fora a tarde era tão bonita, com sombras dadivosas, longas, espalhadas na calçadas.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

O ALFAIATE


Firmino, o alfaiate, acordou sobressaltado com aquele sonho. Não que tivesse sido um pesadelo, mas um daqueles sonhos repetitivos, sufocantes e intermináveis. Varou toda a noite tendo o mesmo inquietante sonho.

domingo, 13 de abril de 2014

PRÊMIO DE LITERATURA UNIFOR

 

 
 
 
O meu conto Os encantos de Dona Orlanda foi um dos agraciados para compor a coletânea de contos do PRÊMIO DE LITERATURA UNIFOR, edição de 2013.

"Na noite desta sexta-feira, 11 de abril, foram conhecidos os vencedores do Prêmio de Literatura Unifor 2013, que nesta edição contemplou o gênero conto e bateu recorde de inscrições. Ao todo foram 409 trabalhos, entre concorrentes do Ceará, Alagoas, Amazonas, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco, e de outros países, como Portugal e Japão".


Link da matéria:

http://www.unifor.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5515%3Aconheca-os-vencedores-do-premio-de-literatura-unifor-2013&catid=211%3Anoticias-capa&Itemid=48

sexta-feira, 4 de abril de 2014

AO MEIO-DIA

Farol do Mucuripe (Georges Wambach - 1901-1965)


Dona Esmeralda me pegava para contar histórias do tempo em que ela era menina. Sabia que eu gostava dessas histórias de assombração, alma penada, coisas do outro mundo. Eu me sentava com ela debaixo do pé de jambo no jardim, a aragem fresca e a sombra enorme abraçava a tarde toda. Ela mandava trazer uma garrafa de café e o potinho de biscoitos de araruta. Sem tirar os olhos do crochê, começava a narrar bem devagar, sempre com uma pausa silenciosa para um gole quente de café.

sexta-feira, 28 de março de 2014

O PADRE

O Diabo rebatizando um bruxo (Compendium Maleficarum, 1610).

O velho padre passava por noites inteiras insones. O desejo sexual por crianças lhe apunhalava constantemente a sanidade, rasgava-lhe a carne em frangalhos, atormentava-lhe a alma como uma fome insaciável. 

sexta-feira, 21 de março de 2014

O FEITIÇO





O preto entrou na tenda da cigana. Ele era de raça preta subsaariana, quase azulada, banto de cor e alma. Os olhos sanguíneos, vermelhos, denunciavam-lhe a descendência racial direta dos quilombolas.

sexta-feira, 14 de março de 2014

OBSESSÃO


Quem tem culpa de sangue, caminha cambaleante, assim de lado, com as pernas pensas, como se portasse uma dor, uma agulha na carne. Tal e qual num poema de Leminski:

Carrega o peso da dor,
Como se portasse medalhas, 
Uma coroa, 
Um milhão de dólares 
Ou coisa que os valha.

sexta-feira, 7 de março de 2014

A MOÇA QUE FOI AMALDIÇOADA E VIROU UMA CACHORRA

Imagem do Blog  Grocery Store Feet

A menina era linda, bem-educada, filha única de coronel, por isso, muito mimada. Criava desde novinha, com todo o carinho do mundo, uma cachorrinha de estimação, que cuidava como se fosse uma filha.

Aconteceu que no mesmo dia em que o padre Cícero Romão morreu, a cachorra também adoeceu, assim duma hora pra outra, e também morreu, a bichinha. A menina, muito mimada, ficou muito triste, acabrunhada e chorosa. Inconsolável, preparou para a cachorrinha um velório com vela, sentinela e tudo o mais.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A VISAGEM


Seu Dedé jantava na boquinha da noite e ia pro alpendre prosear com os vaqueiros, tomando um cafezinho de vez em quando, que era pra espantar o frio. Gostava de ficar contando histórias de assombração e de visagens. E tinha cada história, que só vendo mesmo. O pessoal ficava no alpendre até altas horas da noite. Mas antes de ir se deitar, Seu Dedé exigia outra refeição. Dizia que não era bom ir dormir de barriga vazia, pois quem vai dormir de bucho seco sonha com as almas penadas. E o pior é que ele comia muito e ia se deitar de barriga pra cima, resfolegando. A mulher dele já tava cansada de dizer pra ele que esse negócio de deitar de barriga pra cima é muito perigoso.

- A Pesadeira vem sentar em cima da barriga da gente.

A Pesadeira é o pavor das noites. É uma feiticeira encantada, na verdade uma bruxa velha e feia, amarelada e fedorenta a carniça, com o queixo virado pra cima, que tem na cabeça um lenço vermelho e às vezes aparece com os cabelos desgrenhados. É muito magra, tem os dedos cumpridos e secos, com cada unhão! E quando a gente acaba de comer e vai dormir de bucho cheio, e fica de barriga pra cima, ela desce do telhado e senta no peito da gente, que é pra comer a comida que tá sobrando na barriga do guloso. Por isso que a gula é um pecado capital. E o cabra que come muito sem precisão, enquanto tem um monte gente que vai dormir sem comer, a Pesadeira vem se sentar em cima do comilão. A Pesadeira costuma gargalhar enquanto tenta sufocar a vítima. Uma gargalhada pavorosa, mas que só o atacado consegue ouvir.

Seu Dedé ficou meio cabreiro com aquela história e não conseguiu dormir naquela noite. Ficou se revirando sem conseguir pregar o olho. Só gostava de dormir com a barriga pra cima e tinha medo que a qualquer momento a Pesadeira descesse do telhado. Ele amanheceu acabado, os olhos vidrados de sono. Não falou com ninguém o dia todo. Quando à noitinha foi jantar, comeu só um tiquinho de nada.

- Dedé, num vai comer aquela jaca não? A bicha já tá madura que faz é gosto de ver.

- Ôxente, muié! Tu é doida? Quer que a Pesadeira venha sentar ir riba da minha barriga?

Foi dormir cedo, com a barriga pra baixo, encolhido.

Outra coisa, não, mas comer demais antes de dormir, e contação de história de visagens nunca mais se ouviu naquela casa.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O CHEFE - Ou o dia da grande cagada



Essa, verdadeiramente, é uma história real. Embora a princípio inverossímil, aconteceu na década de 70 em um órgão público, aqui em Fortaleza. Os mais velhos ainda se lembram do episódio que ficou conhecido como o dia da grande cagada.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O LUBISÔME



Eu nunca antes havia acreditado nessa história de lubisôme. Onde já se viu uma pessoa virar um bicho? Mas teve um dia que mudei minha opinião sobre esse assunto. E foi da maneira mais assustadora possível.

Eu costumava caçar no meio do mato só com a companhia do cachorro. Apenas o silêncio era cortado de vez em quando com chilros de pássaros: ora um bem-te-vi, ora um casaca-de-couro, ora a sombra preta de um anum, soltando seu piado agourento.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O CORNO QUE TROCOU A MULHER POR UM RÁDIO


Radio Semp Pt 76 (1940) - o par de chifre é acessório opcional


- Seu Joaquim, a tua muié ta te butando chifre! Te alui, fidumaégua!

- Conversa é essa, macho! A minha Dasdô é muié dereita, trabaiadora. Essa hora ela tá lá em casa fazendo tricô, tadinha.

- Tá fazendo tricô, mas é com os zóvos do teu vizinho, o Zégeraldo!

- Aí dento! O Zégeraldo é meu cumpade. Caba bom e é meu amigo de muito anos!

- Deixa de ser abestado e vai lá pegar os dois se abufelando! Corno féladaputa!

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

FANTÁSTICAS HISTÓRIAS DE CHUVA

Enchente do Rio Acaraú (1924)


Quando ribombavam trovões e relâmpagos, rasgando o céu todo cacheado de nuvens roxas, preto-azuladas, cor de chumbo, como se fossem gigantescas montanhas no horizonte, o chão tremia balançando as paredes da casa velha e trepidavam as panelas na velha bateria de alumínio na cozinha.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

TRÊS POEMAS PARA MERCEDES


TELEFONE
Depois de falar, desligamos.
E nossa conexão era tal em certos dias, que intuitivamente,
Com muita certeza,
Levantávamos o telefone e,
Podíamos sentir nossos corações através do aparelho.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

TUDO DE NOVO OUTRA VEZ



Logo cedo pela manhã do dia primeiro de janeiro de 2014, saio para o trabalho, como de costume, da mesma maneira como já o fiz repetitivamente nos mais de trezentos dias de 2013. Durante o trajeto, vejo pessoas eufóricas, esperançosas, revigoradas, cujas bocas têm já o formato de felizanonovo, de tanto o repetirem, quase à exaustão. Vez em quando vem um, surgindo do nada, bate de leve no meu ombro e deseja mais uma vez um “feliz ano novo”. Já outros me atalham com os braços abertos, abraços apertados, com as bocas escancaradas, beijos exagerados na testa e afagos efusivos. Assusta-me aquilo. Vejo neles o semblante mudado, os olhos vívidos, marejados, vampirescos, fora das órbitas, como se fossem zumbis. Certamente, estão já contaminados com a histeria coletiva do novo ano.

O CANHÃO DO EMÍLIO SÁ CONTRA A JAGUNÇADA DO PADRE CÍCERO

Vendo passar o padre, com o pesado bordão com que costumava andar, seguido de um bando de fanáticos, disse: “Ali vai um missionário;...