sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

FANTÁSTICAS HISTÓRIAS DE CHUVA

Enchente do Rio Acaraú (1924)


Quando ribombavam trovões e relâmpagos, rasgando o céu todo cacheado de nuvens roxas, preto-azuladas, cor de chumbo, como se fossem gigantescas montanhas no horizonte, o chão tremia balançando as paredes da casa velha e trepidavam as panelas na velha bateria de alumínio na cozinha.

Seu Alfredo, meu avô logo saía para o alpendre, abraçando com carinho dona Rita, minha avó, que encolhida de frio, se enrolava da cabeça aos pés numa colcha de retalhos. Satisfeitos, encantados, olhos translúcidos, ambos assistiam maravilhados ao espetáculo da chuva torrencial, que sem trégua, desabava desde a noite anterior, escavucando o chão, arrebentando valas no barro vermelho, alagando o solo, inundando as veredas e certamente sangrando o açude. Certamente.

- Menino! – era a interjeição de meu avô quando algo lhe impressionava. Era como se ele estivesse ralhando com os céus, admirado e ao mesmo tempo agradecido pela quantidade de água que presenciava, nunca vista antes pelos mais jovens, ali pelas bandas do sertão do Vale do Acaraú, castigado pela seca.

Aí começavam as histórias.

- Só vi um inverno desses, quando daquela vez, quando eu enfrentei uma inundação da peste. O rio Acaraú encheu tanto que parecia um mar. Muita coisa ficou debaixo d’água. O povo dizia que no meio da noite aparecia de vez em quando um navio enorme, um galeão espanhol, vindo do nada, à deriva no meio da noite, como um fantasma por cima das casas.

- Tu se alembra, minha véia?

A mulher preparando um cafezinho quente pra espantar o frio, assentia e fechava os olhos, como se fosse para rebuscar nos calendários imaginários das cangalhas do tempo, histórias antigas contadas pelos vaqueiros nos tempos imemoriais. Os trovões ribombavam outra vez, o céu relampejando, golpeando o horizonte, o chão tremendo que dava medo.

Nas noites de chuva grossa ele sempre vinha com umas histórias e narrativas extravagantes, como o intrigante caso de uma mulher grávida que, numa noite de chuva torrencial, para o espanto de todos, pariu um enorme peixe, um camurupim, bem gordo. Aquele peixe tinha uns quarenta quilos. A mulher quase morre de sangramento. Foi um alvoroço medonho na cidade. Aí quando ela pariu, o bicho falou com voz de gente, anunciando que uma tromba d’água iria inundar todo o vale e que não iria sobrar ninguém. Naquela mesma noite o peixe foi solto dentro do rio Acaraú e foi por causa disso que a tragédia não aconteceu, afirmaria por muitos anos depois, a mãe do peixe.

Meu avô contava muitas histórias como essas. Muitas narrativas, que segundo ele mesmo tinha protagonizado e muitas outras que teria escutado quando criança. Tinha dons igualmente extravagantes e assustadores. Dizia-se, que tinha uma estranha proeza: pegava uma faca e apertava o cabo com força e pela ponta vertia um líquido da cor de café que enchia uma xícara, não se sabe do quê. O povo presenciava tudo aquilo admirado e de vez em quando aparecia um gaiato pra jogar água na fervura.

- Êita que o seu Alfredo é chêi das lorota! Pense num véi pra mentir!

- Tá duvidando de mim, cara de soín? – respondia ele, sem dar muita atenção, já emendando outra narrativa, mais inverossímil ainda do que a anterior.

Meu avô era um homem alto, magro, meio alourado de olhos claros. Morreu de um mal estar repentino ainda em cima do cavalo. E não era pra menos, pois já contava cento e sete anos. Diz-se que o animal se ajoelhou para que pudessem desmontá-lo. Já estava morto. Na hora do enterro, quiseram-lhe quebrar as pernas, pois não havia esquife para o tamanho dele. Antes disso, apareceu um homem, um mestre carpinteiro, que se propôs a fazer um caixão na medida certa do homem.

- Um hôme trabaidô e honesto como seu Alfredo, não pode chegar lá no Céu, pru mode falar com Nosso Sinhô, com as pernas quebradas, de jeito manêra!

Por causa desse imprevisto, o enterro foi adiado e deu tempo de chegar um de seus filhos que morava distante e que achava que não iria chegar a tempo, mas chegou.

Quando chove e os trovões e relâmpagos esbravejam no céu, emergem do imaginário do sertão essas histórias fantásticas, eventos intrigantes, casos deslumbrantes, além de nossa imaginação. E meu avô por certo, se fosse vivo, estaria agora contando suas assombrosas histórias das noites de chuva no sertão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A MENINA

Um homem estava sentado no banco da praça, absorto com o seu jornal, que nem se deu conta daquela mulher que se aproximava dele, c...