sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O CHEFE - Ou o dia da grande cagada



Essa, verdadeiramente, é uma história real. Embora a princípio inverossímil, aconteceu na década de 70 em um órgão público, aqui em Fortaleza. Os mais velhos ainda se lembram do episódio que ficou conhecido como o dia da grande cagada.

Genovaldo era um desses sujeitos extrovertidos, inconvenientes, machistas e piadistas incorrigíveis. Perdia o amigo, mas não perdia a piada. Não respeitava nada nem ninguém. Um verdadeiro iconoclasta. Fazia brincadeiras de mau gosto com tudo e com todos, sabia um rosário de imprecações e adorava contar piadas de humor negro. Já tinha causado grandes estardalhaços na repartição pública em que trabalhava. Principalmente nas festas de fim de ano e de aniversariantes do mês, ele sempre fazia das suas, sem cerimônia, causando constrangimentos em quem quer que fosse. Como era concursado e funcionário público de carreira com mais de trinta anos de serviço, o mais que pegava era uma advertência verbal de seus superiores, o que ele logo transformava numa piada e ficava o dito pelo não dito.

Certo dia foi anunciado que um novo chefe havia sido nomeado, convidado pessoalmente pelo governador, exatamente para o setor em que o dito cujo piadista trabalhava. Esse novo chefe anunciado para o setor de Genovaldo, dizia-se, era um homem sisudo, sério e que não gostava de piadas nem brincadeiras no ambiente de trabalho. As coisas não iriam ficar muito confortáveis para o folgazão. Aí o pessoal começou a tirar o couro do Genovaldo.

- O doutor Vicente tá vindo na próxima semana! Num tome cuidado, não! O doutor Vicente num gosta de brincadeira! O doutor Vicente tá vindo aí pra botar moral!

Era “doutor Vicente” praqui, “doutor Vicente” prali. O Genovaldo não aguentava mais ouvir aquela história de “doutor Vicente”. Ele tava doido pra conhecer o tal do novo chefe. De uma forma ou de outra, ele dizia que iria colocar esse tal de “doutor Vicente” na roda das piadas infames. Esse dotôzim vai é se vê comigo! Ora se num vai! – dizia em tom desafiador.

O fato é que os meses se passaram e nada do novo chefe chegar. O Genovaldo, como sempre, continuou com a sua habitual canalhice. Uma das brincadeiras de mau gosto que ele mais fazia era entrar de repente no banheiro de porta adentro, mesmo que houvesse alguém no vaso sanitário, sentando de surpresa em cima da pessoa. 

- Sai do mêi senão eu cago na tua cara! – gritava, soltando escandalosa gargalhada. Dizia que era pra empatar a cagada do infeliz. Mas foi aí que ele se fudeu. O tão anunciado doutor Vicente enfim tinha chegado. 

Como Genovaldo sempre chegava atrasado, na hora em que bem entendia, não foi apresentado ao novo chefe. Nesse dia, precisamente, ele realmente tinha comido muita panelada no Mercado São Sebastião e estava enjoado, passando mal da barriga. Como sempre, pilhérico, adentrou apressado no banheiro, escancarando a porta de repente, sem que os colegas tivessem tempo de lhe avisar que o doutor Vicente estava ali, justamente fazendo suas necessidades. Não me pergunte como, mas ele sempre tinha um jeito de abrir a porta, mesmo fechada por dentro. 

- Sai do mêi senão eu cago na tua cara! - gritou como de costume e por uma infame coincidência do destino, cagou mesmo, logo em cima do novo chefe. A merda saiu-lhe como um jato, bem na cara do surpreso e indefeso doutor Vicente, que realmente não percebeu o que estava acontecendo. O jato de merda lambuzou o pobre homem dos pés a cabeça, deixando-o em uma vexatória e surreal situação nunca vista e nunca presenciada por tantas pessoas. 

O fedor de bosta e os estampidos das bufas invadiram todo o recinto, causando terrível alvoroço entre os colegas de trabalho. Genovaldo totalmente surpreso, completamente sem graça, com a cueca abaixada até os tornozelos, estava estatelado no chão do banheiro, completamente encharcado de mijo e bosta. Quanto ao doutor Vicente, coitado, estava com merda descendo da cabeça aos pés, encolhido em um canto, por detrás do vaso sanitário, tentando inútil e freneticamente se limpar com o rolo de papel higiênico, tentando falar com alguém, gesticulando e grunhindo palavras desconexas, regurgitando a nauseabunda diarréia viscosa, uma caganeira amarela e insuportavelmente mal cheirosa. Um dantesco quadro de horrores.

Depois disso, Genovaldo foi sumariamente afastado de suas atividades. O infeliz e envergonhado doutor Vicente, solicitou transferência para local ignorado e não sabido. Dizem que logo depois do hilário episódio, o então governador mandou publicar uma portaria proibindo o consumo de panelada pelos servidores, antes ou durante o horário de trabalho, sob risco de serem exonerados de seus cargos. 

Ou de serem cagados em pleno exercício de suas funções.

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