sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A VISAGEM


Seu Dedé jantava na boquinha da noite e ia pro alpendre prosear com os vaqueiros, tomando um cafezinho de vez em quando, que era pra espantar o frio. Gostava de ficar contando histórias de assombração e de visagens. E tinha cada história, que só vendo mesmo. O pessoal ficava no alpendre até altas horas da noite. Mas antes de ir se deitar, Seu Dedé exigia outra refeição. Dizia que não era bom ir dormir de barriga vazia, pois quem vai dormir de bucho seco sonha com as almas penadas. E o pior é que ele comia muito e ia se deitar de barriga pra cima, resfolegando. A mulher dele já tava cansada de dizer pra ele que esse negócio de deitar de barriga pra cima é muito perigoso.

- A Pesadeira vem sentar em cima da barriga da gente.

A Pesadeira é o pavor das noites. É uma feiticeira encantada, na verdade uma bruxa velha e feia, amarelada e fedorenta a carniça, com o queixo virado pra cima, que tem na cabeça um lenço vermelho e às vezes aparece com os cabelos desgrenhados. É muito magra, tem os dedos cumpridos e secos, com cada unhão! E quando a gente acaba de comer e vai dormir de bucho cheio, e fica de barriga pra cima, ela desce do telhado e senta no peito da gente, que é pra comer a comida que tá sobrando na barriga do guloso. Por isso que a gula é um pecado capital. E o cabra que come muito sem precisão, enquanto tem um monte gente que vai dormir sem comer, a Pesadeira vem se sentar em cima do comilão. A Pesadeira costuma gargalhar enquanto tenta sufocar a vítima. Uma gargalhada pavorosa, mas que só o atacado consegue ouvir.

Seu Dedé ficou meio cabreiro com aquela história e não conseguiu dormir naquela noite. Ficou se revirando sem conseguir pregar o olho. Só gostava de dormir com a barriga pra cima e tinha medo que a qualquer momento a Pesadeira descesse do telhado. Ele amanheceu acabado, os olhos vidrados de sono. Não falou com ninguém o dia todo. Quando à noitinha foi jantar, comeu só um tiquinho de nada.

- Dedé, num vai comer aquela jaca não? A bicha já tá madura que faz é gosto de ver.

- Ôxente, muié! Tu é doida? Quer que a Pesadeira venha sentar ir riba da minha barriga?

Foi dormir cedo, com a barriga pra baixo, encolhido.

Outra coisa, não, mas comer demais antes de dormir, e contação de história de visagens nunca mais se ouviu naquela casa.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

ATRAVÉS DA JANELA

​ Como fazia todos os sábados, lá pelas onze horas, onze e meia, o velho advogado chegava ao bar e sentava numa mesa - quase cativ...