sexta-feira, 16 de maio de 2014

MEMENTO MORI


"Memento mori" - Albrecht Dürer(1471-1528)

Hoje presenciei uma cena degradante de um homem extremamente mal humorado. Contorcia-se, esse homem, em sua ira, como se fosse parte dele a raiva, tal como se fosse um membro a mais no seu corpo, que o tornava vermelho, os olhos injetados como um vampiro, enquanto que a jugular pulsando, saltava-lhe como a destilar o ódio.


Juntamente com essa cena desprezível observei também que o momento parou, como se eu estivesse observando em câmera lenta, eternizando o mal humor numa janela. O tempo parou naqueles segundos de ira.

A vida não era para ser assim, dessa maneira. O mal humor é algo infeccioso e parasitário como a febre tifoide. O mal humor não deixa espaço para ver a luz filtrada por entre as folhas das árvores ou a estrada de luz que o reflexo da lua desenha na água. Com o mal humor perdemos aquele quadro de estupefação que nos invade no momento em que observamos algo extremamente belo, ou quando experimentamos um momento de imensa felicidade. Apenas um momento.

Mas esse momento passa rápido. Uma fração de segundos, um nada. Nunca mais o veremos de novo, pois não podemos captá-lo outra vez. Para experimentá-lo novamente, temos que esperar, pois não sabemos quando a natureza vai de novo nos presentear com essa dádiva misteriosa.

O miserável homem mal humorado também passa. Tudo passa.

Estupefatos e despertos, somos arrancados da realidade pela consciência de que todas as coisas são transitórias, sabendo da efemeridade da beleza do mundo, das filosofias, das artes e de tudo à nossa volta.

De súbito entendemos o real significado da expressão "memento mori": lembremos de que tudo morrerá, de que este momento morrerá, de que esta flor, este rio, o pôr do sol, o vento, as manhãs, os jovens, tudo o que conhecemos morrerá.

Memento mori: lembremo-nos de que esse momento morrerá.




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