sexta-feira, 11 de julho de 2014

A CIDADE DESERTA



Uma vez voltei ao lugar antigo da minha infância antiga. Era um lugar de céu aberto, ensolarado, de manhãs de azuis intermináveis, onde árvores verdes deitavam suas sombras nas calçadas anchas pela tarde inteira.

Onde outrora era campo aberto, encontrei concreto. Andei à esmo, em busca do passado, para ver se via se ainda os lugares tinham permanecido intactos. Achava que poderia ainda sentir algum aroma antigo, tangerina, abacaxi, bolo de baunilha.

As ruas tinham mudado até de sentido. O que eu pensei que estava ali, estava noutro lado, opostamente colocado contra as lembranças. Não havia mais ninguém. A cidade vazia não me esperava.

Onde está o Zé Maria da banca de revistas? Não soube? Morreu. Infarto fulminante numa bela manhã de sábado.

O Germano, meio índio, que consertava todo tipo de eletrodoméstico sem nunca ter feito sequer um curso, também tinha morrido bem jovem.

Aquele campo enorme, descampado, onde à noite avistávamos as constelações, onde está? Hoje está ocupada por um prédio de apartamentos, mal a encontro.

Aquela nossa professora, quem nem mais o nome lembro? Ainda mora aqui? - Sumiu um dia. Dizem que foi por aí, embarcada numa dramática desilusão amorosa. Enlouqueceu, perdeu o prumo. Nunca mais se soube dela o paradeiro.

Mas o professor Epaminondas, que era militar do Exército, que nos obrigava a cantar o Hino Nacional, ainda mora aqui, não mora? - Que nada! Foi transferido daqui. Mora agora nos confins de algum desses lugares distantes do norte do País.

E o colégio onde estudávamos? Como está agora? - Fechou. Não existe mais.

Então não sobrou ninguém para que possamos conversar, relembrar os tempos de nossa meninice, um lugar onde possamos tomar um café? - Na verdade, não.

Foi então que percebi que eu não pertencia mais àquele lugar. Outras pessoas ocupavam as ruas que eram nossas, as calçadas sombreadas onde brincávamos nas tardes ensolaradas de verão, e as estrelas, ora, as estrelas eram outras. Uma a uma as coisas vão sumindo.

Foi então que eu percebi que eu mesmo me tinha ido embora.




Um comentário:

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