sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A LUZ MISTERIOSA DE CANINDÉ



Aqui no meu Ceará, na bela cidade de Canindé, numa localidade chamada Salgado Ingá, anda aparecendo umas histórias de uma luz misteriosa que vem atacando as pessoas no meio da noite. Dizem que essa luz surge por detrás de uns montes e voa baixo, silenciosamente pelas estradas à noite, assustando os agricultores que já andam apavorados com a seca medonha que campeia no meio dos roçados, sem falar na situação caótica por que passam as cidades do interior cearense, reféns da violência urbana, assaltos a bancos, tráfico de drogas e todo tipo de crime. E agora, mais essa luz misteriosa!


Uma pobre e esbaforida moradora de Salgado Ingá disse que ficou cara a cara com a aparição da luz misteriosa. Ela disse que viu na noite anterior “...uma tocha vermelha muito forte, e ela ficou parada. Eu bem poderia descrever como um disco-avuadô, uma coisa que eu nunca vi”. Como ela poderia descrever como um disco-voador se ela nunca viu um, é outro mistério. Aliás, de qualquer modo, desconfio às pampas desses mistérios que aparecem em pleno ano eleitoral. Vai ver, não me admiraria, deve ser algum bandido da luz vermelha à cata de votos.

Eu fui lá em Canindé para conferir de perto essa história. A localidade onde aparece a tal da luz misteriosa fica no meio do matagal, onde o cão perdeu as botas. O perigo mesmo é encontrar alguma quadrilha de assaltantes fugindo da Polícia, se escondendo por aquelas bandas. Andam explodindo bancos em quase todo o Estado do Ceará, como se aqui fosse uma terra sem lei, como se morássemos no velho oeste dos filmes de Hollywood. Aliás, estou quase certo que o Ceará se tornou mesmo uma terra sem Lei, onde os fracos não têm vez, jogados na imensidão de uma terra seca, abandonada pelos sucessivos governos que saqueiam os cofres públicos ano após ano, deixando o povo no meio da peleja de Deus e o Diabo na Terra do Sol.

Lá em Salgado Ingá fui conversar com o povo sobre a tal da luz misteriosa. Uma mulher aflita disse quando ligou pra rádio de Canindé que tinha presenciado a luz mal-assombrada.

- Aquela luz grande, aí quando vai abaxando, ele diche que num abaxô, pruquê ele aumentô a velocidade da mota mais a muié e as criança. Fica aquela quentura medonha quando vai abaxando. Muita gente lá num sai mais de casa com medo...num sabe o que é!

Aí apareceu um homem que disse que sabia o que era a tal luz. Esses homens acostumados com o sertão, lavradores, ferrador de gado, sábios por natureza, que não gostam de mentiras nem de conversa fiada. Ele disse que essa luz não tem nada de disco-voador.

- Essa luz, eu sei o que é, sim sinhô! Essa luz é São Francisco de Canindé vigiando o povo! Aqui no Canindé tá a maior disgraceira da peste com esse negóço de droga de desse tal de bolsa-família! O povo num quer mais trabaiá é de jeito manêra! Os mininos num querem mais estudar! Quando num tão aviciado em crack ou bebendo cachaça, tão nesse negóço de fêicibuque e zap-zap falando da vida alheia! Essa luz aí que anda aparecendo em Salgado Ingá num é nada mais nada menos do que São Francisco com sua lanterna alumiando o sertão do Canindé, pra ver se salva alguma alma boa, que é pru mode o sertão miorá!

O velho tomou um gole de café quente. Se benzeu e subiu na montaria, pois já tava na hora de ir pro açude buscar água pra molhar a plantação.

- Esse ano a seca tá medonha e se a gente num cuidar do roçado num vai ter farinha, nem rapadura nem feijão para encher o bucho. Saco seco não se põe de pé.

Pura verdade. Ele está coberto de razão. Acabou-se o que era doce. O povo foi para suas casas acender velas para São Francisco de Canindé e rezar para Deus se apiedar do Ceará calcinado pela seca. Domingo vai ter novena e é certo que São Francisco vai estar lá para alumiar as estradas solitárias do sertão.



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