sexta-feira, 8 de agosto de 2014

OS MISTERIOSOS ROCHEDOS DE QUIXADÁ



O anoitecer lá é um grande mistério.

Primeiro o céu todo, no horizonte, fica tingido de matizes multicores: uns azuis amarelados, verdes avermelhados, cúmulos rosáceo-alaranjados, nuvens cinzas transparentes esgarçadas como algodão, coroam os rochedos sombreados que despencam vertiginosamente sobre o vale. As águas do açude, ainda refletindo os últimos raios fugidios de sol, espelham também as enormes sentinelas de pedra centenárias, libertando espectrais gemidos dos mortos, levados pela fria aragem noturna.

Você está em Quixadá.

Quando a noite então ali se instala, o pretume toma conta de tudo, mal dando para enxergar os caminhos pedregosos e tortuosos no meio do matagal. Então carece de se ter cuidado para saber por onde se andar naquele lugar. Naquela extensão a se perder de vista, encontra-se então um deserto medonho, habitado por solenes e gigantescos monólitos, que se elevam do solo, prisioneiros da solidão centenária, erguendo para o céu salpicado de miríades de estrelas, seus longos pescoços fantasmagóricos. E do meio dos temíveis rochedos, ouve-se atemorizado, murmúrios confusos, como se fossem murmurejos saídos das entranhas da terra seca. E os penhascos imponentes e melancólicos, voltam-se uns para os outros, em um abraço descomunal, arquejando na desolação do vale.

Lá nem chove. Mas quando chove, é possível presenciar sombras fantasmagóricas dos monólitos estilhaçando-se por sobre o deserto tenebroso e belo, relâmpagos colossais iluminando até o fim infernal dos precipícios, trovões descomunais tremem repetidas vezes o assustador bombardeio nas rochas encharcadas pela torrente.

Sabe-se que no meio da noite, avistam-se luzes misteriosas que rondam o cume dos rochedos. Pessoas já foram subtraídas pelas luzes e voltaram mudadas para sempre, enlouquecidas, rejuvenescidas e adoecidas de puro pavor. Por certo, teriam sido levadas até os confins dos abismos do outro mundo e devolvidas não se sabe o porquê.

Sentemo-nos extasiados à sombra dos monólitos. Quem sabe, porém é certo, que um dia não nos veremos mais.

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