sexta-feira, 6 de março de 2015

O HOMEM NO OUTRO LADO DA JANELA


O fotógrafo Anton Giulio Bragaglia e o seu "Doppelganger" em 1913


O Diabo às vezes permeia a sua sombra nefasta entre nós de forma sutil, mas neste caso específico, engendrou ele uma diabólica maquinação. Verdadeiramente, divertimento para ele é causar confusão e disparates. 

Mas, se isto for mesmo obra do Diabo, como diz dona Glória, entronizada em seus já setenta anos de existência, no ofício de secretária já há mais de cinquenta anos, não é nada de se duvidar, afinal, alguém que chegue são e salvo aos setenta e é certo que já tenha visto todo tipo de coisas neste mundo. E se ela diz que o que se passará, é coisa do Diabo, convenhamos, é melhor acreditar, pois outra explicação não há.

Nos anos setenta, dona Glória trabalhava em uma repartição pública. Eu trabalhava no mesmo lugar, servindo o cafezinho e fazendo serviços gerais. Ao lado dela, um senhor muito distinto de nome Osmundo, sentava-se numa mesa que ficava defronte a uma enorme janela de onde se podia ver a praça da matriz. Quando ele se desvencilhava dos afazeres burocráticos, por volta do meio-dia, gostava de sentar-se junto à janela para ver a vida passar, conforme ele mesmo dizia para ela.

Foi em um desses dias que ele, visivelmente assustado, chamou a atenção de dona Glória. Lá na praça ele viu a si próprio sentado em um dos bancos. O outro vestia a mesma roupa que ele naquele momento. Dona Glória disse-lhe que podia ser alguém muito parecido, quem sabe até um irmão gêmeo. O senhor Osmundo ficou muito perturbado com aquela visão, afinal ele não tinha irmão algum, que dirá um gêmeo. Desceu até a praça, mas não encontrou ninguém, o que era de se esperar. Dona Glória o tranquilizou dizendo que não se afobasse por causa daquilo. Ele, no entanto, confessou para ela que não era a primeira vez que tinha visto a si próprio lá na praça. Geralmente sempre às sextas-feiras, era certo que o “outro” estaria lá. 

Diante daquela confidência, dona Glória preocupou-se pela saúde mental do senhor Osmundo, mas não lhe disse nada. 

No decorrer do tempo em que o senhor Osmundo trabalhava lá, invariavelmente dona Glória o encontrava petrificado diante da janela, miseravelmente esgotado e de uma palidez mortal. A visão de si próprio o tinha causado um estrago enorme em sua fisionomia. De um homem robusto e bem afeiçoado, tornou-se esquálido e de aspecto doentio.

Foi então que ela se lembrou do fenômeno chamado “Doppelgänger”. De acordo com a lenda, o “Doppelgänger” é uma criatura que se torna um clone de alguém e que anuncia maus augúrios, já que “a pessoa vê sua alma se projetando para fora do corpo”. Em determinadas circunstâncias, se esta criatura for avistada também por outra pessoa, significa que haverá má sorte e sérios problemas físicos e emocionais. Já para quem avistar a própria cópia, está fadado para um destino cruel que o levará à morte iminente e em alguns casos, para a loucura e para o esquecimento. É claro que dona Glória não lhe falou nada sobre isso. Melhor seria se o dissesse. Teria talvez evitado o pior. 

Com o passar do tempo o senhor Osmundo praticamente deixou de ir ao trabalho. Ninguém mais o encontrava em lugar nenhum. O mais estranho é que quase ninguém mais se lembrava dele, como se ele jamais tivesse existido. A própria dona Glória se recordava vagamente dele e fazia um esforço enorme para se lembrar de sua fisionomia. 

Com o desaparecimento do senhor Osmundo, dona Glória instintivamente mudou-se para a mesa que era dele, pois ficava defronte para a janela que dava para a praça da matriz. Certa vez, em um dia atarefado, perto do meio-dia, numa sexta-feira, olhando pela janela enquanto se servia de café, ela viu a si própria cruzar a praça e sentar-se em um dos bancos. A miserável mulher estremeceu até a raiz da alma. Soltou a xícara e a garrafa de café, que estrondou no chão, espatifando-se em mil pedaços. As pessoas correram para ver do que se tratava aquele barulho, mas nada encontraram a não ser a xícara e a garrafa espatifada no chão e quase todo o café derramado próximo à janela. Deve ter sido o vento, disseram, em seguida fechando a janela.

Como eu trabalhava nos serviços gerais, fui chamado para por ordem no estrago. Enquanto limpava a sala, senti um forte cheiro de alfazema e leite de rosas. O perfume agridoce penetrou insistentemente na sala. Achei que fosse do produto que eu estava utilizando na limpeza, mas repentinamente me lembrei que era o perfume característico de dona Glória. 

Espere...quem é dona Glória?







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