terça-feira, 16 de junho de 2015

O bode Dezessete



O bode é um dos bichos mais parecidos com gente que dá até medo. Certa vez meu avô Alfredo me contou uma estranha e curiosa história. 

Ele criava no quintal um bode pai de chiqueiro, dez cabras leiteiras e cinco cabritinhos que somavam no total dezesseis bichos, conforme ele tinha contado antes de ir pra feira, naquele sábado. Quando ele voltou, lá pras bandas do meio-dia, contou dezessete, tendo inclusive, outro bode macho, bonito, imponente, o pelo todo preto, lustroso e os olhos amarelos.

- Ôxente! Da donde apareceu eche bicho? Eche bicho num é meu, não!

Contou os bichos mais uma vez pra ver se tinha contado direito. Chamou minha avó, dona Rita.

- Ô Rita, minha véia, a gente contou dezesseis bichos, contando com os cabritim novos, num foi? – Minha avó assentiu, confirmando, enquanto estendia umas roupas no varal.

- Pois olhe eche estrupício aqui – apontou para o bode preto que ruminava impassível, observando tudo, com os olhos amarelados fixos em minha avó.

- Ôxente, hôme de Deus, que bicho é eche, Alfredo meu véi?

- E eu sei lá! Apareceu aí do nada!

- Vai ver eche bicho te seguiu da feira até aqui. Vai ter que voltar lá pra devolver pro dono, seu Alfredo!

- Me seguiu nada, muié! Comé que eu num ia notar um troço desse tamanhão atrás de mim a viagem toda?

O fato é que meu avô voltou na feira para ver se alguém andava procurando aquele pai de chiqueiro, mas ninguém tinha perdido nenhum bode daquele tamanho. Bonito como era, teve foi gente querendo comprar o bicho. Meu avô voltou com o bode pra Jurema já com a ideia de ficar com ele uns tempos até para cruzar com as cabras e aumentar a criação, até o dono aparecer para buscar. Meu avô botou o nome dele de Dezessete.

O bode não gostava de ficar no chiqueiro junto com os outros bichos e vivia dentro de casa mesmo. Onde meu avô ia, o bode estava atrás. Parecia até gente. No começo meu avô ficou meio cabreiro, mas depois se acostumou. De tarde, depois do almoço, o bicho dormia debaixo da rede de meu avô e tomava até café com ele. Minha avó reclamava do mal cheiro do bode, mas não tinha jeito. O Dezessete já tinha conquistado mesmo o coração de todos, apesar de tudo. Era teimoso que só a peste. 

O bodão sem cerimônia nenhuma ficou fazendo parte da família por um ano. O maior mistério mesmo foi quando ele desapareceu da mesma maneira como tinha surgido. Exatamente ao completar um ano. Havia chovido muito na noite anterior e no dia seguinte procuraram Dezessete por todo lugar e nunca mais o encontraram.

Coisas do sertão.



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