quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O HOMEM SENTADO

Caronte ilustrado por Gustave Doré, para a Divina Comédia.

Defronte para o nada, esquecido em sua própria solidão, de vez em quando “projetando a sua sombra magra, pensava no Destino e tinha medo”. 

Em sua cadeira de rodas, à noite, lia de Augusto dos Anjos, “As cismas do Destino”, com olhos opacos, “fecundando os ovos do vício”, gemendo como geme o arvoredo.

“Ninguém compreendia o seu soluço, nem mesmo Deus”! Ateu, já tinha posto de lado as quatro letras hebraicas do nome de Deus, esqueceu-as e as deitou enroladas nos pergaminhos ancestrais. Por isso, sabia que ali, sentado, imóvel, paralisado e com a alma vil algemada à cadeira de rodas, sabia que o Deus hebreu do tetragrama impronunciável, o castigava. Ia portanto, “de um abismo a outro abismo”, remoendo os erros do passado, réu confesso. Tinha a impressão de que ouvia um juiz que lia e relia o seu processo.

“Ninguém, de certo, estava ali para espiar-lhe”.

“Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes”, tal e qual o pesadelo de Gregor Samsa, deparou-se de pé no quarto, andando de um lado para o outro. Estava curado da paralisia que o atormentava. Não queria crer que Deus o tinha perdoado. Preferia sim, que fosse um demônio que o tivesse libertado da cadeira de rodas. Não queria o perdão de Deus. Não era um hipócrita.

“Desviou então a vista para a janela e deu com o céu nublado” que despencava suas nuvens sobre o mar da cor de chumbo. 

Arrastou-se até a porta como um verme, “este operário das ruínas”, tentado ir até o mar que há tempos não via, tencionando molhar os pés nas vagas frias. Com o andar destreinado, como se fosse “um fantasma que se refugia” nos cemitérios esquecidos, tropeçou no batente da porta aberta qual boca escancarada de um demente.

Caiu por terra, o infeliz, “sem o escândalo fônico de um grito, mergulhou a cabeça” no chão duro, espatifando-se como um vaso canópico do Egito. 

O Diabo não custou a cobrar-lhe o preço, o óbolo último do barqueiro, ouvindo o som característico da morte, “como um bemol e como um sustenido”.

Agora está sozinho de novo e imóvel. O mar a poucos passos dos seus dedos.



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