sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

A RUA CONDE D’EU DEU EM SANGUE



Porque o amor ao dinheiro é raiz de todos os males; 
e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmo 
se atormentaram com muitas dores. - 1 Timóteo 6:10



Na cidade de Fortaleza, a Rua Direita dos Mercadores, hoje Rua Conde D’Eu, era a zona do comércio de secos e molhados, dos cabarés, pensões altas ou alegres – como assim se dizia nos idos anos da década de 1950. 

Uma vez o Diabo, cheio de ciúme e avareza, arrastando desde as profundezas infernais o fétido manto negro embotado de cobiça, botou o olho em um homem de índole miserável que andava por ali, no meio daquele antro de prostituição e jogos de azar. Esse homem desprezível, já tinha sido um bem sucedido jogador de futebol, mas agora afundado em dívidas, daria o que lhe restava por qualquer preço que se lhe ofertasse, a sua pobre alma. O Diabo sorriu cofiando os bigodes. 

O Príncipe das Trevas então, seguro de que faria um bom negócio, ofertou ao homem um automóvel da marca Chevrolet 1950, de luxo, último modelo. Negociou-lhe ao pé do ouvido os termos do conchavo – e a alma seria dele, do Diabo – bastando para isso que o infeliz tirasse duas vidas. 

Com o coração cheio de cobiça e os olhos amarelados de ganância, o malogrado indivíduo exultou entre copos de zinebra e, sufocado pelo espesso fumo aziago, aceitou sem questionar nada, afinal ter a posse de robusto automóvel Chevrolet era seu sonho de consumo. E assim o fez conforme lhe ordenara o Mafarrico. Atraiu os dois rapazes, donos do luxuoso automóvel, com a justificativa que tinha a intenção de comprar o carro por um bom preço, o que seria à época a vultosa quantia de 145 contos de Réis. 

No dia Primeiro de Setembro daquele ano, levou os dois incautos e infelizes rapazes para um quarto de pensão que ficava na Rua Conde D’Eu para celebrar o contrato de compra e venda do veículo. Mal sabiam os dois que o próprio Satanás os seguia de perto, tripudiando e divertindo-se com o que haveria de acontecer. O patife e desprezível, sem dar a nenhum deles sequer uma chance de defesa, covardemente, mata-os com uma barra de ferro, escondendo os corpos em um guarda-roupa, levando-os depois para as dunas ermas e desertas na Barra do Ceará e decapitando-os, os enterra em covas rasas. 

Dias depois, passou a rodar com o carro pelas ruas da cidade, como se fosse mesmo o legítimo proprietário do automóvel. Mas ele só não sabia, nem sequer desconfiava que tudo o que o Diabo dá com uma mão, tira com a outra. No mês seguinte, precisamente no dia Treze de Outubro, o pavoroso e impiedoso crime foi descoberto, levando o desgraçado à condenação de trinta anos de prisão, segundo crônica policialesca da época. Há relatos também de que o destino do cruel assassino teve final semelhante ao de suas vítimas: no ano de 1968, dezoito anos depois do bárbaro crime, o monstro fora encontrado morto nas mesmas condições. Decapitado e trucidado como um porco. 

O Diabo, naquele caso, havia mais uma vez cumprido o seu sutil e vergonhoso papel. De tanto andar em derredor da Terra, como um leão que espreita sua caça, rugindo e procurando a quem devorar. 

Baudelaire já nos havia advertido certa vez que, existem a todo o momento de nossas vidas, duas postulações simultâneas: uma a Deus, outra a Satanás. A invocação a Satanás, ou animalidade, é uma alegria de precipitar-se no abismo.


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