sábado, 9 de setembro de 2017

ATRAVÉS DA JANELA




Como fazia todos os sábados, lá pelas onze horas, onze e meia, o velho advogado chegava ao bar e sentava numa mesa - quase cativa - bem em frente à janela, de onde se podia ver, com folga, a praça da Matriz. O dono do bar, seu Alfredo, gostava dele. Servia-o sempre o mesmo: uma garrafa de zinebra do Conde, “Gato Preto” e uma porção de queijo com azeitonas. Como aquele horário tinha pouco movimento, ele e seu Alfredo conversavam sobre quase tudo: mulheres, futebol e política, principalmente.

À medida que o bar ia enchendo, a mesa do velho advogado ficava repleta de gente, amigos e conhecidos que lhe vinham cumprimentar e ali, muitas vezes, entabulavam conversas e debates político-filosóficos que varavam toda a tarde.

Ele saía lá pelas quatro horas da tarde, curvado para um lado, como se portasse o peso de uma imensurável dor.

Naquele sábado, porém, ele chegou bem mais cedo do que o costume, às nove horas. O seu Alfredo estranhou o horário, mas não fez caso. Foi ao balcão buscar a zinebra e o tira-gosto e quando chegou à mesa, não o viu mais ali. Pensou que ele provavelmente saíra e voltaria na hora costumeira. Também não fez caso disso.

No entanto, o velho advogado, continuou sentado na mesma mesa e estranhou o seu Alfredo voltando para o balcão com a bandeja. Chamou-o, mas o homem não lhe deu ouvidos. Ele consultou o relógio e viu que ainda era bem cedo e achou melhor mesmo pedir na hora costumeira, lá pelas onze. Pôs-se então, sossegadamente, a olhar pela janela que dava para a praça da Matriz.

O céu estava de um azul fúlgido, sem nuvens, tão belo como jamais havia visto. Admirou-se também tanto das pessoas sentadas nos bancos da praça, da revoada dos pombos e da correria das crianças que brincavam ali, como nunca antes havia se admirado.

Começou a perceber coisas - com lágrimas nos olhos - que nunca antes havia percebido, como o humilde pipoqueiro nos seus afazeres, de uma tamanha simplicidade. O varredor da praça, com seu macacão laranja, na incansável batalha contra as folhas secas que se recusavam a serem ajuntadas e rodopiavam num redemoinho, como se brincassem com o paciente varredor, que não lhes dava atenção. O mendigo, maltrapilho, sentado em um banco, a mão estendida, invisível, impassível, de um invejável ascetismo, o comoveu profundamente.

Nunca tinha visto as cores da tarde, nem o verde vívido das árvores que balançavam com o vento, sequer o gritante e belo amarelo dos ipês-amarelos!

Abriu a janela para ver mais, para sentir o vento e o perfume das flores. Estava extasiado com tanta beleza e estupefato por não ter notado antes. Achou que estava ficando já meio bêbado, mas lembrou-se de que ainda não havia bebido nada.

Voltou sua atenção para dentro do bar, que já estava cheio. Chamou o seu Alfredo, acenou, mas não obteve resposta. Foi até o balcão e ao chegar próximo, simplesmente empalideceu ao ouvir o que diziam:

- O advogado matou-se hoje, de madrugada, no escritório dele, seu Alfredo! Acabei de vir de lá. O homem tá lá, morto, com uma bala na cabeça.

- Mas não é possível! – Disse o dono bar, incrédulo – Vi ele hoje de manhã aqui no bar! Ele tava sentado ali, na mesma mesa de sempre!

Todos olharam para a mesa. A janela que estava aberta, deixou entrar um vento morno que arrancando as tolhas das mesas, arrebentou os copos no chão - em tão súbito alvoroço – saindo da mesma forma como entrou, deixando para trás um zumbido, semelhante a um lamento de dor.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

O CANHÃO DO EMÍLIO SÁ CONTRA A JAGUNÇADA DO PADRE CÍCERO



Vendo passar o padre, com o pesado bordão com que costumava andar, seguido de um bando de fanáticos, disse: “Ali vai um missionário; amanhã um grande usurário; depois um perigoso revolucionário. ” E a profecia do sertanejo, feita quando o padre Cícero era um santo, realizou-se. (Manoel Bergström Lourenço Filho – in Juazeiro do Padre Cícero)



A Sedição de Juazeiro - como figura nos livros de História - foi um sangrento e cruel confronto ocorrido em 1914 entre as oligarquias cearenses e o governo federal provocado pela interferência do poder central na política estadual nas primeiras décadas do século XX. Ocorreu no sertão do Cariri, interior do Ceará, em reação à interferência do poder central contra a política do coronelismo. Sob a liderança de Floro Bartolomeu e do padre Cícero Romão Batista, um exército de jagunços, bandidos e cangaceiros derrotou as forças do governo federal, depondo Franco Rabelo. Naquela época, o padre Cícero já era idolatrado e considerado um homem santo, "fazedor de milagres".

Em 1922, o escritor cearense Rodolfo Teófilo – nascido na Bahia – publicou pela editora de Monteiro Lobato, um livro sobre esse triste episódio, A sedição de Juazeiro. 

No meio de toda essa história, quase esquecido, há o episódio do canhão do Emílio Sá, dono de uma padaria no centro de Fortaleza, que teve a ideia de fazer um canhão que seria, segundo ele, "a arma fatal para dizimar os rebeldes do padre Cícero". Segue-se o fato, com as próprias palavras do grande romancista e historiógrafo Rodolfo Teófilo: 

“Emílio Sá, para derrocar as fortificações do padre Cícero, mandou fundir um pequeno canhão nas oficinas do Sr. Alfredo Mamede. A pequena peça – julgava-se – poderia atirar bombas de dinamite no acampamento inimigo. (...) A fundição de um canhão em Fortaleza, foi um caso extraordinário; o transporte da peça ao Juazeiro, um lance de suprema audácia”.

A investida contra o exército de jagunços do padre Cícero foi um verdadeiro desastre. O canhão não funcionou como o esperado e virou chacota em todo o Juazeiro. Em 24 de janeiro de 1914 a jagunçada invadiu e tomou a cidade do Crato - sem antes deixar um rastro de violência e mortandade - sob as bênçãos do padre Cícero e da mão de ferro de Floro Bartolomeu. 

O canhão do Emílio Sá se tornou inútil contra o bando ensandecido do padre Cícero e foi abandonado na cidade de Barbalha. A jagunçada se apoderou da peça e a levou para ofertar como um troféu de guerra ao padre Cícero, que mandou enterrar na praça principal de Juazeiro, de boca para baixo, em sinal de desprezo pela inútil artilharia. 

- Esse canhão de boca para baixo, vai servir somente para as velhas baterem os cachimbos. – Disse o sacerdote, em meio à gargalhada geral da tropa.

Padre Cícero, e seu séquito de bandoleiros venceram o canhão e segundo eles próprios sob a bênção de Nossa Senhora das Dores que havia aparecido ao próprio padre Cícero e dito que nenhuma bala poderia feri-los e, se fossem mortos, ressuscitariam em três dias.

Rodolfo Teófilo, em seu livro, retrata assim o cenário daqueles dias: 

“A malta de criminosos não trazia bagagem, nem trem de espécie alguma. Dormia no chão, ao relento, e se alimentava do que ia roubando pelas estradas. Em caminho, praticava toda a sorte de depredações, abrindo cadeias e soltando criminosos, que a seu bando se incorporavam para, juntos, “pacificarem o Ceará”... Era a este bando de ladrões, de malfeitores, quase na sua totalidade de outros estados, especialmente da Paraíba, que o governo chamava “revolucionários” e à sedição – movimento político”. 

Hoje o tal canhão se encontra no Memorial Padre Cícero em Juazeiro do Norte. Inerte e em silêncio, talvez morto de vergonha de tão fracassada aventura.



Fontes: A Sedição de Juazeiro – Rodolfo Teófilo; Juazeiro do Padre Cícero - Manoel Bergström Lourenço Filho; À margem da História do Ceará – Gustavo Barroso.





sexta-feira, 26 de maio de 2017

O CORONEL E A BARATA



Lá no sertão, naqueles tempos, tinha um coronel muito do estribado dos cobres, dono de muitas terras a perder de vista, muito proseador, sabe-tudo, bravateiro até o meio das canelas. Orgulhoso e valentão que nem o Mata-Sete. Só porque tinha dinheiro metido nos cós, ele achava que mandava em todo mundo. E mandava mesmo.

Num tinha nada que ele num soubesse. Metia o bedelho em tudo o que não lhe dizia respeito, ralhava com tudo e com todos, dava palpite até nas coisas das mulheres. Porque tem assunto de mulher que os homens num entende nem que a vaca tussa, mas o coronel, esse sim, sabia de tudo. Num tinha um assunto que ele num botasse a colher.

sábado, 20 de maio de 2017

O PADRE, O MENINO E A GARAPADA DE RAPADURA

Xilogravura encontrada na internet.



Vô-le contá um causo assucedido lá pras banda dos Inhamuns, no interior do Ceará. O causo é o siuguinte e o siuguinte é eche:

Uma feita, vinha um pade em riba duma burrinha já cansadinha da viagem. Os dois, o pade e a burra, a burrinha e o pade, viajavam debaixo dum sol que era tão quente que nem brasa acesa, que nem fornalha. 

Esbaforido pelo calor infernal, o pade viu uma casinha na bêra da istrada. Apeou da burrinha que já não aguentava mais aquela lida de levá o pade.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A SEXTA-FEIRA SANTA NA CASA DE MINHA AVÓ


Minha avó já amanhecia com a cara séria e taciturna logo pela manhã. Quem a via daquele jeito, toda acabrunhada, exigindo a obrigação do silêncio, diria que algo muito sério havia acontecido. Logo ela que sempre fora uma mulher jovial, divertida e brincalhona o tempo todo, mas na Sexta-feira Santa era para ser um dia triste.

- Mataram o Nosso Senhor! – Dizia ela solenemente encurvada, com o terço preto nas mãos trêmulas e a face confiscada por uma pronunciada e profunda melancolia.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

O CABRA QUE LEVOU UM MÓI DE CHIFRE E SE AMANCEBOU-SE COM UMA MALA VÉIA




Pois é, o Chiquim de Nóca, se casou-se com uma moça vistosa! Pense numa cabôca arrumada!

Ela era gostosa mermo? Ouvi dizer.

Vixe! Marminino! Era tão boazuda, a muleca, que num tinha uma roupa que fosse que coubesse nela! Ela só vestia roupinha curta, mostrando os balengotengo! Tudo à mostra! Os zôme virava as cabeça e quase torava o percoço pru mode olhar pra danada!

sábado, 25 de março de 2017

QUANDO CHOVE NO SERTÃO



Quando chove no sertão, o céu de um azul cintilante se faz duma hora para outra cor de chumbo, com nuvens espessas se avolumando no horizonte, fazendo desaparecer a serra no meio de névoas. A vegetação das caatingas, nessas paragens, outrora raquítica e seca, ostenta agora todo o seu luxo e vigor, flores agrestes rebentam no meio da mata, pequenas árvores copadas se revigoram chamando os bem-te-vis, um escampado de relvas se estende sobre o lajeiro; arbustos de melão-caetano se entrelaçam, subindo fagueiros pelas cercas abandonadas.

Meu avô, seu Alfredo, estupefato diante de tanta beleza e que não via há tempos, suspirou bem fundo para sentir o cheiro da chuva e da terra molhada.

– Vixe, minino! Vem mais água por aí!

Minha avó, dona Rita Júlia, pequenininha, enrolada numa colcha de retalhos, com os olhos translúcidos de chuva, assentia com a cabeça, em seu silêncio peculiar.

A tarde ia já se desfazendo em cores pinceladas nos rochedos ao longe.

O sol esmaecia no horizonte e adormecia sobre as estradas sonolentas, iluminando o dia com os seus últimos raios.

A luz tênue e suave do ocaso, serpenteando pela agora verde vegetação da caatinga, debruça-se como vagas douradas e purpúreas sobre a folhagem das carnaubeiras balançadas pelo vento gélido anunciando a noite.

Os frutinhos silvestres salpicam com suas flores brancas e delicadas; o copo-de-leite já se abre lentamente para beber no seu cálice o orvalho noturno. Uma música de notas suaves saúda o pôr-do-sol que já projeta sombras enormes por sobre o sertão chuvoso.

Era a solene hora do Ângelus, a hora misteriosa do entardecer, em que o sertão se prosterna para sussurrar a prece do sertanejo. Um radinho de pilha ao longe entoava a Ave-Maria de Gounod.

A noite prometia ser chuvosa. Os trovões já ribombavam, riscando o céu já escuro com raios impressionantes, clareando toda a mata. A chuva então se precipitou forte, encharcando o chão seco. A serra ao longe envolta em densa neblina parecia tremer sob o impacto da tempestade.


O inverno chegou.







Obs: A propósito – não sei se alguém percebeu – o entardecer descrito foi intencionalmente adaptado de José de Alencar em A Prece do romance O Guarani: …”Um concerto de notas graves saudava o pôr-do-sol e confundia-se com o rumor da cascata, que parecia quebrar a aspereza de sua queda e ceder à doce influência da tarde.

Era Ave-Maria. Como é solene e grave no meio das nossas matas a hora misteriosa do crepúsculo, em que a natureza se ajoelha aos pés do Criador para murmurar a prece da noite”!

sexta-feira, 10 de março de 2017

A FOME DO CHICO DON-DON



Chico de seu Don-Don era um desses minino réi do buchão, amarelo impambado, mais magro do que piolho de peruca. O pai dele, seu Don-Don, tinha uma barraquinha de frutas e verduras no mercado e todo dia, o Chico tava lá ajudando o pai a descarregar os caçuás do lombo dos jumentos que vinham dos sítios e fazendas. 

O Chico era conhecido por todos no mercado como bucho de esmeril. Não escapava nada que não pudesse comer. Comia banana e manga com casca e tudo. Raspava a quenga do coco até ficar bem lisinha, melancia então, o esfomeado traçava umas quatro por dia. Rapadura, cocada, quebra-queixo, Martim-da-vila, pé-de-moleque, alfenim, moreninha, paçoquita e tudo o que era doce, o esfomeado tinha os bolsos cheios e ficava ali só beliscado, sempre com a boca cheia. 

- Pai, tô cum fome! Posso ir merendar lá na banca da dona Jacira?

O pai olhava pro Chiquim com o olhar atravessado.

- Vá, mas volte logo que eu preciso de você aqui pra me ajudar com a clientela! Tu num acabou de comer um monte de coisa aí, que eu vi? Ôxente! Pense num minino esgalamido! Só pode ter puxado pro lado da mãe!

Chico num contava até três e já tava lá na banca da dona Jacira.

- Valhamindeus! Chegou o Chico Don-Don! Vai acabar com as comidas da minha banca! – dizia dona Jacira numa gargalhada. - Que é que tu rái cumê hoje, bicho malassombrado?

- Dona Jacira, bote aí sem pena, duas cuias de cuscuz-com-leite, quatro batata doce, mêi pão cum ovo, duas tapiocas cum leite de coco, duas bruacas e pra beber, bote um litro de suco de murici. E avia que eu tô cuma baita fome!

- Diabéisso?! Tu rái mermo cumê tudo isso? Diabo de fome doida é essa, minino? Parece que vem lá das brenha dos flagelado da seca do Quinze!

- E o que é que a senhora rái fazê pro almoço? – ainda perguntava Chico Don-Don com a cabeça já enfiada no prato de cuscuz-com-leite.

- Valha! Num sei como eche minino num morre impanzinado! Isso aí num engorda é de ruim! – dizia dona Jacira, gargalhando.

Chico Don-Don virou chacota na cidade inteira e por onde passava o povo gritava uma infinidade de apelidos, como bucho de esmeril, come-come da Estrela, boca de caçapa, boca de surrão, entre muitos outros, mas era uma coisa que o Chico Don-Don não se importava nem um pouco. O que ele queria mesmo era encher o bucho. 

Durante um período de seca muito grande, a comida se tornou escassa e isso abalou Chico Don-Don para todo o sempre. Quando cresceu perdeu o juízo completamente, e passou a vasculhar latas de lixos e sarjetas em busca de qualquer coisa que pudesse comer. Vivia como um bicho a procurar miudezas fora de açougues e lutava até com cães vadios por pedaços de carne. Ele ficou gravemente doente, e suspeitava-se que se sentia mal por ter comido um animal morto que supostamente ele teria engolido sem mastigar. Morreu um mês depois de diarreia exsudativa, após uma complicação causada por uma obstrução intestinal grave. 

No leito de morte, ainda suplicava por comida.





quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

AS HISTÓRIAS FANTÁSTICAS DO PADRE CÍCERO ROMÃO




 Ouvi certa vez de um cantador de viola:

“Padim Ciço andava muntcho
No esfôço da união
Todas as vez que ele andava
Os romêro observava
Que ele num pisava no chão”.


Em torno da polêmica e carismática figura daquele padre baixinho de olhos azuis, começou a se desenrolar um monte de histórias fantasiosas e mirabolantes, passando de pai para filho, num redemoinho de narrativas contadas e cantadas nas varandas e nos sobrados dos sertões, no meio das caatingas, na roda das fogueiras dos tangerinos, e que cada vez que eram repetidas, sempre se aumentava um ponto. Quase todo sertanejo sabe uma dessas histórias de cor e salteado e conta como se fosse a mais pura verdade, inclusive dizendo que ouvira do pai, da mãe, dos avós, bisavós, tataravós ou de algum viajante andarilho que dizia ter conhecido pessoalmente o Padre Cícero Romão e por aí vai. Agora começa a história.

O ALMOÇO DE DOMINGO

Conta-se que, certa vez, um coronel abastado convidou o padre Cícero para almoçar na fazenda dele. Dizia-se que o padre nunca recusava um convite para almoçar, fosse de um simples e pobre agricultor ou até mesmo de um rico e abastado coronel cheio dos cobres.

Por volta das onze e meia da manhã, chegou à casa paroquial, um vaqueiro da parte do coronel, a fim de levar o padre Cícero para o almoço na tal fazenda, conforme estava assim combinado. O fato é que o padre Cícero havia esquecido o compromisso firmado com o coronel e já teria almoçado bem cedo. No sertão daqueles tempos, como muitos de nós já sabemos, o almoço era servido normalmente entre às nove e dez horas da manhã. Bastante constrangido com o esquecimento e sem querer fazer uma desfeita com o anfitrião, o padre pediu ao vaqueiro que o aguardasse, pois ele só iria “desalmoçar” e não demoraria muito.

O vaqueiro ouviu aquilo sem entender muito bem. Que diabo era “desalmoçar”? Encolheu os ombros, consultou o relógio de algibeira e viu que já era quase meio dia, mas não se atreveu a apressar o sacerdote.

O padre Cícero voltou então bastante animado, ansioso para ir ao lauto almoço na fazenda do coronel. O vaqueiro consultou mais uma vez o relógio e para seu espanto, marcava ainda dez horas da manhã. O padre Cícero vendo a cara de surpresa do vaqueiro, perguntou:

- Que foi que houve? Estamos atrasados ou adiantados para o almoço?

-Ôxente, meu padim pade ciço, pois eu jurava pela hóstia consagrada que já era quase meio-dia, mas o meu relógio ainda tá marcando dez horas. E olha que esse relógio é dos bons e foi fabricado pelo Mestre Pelúsio! Não estou entendendo mais nada!

O padre Cícero sorriu. Tomou a mão do vaqueiro e disse bem sério.

- Há coisas neste mundo que nunca haveremos de compreender. Essa é uma delas. O tempo voltou atrás, simplesmente. O seu relógio está funcionando perfeitamente, afinal foi feito pelo Mestre Pelúsio. O tempo é que mudou.

Depois desse dia, o vaqueiro maravilhado com o milagre, se dispôs a contar aos quatro ventos, a história de que o padre Cícero Romão “desalmoçou” e voltou no tempo para poder almoçar de novo na casa do coronel.

Padre Cícero era um homem de palavra. Se ele prometesse uma coisa, era certo. Ele primava pela honradez e pela amizade. Era prego batido e ponta virada.

ATRAVÉS DA JANELA

​ Como fazia todos os sábados, lá pelas onze horas, onze e meia, o velho advogado chegava ao bar e sentava numa mesa - quase cativ...