quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

AS HISTÓRIAS FANTÁSTICAS DO PADRE CÍCERO ROMÃO




 Ouvi certa vez de um cantador de viola:

“Padim Ciço andava muntcho
No esfôço da união
Todas as vez que ele andava
Os romêro observava
Que ele num pisava no chão”.


Em torno da polêmica e carismática figura daquele padre baixinho de olhos azuis, começou a se desenrolar um monte de histórias fantasiosas e mirabolantes, passando de pai para filho, num redemoinho de narrativas contadas e cantadas nas varandas e nos sobrados dos sertões, no meio das caatingas, na roda das fogueiras dos tangerinos, e que cada vez que eram repetidas, sempre se aumentava um ponto. Quase todo sertanejo sabe uma dessas histórias de cor e salteado e conta como se fosse a mais pura verdade, inclusive dizendo que ouvira do pai, da mãe, dos avós, bisavós, tataravós ou de algum viajante andarilho que dizia ter conhecido pessoalmente o Padre Cícero Romão e por aí vai. Agora começa a história.

O ALMOÇO DE DOMINGO

Conta-se que, certa vez, um coronel abastado convidou o padre Cícero para almoçar na fazenda dele. Dizia-se que o padre nunca recusava um convite para almoçar, fosse de um simples e pobre agricultor ou até mesmo de um rico e abastado coronel cheio dos cobres.

Por volta das onze e meia da manhã, chegou à casa paroquial, um vaqueiro da parte do coronel, a fim de levar o padre Cícero para o almoço na tal fazenda, conforme estava assim combinado. O fato é que o padre Cícero havia esquecido o compromisso firmado com o coronel e já teria almoçado bem cedo. No sertão daqueles tempos, como muitos de nós já sabemos, o almoço era servido normalmente entre às nove e dez horas da manhã. Bastante constrangido com o esquecimento e sem querer fazer uma desfeita com o anfitrião, o padre pediu ao vaqueiro que o aguardasse, pois ele só iria “desalmoçar” e não demoraria muito.

O vaqueiro ouviu aquilo sem entender muito bem. Que diabo era “desalmoçar”? Encolheu os ombros, consultou o relógio de algibeira e viu que já era quase meio dia, mas não se atreveu a apressar o sacerdote.

O padre Cícero voltou então bastante animado, ansioso para ir ao lauto almoço na fazenda do coronel. O vaqueiro consultou mais uma vez o relógio e para seu espanto, marcava ainda dez horas da manhã. O padre Cícero vendo a cara de surpresa do vaqueiro, perguntou:

- Que foi que houve? Estamos atrasados ou adiantados para o almoço?

-Ôxente, meu padim pade ciço, pois eu jurava pela hóstia consagrada que já era quase meio-dia, mas o meu relógio ainda tá marcando dez horas. E olha que esse relógio é dos bons e foi fabricado pelo Mestre Pelúsio! Não estou entendendo mais nada!

O padre Cícero sorriu. Tomou a mão do vaqueiro e disse bem sério.

- Há coisas neste mundo que nunca haveremos de compreender. Essa é uma delas. O tempo voltou atrás, simplesmente. O seu relógio está funcionando perfeitamente, afinal foi feito pelo Mestre Pelúsio. O tempo é que mudou.

Depois desse dia, o vaqueiro maravilhado com o milagre, se dispôs a contar aos quatro ventos, a história de que o padre Cícero Romão “desalmoçou” e voltou no tempo para poder almoçar de novo na casa do coronel.

Padre Cícero era um homem de palavra. Se ele prometesse uma coisa, era certo. Ele primava pela honradez e pela amizade. Era prego batido e ponta virada.

ATRAVÉS DA JANELA

​ Como fazia todos os sábados, lá pelas onze horas, onze e meia, o velho advogado chegava ao bar e sentava numa mesa - quase cativ...