sábado, 25 de março de 2017

QUANDO CHOVE NO SERTÃO



Quando chove no sertão, o céu de um azul cintilante se faz duma hora para outra cor de chumbo, com nuvens espessas se avolumando no horizonte, fazendo desaparecer a serra no meio de névoas. A vegetação das caatingas, nessas paragens, outrora raquítica e seca, ostenta agora todo o seu luxo e vigor, flores agrestes rebentam no meio da mata, pequenas árvores copadas se revigoram chamando os bem-te-vis, um escampado de relvas se estende sobre o lajeiro; arbustos de melão-caetano se entrelaçam, subindo fagueiros pelas cercas abandonadas.

Meu avô, seu Alfredo, estupefato diante de tanta beleza e que não via há tempos, suspirou bem fundo para sentir o cheiro da chuva e da terra molhada.

– Vixe, minino! Vem mais água por aí!

Minha avó, dona Rita Júlia, pequenininha, enrolada numa colcha de retalhos, com os olhos translúcidos de chuva, assentia com a cabeça, em seu silêncio peculiar.

A tarde ia já se desfazendo em cores pinceladas nos rochedos ao longe.

O sol esmaecia no horizonte e adormecia sobre as estradas sonolentas, iluminando o dia com os seus últimos raios.

A luz tênue e suave do ocaso, serpenteando pela agora verde vegetação da caatinga, debruça-se como vagas douradas e purpúreas sobre a folhagem das carnaubeiras balançadas pelo vento gélido anunciando a noite.

Os frutinhos silvestres salpicam com suas flores brancas e delicadas; o copo-de-leite já se abre lentamente para beber no seu cálice o orvalho noturno. Uma música de notas suaves saúda o pôr-do-sol que já projeta sombras enormes por sobre o sertão chuvoso.

Era a solene hora do Ângelus, a hora misteriosa do entardecer, em que o sertão se prosterna para sussurrar a prece do sertanejo. Um radinho de pilha ao longe entoava a Ave-Maria de Gounod.

A noite prometia ser chuvosa. Os trovões já ribombavam, riscando o céu já escuro com raios impressionantes, clareando toda a mata. A chuva então se precipitou forte, encharcando o chão seco. A serra ao longe envolta em densa neblina parecia tremer sob o impacto da tempestade.


O inverno chegou.







Obs: A propósito – não sei se alguém percebeu – o entardecer descrito foi intencionalmente adaptado de José de Alencar em A Prece do romance O Guarani: …”Um concerto de notas graves saudava o pôr-do-sol e confundia-se com o rumor da cascata, que parecia quebrar a aspereza de sua queda e ceder à doce influência da tarde.

Era Ave-Maria. Como é solene e grave no meio das nossas matas a hora misteriosa do crepúsculo, em que a natureza se ajoelha aos pés do Criador para murmurar a prece da noite”!

sexta-feira, 10 de março de 2017

A FOME DO CHICO DON-DON



Chico de seu Don-Don era um desses minino réi do buchão, amarelo impambado, mais magro do que piolho de peruca. O pai dele, seu Don-Don, tinha uma barraquinha de frutas e verduras no mercado e todo dia, o Chico tava lá ajudando o pai a descarregar os caçuás do lombo dos jumentos que vinham dos sítios e fazendas. 

O Chico era conhecido por todos no mercado como bucho de esmeril. Não escapava nada que não pudesse comer. Comia banana e manga com casca e tudo. Raspava a quenga do coco até ficar bem lisinha, melancia então, o esfomeado traçava umas quatro por dia. Rapadura, cocada, quebra-queixo, Martim-da-vila, pé-de-moleque, alfenim, moreninha, paçoquita e tudo o que era doce, o esfomeado tinha os bolsos cheios e ficava ali só beliscado, sempre com a boca cheia. 

- Pai, tô cum fome! Posso ir merendar lá na banca da dona Jacira?

O pai olhava pro Chiquim com o olhar atravessado.

- Vá, mas volte logo que eu preciso de você aqui pra me ajudar com a clientela! Tu num acabou de comer um monte de coisa aí, que eu vi? Ôxente! Pense num minino esgalamido! Só pode ter puxado pro lado da mãe!

Chico num contava até três e já tava lá na banca da dona Jacira.

- Valhamindeus! Chegou o Chico Don-Don! Vai acabar com as comidas da minha banca! – dizia dona Jacira numa gargalhada. - Que é que tu rái cumê hoje, bicho malassombrado?

- Dona Jacira, bote aí sem pena, duas cuias de cuscuz-com-leite, quatro batata doce, mêi pão cum ovo, duas tapiocas cum leite de coco, duas bruacas e pra beber, bote um litro de suco de murici. E avia que eu tô cuma baita fome!

- Diabéisso?! Tu rái mermo cumê tudo isso? Diabo de fome doida é essa, minino? Parece que vem lá das brenha dos flagelado da seca do Quinze!

- E o que é que a senhora rái fazê pro almoço? – ainda perguntava Chico Don-Don com a cabeça já enfiada no prato de cuscuz-com-leite.

- Valha! Num sei como eche minino num morre impanzinado! Isso aí num engorda é de ruim! – dizia dona Jacira, gargalhando.

Chico Don-Don virou chacota na cidade inteira e por onde passava o povo gritava uma infinidade de apelidos, como bucho de esmeril, come-come da Estrela, boca de caçapa, boca de surrão, entre muitos outros, mas era uma coisa que o Chico Don-Don não se importava nem um pouco. O que ele queria mesmo era encher o bucho. 

Durante um período de seca muito grande, a comida se tornou escassa e isso abalou Chico Don-Don para todo o sempre. Quando cresceu perdeu o juízo completamente, e passou a vasculhar latas de lixos e sarjetas em busca de qualquer coisa que pudesse comer. Vivia como um bicho a procurar miudezas fora de açougues e lutava até com cães vadios por pedaços de carne. Ele ficou gravemente doente, e suspeitava-se que se sentia mal por ter comido um animal morto que supostamente ele teria engolido sem mastigar. Morreu um mês depois de diarreia exsudativa, após uma complicação causada por uma obstrução intestinal grave. 

No leito de morte, ainda suplicava por comida.





O MILAGRE

Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo...