sábado, 20 de maio de 2017

O PADRE, O MENINO E A GARAPADA DE RAPADURA

Xilogravura encontrada na internet.



Vô-le contá um causo assucedido lá pras banda dos Inhamuns, no interior do Ceará. O causo é o siuguinte e o siuguinte é eche:

Uma feita, vinha um pade em riba duma burrinha já cansadinha da viagem. Os dois, o pade e a burra, a burrinha e o pade, viajavam debaixo dum sol que era tão quente que nem brasa acesa, que nem fornalha. 

Esbaforido pelo calor infernal, o pade viu uma casinha na bêra da istrada. Apeou da burrinha que já não aguentava mais aquela lida de levá o pade.

Aí o pade viu um minino e aí chamou o minino.

Ô minino, ô de casa!

Aí foi que o minino, que tava brincando, viu o pade. Todo minino gosta de mexer com os pade.

Aí o pade diche: ô minino, cadê seu pai, cadê sua mãe?

Aí o menino diche que o pai e a mãe dele tinham ido pra feira.

Aí o pade diche assim: vosmicê minino tem não uma aguinha pra dar pru pade e pra burrinha, que é por causa que nóis tá cum sede da viaje?

Aí foi que o minino diche: vô vê se tem. Mas antes me arresponda essa pregunta:

Que pregunta é echa? 

Aí o menino preguntou pro pade: essa burrinha que o sinhô veio nela se transforma de noite numa muié pru mode o sinhô, seu pade, se abufelá cum ela?

É ou num é?

Aí o pade se arretô-se com o minino: me arrespeite que eu sou um pade!

Aí o minino dice: é ou num é? Me arresponda que vô vê se tem água!

É não! Essa burrinha é burrinha mermo, num é muié não!

O pade tava tiririca de ódio do minino.

Aí foi que o pade diche: tem água ou num tem, minino?

O minino diche: tem não. Mas tem garapa de rapadura, qué?

Aí o pade diche: quero.

Aí o minino diche: qué mermo? Óia lá! Vai querê mermo?

Aí o pade diche: já diche que quero, minino maluvido!

O minino foi lá dento da casa e trôxe uma cuia cheinha de garapa de rapadura. o pade bebeu e deu pra burrinha bebê.

Aí o pade diche: tem mais? O minino diche tem e foi buscar mais lá dento e trouxe a cuia mais cheia do que antes e o pade bebeu. E depois bebeu mais uma e mais ôta.

Aí o pade diche: Minino, sua mãe não vai se zangá pruiquê vosmicê me deu echa garapa todinha?

O menino diche: Vai não seu pade, ela num qué mais echa garapa pruique tinha três rato morto dento do pote!

O pade se arretô-se de novo com o minino: muleque maluvido! Pruiquê num diche antes de eu bebê?

Aí o pade pegô a cabaça de tanta reiva que tava do minino e jogou cum tava força que quebrô a cabaça no chão.

Aí o menino arregalô os zói e diche: agora sim, seu pade, por sua culpa é que eu vô levar uma surra das grandes!

Aí o pade diche: o que foi que eu fiz?

Aí o menino diche: pois o sinhô acaba de quebrar a cabacinha da minha vó mijar dento!

Aí o pade se arretô-se de novo com o minino!


(Conto popular do Nordeste)



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