Poemas

NAVIOS ABSTRATOS

“O meu amar-te é uma catedral de silêncios eleitos” – Fernando Pessoa


Anda equidistante meu pensamento
D’álgum lugar , longe das coisas, no último silêncio
De alguém que não sei onde está
Que nem me lembro

E a hora surda e opaca pousa em mim duma vez
Mas estou longe daqui e semi-morto
Vejo navios abstratos
Pontos indefesos no porto

E a hora surda e opaca pousa em mim outra vez
Ondula n’alma uma saudade absurda
E aqui distante relembro só e absorto
Vejo navios abstratos
Monumentos inacabados no porto.




O POETA E O MAR

“...meu coração é um pórtico partido dando excessivamente sobre o mar.” – Fernando Pessoa


Aldrava gigantesca da porta do mundo
É o mar que se ergue
Como uma cidade de vidro e aço
A se expandir noite adentro
Até o topo do céu.

E há países sem mar
Cidades amputadas sem portos
Homens desvairados e sós
Mil olhos sem rostos
Crianças desguarnecidas e poucas
Meninas abortivas
Mulheres loucas
Poetas sem poesia.

O mar é o sangue e a célula do poeta
E contempla o mar o poeta desenganado
(mordisca na solidão uma luz na noite do mar).


AGOSTO

Os olhos do céu cerraram em desespero profundo
E cegaram pelas espadas de luz
As mãos perderam o tato
De aterem-se à vida
E frearam as palvras antes de proferidas.

Os meninos estancaram o pranto
Por não haver mais tanto por chorar (nem dor).
E as mulheres e as meninas
Formas dissipadas
E as cerejeiras sedentas
Tombaram sem cor
Hiroshima, meu amor.


MIL CAMINHOS

Meu inconformismo
Não se aplica às coisas terrenas
E sim ao imenso segredo do Céu.

E me encontro às vezes
À procura de mim
Nos mais distantes lugares
Sem encontros
Nas noites anônimas me acho em abandono
E no umbral do dia
Sinto ter-me perdido
E volto
A essa busca de mim
Sem metas

Por esse mundo de medos
De segredos
De andanças
De solidão
De mil caminhos.



QUINTA ESTAÇÃO

A noite é uma estação
Paira no silêncio sepulcral das tardes
Nos cantos das casas, nos beirais das ruas
No pórtico do cais, nas sacadas
No mais recôndito e escuro lugar
Por trás dos livros, volumes puídos das histórias ancestrais

Esgueira-se por portas mudas
Por escadas de espirais e cai
Nos lugares em luz

A noite é uma estação
Bela como menina (faces rosadas de sol)
Mãe dos artistas bêbados
Dos ladrões, dos mochos, dos bares que não fecham
Medonha quando tardia
Serena quando manhã
A noite é uma estação de poetas.



ATRAVÉS DA JANELA

​ Como fazia todos os sábados, lá pelas onze horas, onze e meia, o velho advogado chegava ao bar e sentava numa mesa - quase cativ...